Constrangimento alheio
Constrangimento alheio
É antigo o gosto do brasileiro por assistir, extasiado, às lágrimas alheias. Essa sede salobra é saciada pelas emissoras de TV de maneira variada, entre novelas, programas de auditório, reality shows e jornalismo. A discussão sobre a origem dessa afinidade pelo melodrama se dispersa entre o Efeito Tostines, que mereceria um texto à parte. O caso é que já era hora de telespectadores ou redes de TV iniciarem um processo de desligamento desse vício horrível, coisa que parece distante de acontecer. A utopia de se esperar que essa reversão ocorra parece particularmente mais remota no jornalismo. São constantes os exemplos de constrangimento de fontes e, principalmente, personagens, a ponto de embargar-lhes a voz. O pior é que a ilustração mais recente disso, na cobertura do Mundial de Atletismo, aconteceu em uma emissora paga, parte de um universo de telespectadores que se preza ainda menos a esse papel, a um nó ainda pior que vergonha alheia. É .
A pobre criatura constrangida pela TV foi nossa medalhista de ouro em Pequim, a Maurren Maggi, que foi tentar o impossível em Berlim e, além de qualquer expectativa, alcançou 6,68 metros no quarto salto e desistiu do último, quando voltaram as fortes dores no joelho que já lhe acompanhavam há meses. Sim, no momento da desistência de pódio rolaram em seu rosto lágrimas que se misturavam entre a dor e a frustração. Essa manifestação, captada ao longe, pela câmera oficial do evento, é legítima e bonita: espontânea, reveladora dos sacrifícios que faz um atleta para trazer reconhecimento e felicidade ao seu país.
Recuperada, foi de bom grado e com a simpatia que lhe é peculiar conceder entrevista à equipe da Sportv, que cobria o evento. As primeiras palavras com o repórter Fernando Saraiva foram trocadas normalmente. De início, Maurren já deixou claro que o desapontamento é menor do que parece: "Não vim para buscar o ouro, pois nas minhas condições seria difícil saltar mais de 7 metros." Ambos discorreram alguns segundos sobre a lesão no joelho e a saltadora reforçou que "deu o melhor de si". Daí veio a primeira questão delicada, composta de forma duvidosa, que se referia, basicamente, a uma "expectativa alta" por pódio que a faria "sair desapontada". Com a resposta veio o choro e, entre soluços, a atleta disse simplesmente que "não deu" e, mais uma vez: "não estou desapontada". Na sequência, Saraiva mandou a pergunta definitivamente apelativa. Referindo-se à filha da atleta, que proporcionou cenas dignas de "Fantástico" na época dos Jogos Olímpicos, tascou: "A Sofia não estava esperando em casa uma medalhinha?" Pronto. Maurren se afoga entre lágrimas e tentativas de explicação, que depois se dispersam forçosamente, dando lugar a dúvidas sobre futuros campeonatos e intervenções cirúrgicas. Satisfeito, Saraivada... ops!, Saraiva deve ter encerrado as transmissões alegre por ter levado tantos atletas às lágrimas - ele também deu notícia em primeira mão da desclassificação da espanhola Natalia Rodríguez. À própria atleta, diga-se.
Desculpe ao repórter se nada disso é culpa dele, mas sim fruto da orientação do jornalismo da Globo, da chefia ou do mestre do noticiário esportivo de futilidades, o senhor Galvão Bueno. Não consigo pensar em nenhum outro cidadão, instituição ou entidade lúcida que teria apreciado aquela cena. E por mais que tenhamos esse pesado histórico de cutucar a ferida alheia, de ganhar em cima do sofrimento dos outros, alguém tem que dar um basta nesse ciclo, e ninguém melhor do que os repórteres mais novos, sem os vícios dessas gerações sádicas que os antecederam.
Isso não vale só para a Sportv ou para a Globo - é uma prática comum na TV, especialmente a aberta, que ultrapassa a cobertura de esporte. Vítimas e parentes de vítimas de acidentes, assassinatos e outras tragédias são os alvos preferidos dessa reportagem de rapina. O caso do voo da Air France, que deveria ter sido emblemático para se discutir o tratamento diferenciado que certas fontes e personagens merecem, ficou restrito à graça, ao curioso: "Olha que estranho, a mídia francesa preserva os familiares das vítimas do acidente..." O estranho, na verdade, somos nós e nosso comportamento ridículo de urubu sobre carniça.
O repórter pode tentar se defender, afirmando que tal "emoção" - eufemismo vazio com carga de sofisma - do personagem propicia reportagens bem avaliadas pela direção e, em último caso, audiência. Pode dizer que precisa trabalhar assim para "crescer" na carreira. Se crescimento depende desse tipo de apelação, o Paulo Maluf estouraria recordes de popularidade. Desenvolver uma boa carreira jornalística pode ser realizado por meio de boas apurações, com perguntas inteligentes, que aticem o desejo por informação do telespectador e que conquistem o respeito dos colegas. E não essa espécie de chantagem emocional que se agarra em pretensas apologias de popularidade.
O pior é o entrevistado se ver admitindo, do auge de sua humildade, que a imprensa é boa para ele, que fala de seus problemas, que denuncia as mazelas sociais. É o velho problema de um povo que, sempre à margem do Estado, acha que pode ser tutelado pela mídia. Maurren, por exemplo - que não duvido ser até amiga do Saraiva -, logo se recompôs do choro e, entre sorrisos, agradeceu ao apoio e mandou beijos para o Brasil. Claro, alguém antipática e ressentida por uma derrota e depois pela selvageria da imprensa poderia parecer antipática, o que seria péssimo diante da hipócrita idolatria à imagem praticada no Brasil. Sofrer, revoltar-se e entristecer-se não é bacana para um atleta que precisa de público, de patrocínio, de imprensa. Como diria a velha canção do Vanzolini, tem que dar a volta por cima e estar pronto para mais medalhas, ainda mais num país carente delas, como aqui. Só resta saber quando o Brasil não mais terá vergonha de futuras e inevitáveis quedas, ainda mais sendo esta uma terra calejada de tanto cair, que já deveria ter se resolvido quanto a isso há décadas. Mas, não: o fracasso precisa ser registrado com todas as letras, lágrimas e maniqueísmos. Quase sempre vãos.






