“Consciência Artificial”, por Marcelo Molnar
As máquinas podem pensar? Essa foi a pergunta que o cientista e matemático Alan Turing fez em meados do século passado. Desde então, diversa
Opinião
s teorias e testes foram criados para responder. Porém, para muitas pessoas, a dúvida permanece. Nos dias atuais, acompanhando a evolução da inteligência artificial generativa (IAG), vários outros elementos ampliam essa questão. Mas afinal, devemos nos preocupar com a inteligência ou a consciência artificial?
Turing propôs esclarecer essa questão com um jogo no qual uma máquina tentava se passar por um humano. Qualquer equipamento que conseguisse isso, poderia ser considerado inteligente. Em 1940, o neurocirurgião Geoffrey Jefferson propôs um parâmetro diferente de Turing: “Somente quando uma máquina conseguir escrever um soneto ou compor um concerto em consequência dos pensamentos ou emoções que sentiu, e não à distribuição casual dos símbolos, poderemos concordar que a máquina irá se equiparar ao cérebro humano. Ou seja, se ela não apenas escrever algo, mas souber que o escreveu”.
Deveríamos evoluir na linha de Jefferson, mas ainda hoje nos preocupamos como Turing. Sim, as máquinas são inteligentes, o que elas não têm é a consciência disso. Podemos relacionar inteligência à capacidade de produzir, de fazer, diferente da consciência, que está relacionada ao ser. Por isso falamos em inteligência artificial e não em consciência artificial. As máquinas têm a função de ajudar os humanos a fazerem coisas e não em nos substituir. Elas não querem ser humanas. Na verdade, alguns humanos é que desejam que nos comportemos como máquinas.
A IAG de hoje nos parece inteligente, mas definitivamente está muito longe de ter consciência. Podemos usar redes neurais profundas impressionantes, como o jogo AlphaZero da DeepMind, ou grandes modelos de linguagem como o GPT-3 da OpenAI, mas elas são tão enviesadas e irracionais como nós humanos. Afinal, a grande parte de todos os dados que alimentam esses sistemas são dados humanos. Digo grande parte e não tudo, pois os dados sintéticos (produzidos pelas próprias máquinas) já retroalimentam o sistema.
Vivemos em um mundo de aparências, e neste sentido Turing estava certo pois as pessoas geralmente se referem aos algoritmos como máquinas inteligentes, e falam sobre elas como se elas realmente entendessem o mundo, simplesmente porque parecem entender. Ledo engano e, pelo menos por enquanto, uma preocupação totalmente desnecessária. A inteligência artificial não ameaça a humanidade.
Apesar de sofisticado e extremamente útil, a IAG de hoje tem a inteligência similar a uma calculadora muito poderosa. São máquinas projetadas para converter entrada de dados e nos entregar resultados de maneiras que nós humanos, com consciência, interpretemos de maneira significativa. Evoluímos no uso de redes neurais inspiradas em cérebros humanos, mas as melhores delas são infinitamente menos complexas do que o cérebro de um golfinho.
Não podemos negar que as profissões que conhecemos hoje vão desaparecer em algumas décadas. E que as máquinas farão parte deste processo. Aquelas pessoas que não se desenvolverem terão dificuldade, pois o mercado de trabalho vai classificá-las inúteis. O futuro do trabalho dependerá do futuro da aprendizagem. Aprender a reaprender, desenvolver a criatividade e se reinventar é fundamental. As habilidades comportamentais são as que vão permitir essa evolução. A tecnologia exigirá novas competências humanas.
A área de comunicação está no epicentro de toda essa discussão, pois será através de processos comunicativos que vamos nos integrar as máquinas. Sem medos ou neuroses. Esses aparelhos, pelo menos por enquanto, são ferramentas que estão a nossa disposição. Mas como em qualquer fase da história, vamos precisar usar a nossa consciência, nossas emoções e nossas sensibilidades para aproveitar o que o futuro nos reserva.
* é formado em Química Industrial, com pós graduação em Marketing e Publicidade. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Coautor do livro "O segredo de Ebbinghaus". Atualmente é Sócio Diretor da Boxnet.





