Consultora, massagista e rezadeira, Eugênia da Silva é a “faz-tudo” da CDN
Eugênia Nascimento da Silva, copeira da Companhia de Notícias, a CDN, segue à risca o que se exige desta seção: é uma verdadeira personagem.
Com 28 anos de empresa, é o registro número um e companheira de longa data do presidente do grupo, João Rodarte, com quem trabalha desde antes de a CDN ser um projeto do que é hoje. Com traços e vestes – colares, pulseiras, ojá na cabeça – tão característicos da Bahia, não demora para a famosa canção “O que é que a baiana tem?”, escrita por Dorival Caymmi e interpretada por Carmen Miranda vir à mente.
De antemão, ao bater o olho, a canção se legitima e é possível confirmar que a baiana interpretada por Eugênia tem brinco de ouro, bata rendada, saia engomada e sandália enfeitada. Ao menos esteticamente, ela consegue seguir o cântico. Mas, o que mais essa baiana de Senhor do Bonfim tem? “Ela tem superpoderes e é superprotetora, uma mãezona”, assopra uma colega de trabalho. “Deve ser porque eu cuido um pouco da vida das pessoas”, diz, aos risos, fazendo menção a um de seus vários outros “cargos” dentro da empresa.
Além de copeira, também atua como conselheira, massagista e rezadeira, sendo esse ofício responsável por lhe render a alcunha de “superpoderosa”. “Às vezes, a pessoa está com dor de cabeça e eu faço uma reza, dou um passe. Também faço uma massagem, caso alguém tenha alguma dor muscular”, comenta.
Dona de uma fé aparente, Eugênia conserva um altar onde mescla suas crenças católicas, espíritas e africanas, que se fundem em suas promessas de simplesmente tentar fazer o bem. O local de adoração chama atenção dos funcionários da CDN, que, “sem saída”, clamam pelas dicas da copeira. “Quando as pessoas pedem um conselho, eu dou, né?” O credo da baiana, no entanto, não se restringe aos pequenos conselhos diários aos colegas de trabalho. Uma das sugestões, inclusive, ajudou a CDN a bater o martelo em uma das decisões mais importantes a ser tomada por uma empresa: a escolha de seu nome.
“O João [Rodarte] sempre me pedia consultas quando ia tomar alguma decisão. No caso do nome, ele tinha algumas sugestões e pediu para eu escolher a melhor. Disse que se fosse para escolher um nome devia ser Companhia de Notícias, que é o nome da CDN. Acabou que deu certo”, ressalta.
“E você já serviu muita gente importante aqui, Eugênia?”, deu a deixa uma funcionária da CDN que nos acompanhava na entrevista. Foi a porta de entrada para algumas peripécias vividas durante os 28 anos de casa. Uma das histórias foi quando a empresa recebeu Chico Buarque e Milton Nascimento para um almoço. No cardápio, a entrada escolhida foi uma salada de broto de feijão que acabou despertando a curiosidade do Bituca, apelido de Milton Nascimento. Ele, segundo Eugênia, adorou o tempero especial.
Em outros casos, o dom para ser orientadora chegou a “laçar” celebridades, pessoas da mídia e da política. “Tive meus tempos de guru, aconselhei muita gente. Fui por muitos anos a guru da Joyce Pascowitch, por exemplo”, comenta. Além das relações indiretas, Eugênia ressaltou algumas amizades que fez com pessoas públicas. Uma delas, de quem se recorda com muito carinho, foi Ruth Cardoso, antropóloga e ex-esposa de Fernando Henrique Cardoso. “Tinha muita amizade com ela, guardo com muito carinho uma caixinha de receitas que ela me deu. É uma pessoa por quem sinto um grande apreço.”
Fora da CDN também mantém suas paixões. Uma delas é pelo seu time de futebol: o Corinthians. “Sou de Itaquera, corintiana”, bradou, orgulhosa, seguida por suas histórias fervorosas atrás do clube de Parque São Jorge, que tem tudo a ver com suas devoções. “Sou corintiana fervorosa, já fui até da Camisa 12 [torcida organizada], daquelas que iam para o fim do mundo ver o time jogar. Agora, não tenho frequentado tanto”, revela, admitindo certa desonra por ainda não conhecer o novo estádio. “Não fui ainda, é uma vergonha. E olha que eu moro ao lado. Mas já estou agitando alguns parceiros para poder ir.”
Ao final da entrevista, enquanto oferece um copo d’água, uma sugestão para interceder pelo maior rival do Corinthians, o Palmeiras, a deixa em meio a uma prova de fogo que põe em xeque suas duas crenças: o catolicismo afroespírita e a paixão pelo time. Sem saída, foge. Mas sem perder o humor. “Olha, esse time ruim tinha que entrar no papo, né? Deixa eu ir buscar água”, diz, enquanto deixa a sala, aos risos.






