Conheça o trabalho dos profissionais que fazem voz padrão

Quem nunca teve curiosidade em saber o rosto e a identidade daquela voz companheira dos intervalos comerciais de TV ou de rádio, que alerta sobre o filme da vez, o dia e o horário de seu programa preferido?

Atualizado em 04/06/2012 às 13:06, por Luiz Gustavo Pacete.

São rostos anônimos, mas com vozes que são facilmente reconhecidas se ouvidas em qualquer ambiente. É o caso do locutor Doni Litieri, voz padrão da TV Record.
Em conversa com a reportagem, não demora nada para que ele comece a dar exemplos daquilo que sabe fazer de melhor: interpretar com a voz. De improviso, ilustra como faz suas chamadas. “Confira no ‘Hoje em Dia’ com Edu Guedes”. Esse tom é mais descontraído”, explica. “Nesta quarta, ‘CSI’. “É uma série policial, portanto, precisa ser chamada com mais firmeza.” Longe de ocupar papel de celebridade e ser parado para dar autógrafos, Litieri conta que tem seus momentos de reconhecimento em público.
“Uma vez a funcionária de um supermercado disse que conhecia minha voz de algum lugar”, diverte-se. Na época Litieri emprestava sua locução para a TV Globo. Situação semelhante já aconteceu com Jacqueline Dalabona, locutora da Rádio BandNews FM. “Às vezes começo a conversar com alguém e a pessoa fica tentando identificar de onde conhece a minha voz. Quando lanço mão do ‘Em 20 minutos tudo pode mudar’, slogan da rádio, as pessoas imediatamente reconhecem”, comenta Jacqueline.
QUESTÃO DE TÉCNICA
O papel de Litieri e Jacqueline, assim como muitos de seus colegas que atuam como locutores padrão, seja no rádio, seja na TV, vai além das chamadas. Tecnicamente essa locução é conhecida como “voz padrão”. É o que dá a identidade ao canal e é indispensável para apresentar as atrações da casa. Segundo publicitários, o dono da voz representa o personagem, que cria relação direta com telespectadores e ouvintes. Litieri reconhece que, aparentemente simples, o cotidiano de um profissional que faz voz padrão requer interpretação e sinergia com o conteúdo da emissora. Ele grava diariamente. Jacqueline costuma gravar de duas a três vezes por semana, de acordo com a demanda das chamadas urgentes e do noticiário.
Litieri explica que na Record existe um departamento específico para locução, encarregado da dinâmica de gravações e da produção dos textos que serão lidos e interpretados. A regra também vale para outros canais de TV. “A técnica é simples, mas determinante. Imagine que minha chamada será responsável por apresentar o programa para o telespectador. É um momento fundamental para ganhar sua atenção.” A técnica destacada pelo locutor depende bastante de interpretação. “O improviso do rádio nos ajuda bastante nessa hora. Se o anúncio for de um programa de auditório, é um ritmo. Se for uma série de aventura, outro. Se é um filme de terror, muda mais ainda”, diz.
ESCOLA DO RÁDIO

Todos os profissionais ouvidos por imprensa para esta matéria são, inicialmente, radialistas. Uns migraram para a TV, outros estão nas duas mídias e outros ainda optam pela atenção exclusiva ao dial. É o caso de Roberto Nonato, que, além de âncora da Rádio CBN, também é voz padrão da Rádio Globo. “Nosso trabalho dá identidade a uma emissora, seja ela noticiosa, seja de entretenimento. Quantas pessoas nem precisam ver a frequência para saber em que rádio estão sintonizadas? Só de ouvir, elas já identificam onde ligaram.”Nonato também dá ênfase à técnica, o que ele prefere chamar de dinâmica. “Eu faço vinhetas de esporte e jornalismo e, ainda que o ouvinte perceba que é a mesma voz, ela não pode ter a entonação igual, deve variar. É desse esforço que depende o sucesso da vinheta de um programa.”
O locutor alerta que, se a chamada não for bem-feita, pode derrubar um bom conteúdo. “Se estiver deslocada, pode tirar o brilho.” Sobre a dinâmica de trabalho, ele explica que o ritmo não é pesado, mas é diário e esclarece que voz padrão não se cria da noite para o dia. É necessário tempo para moldar a tonalidade. Colega de emissora de Nonato e voz padrão da CBN, Laerte Vieira pontua que a rádio all news requer do profissional uma dedicação específica. “A voz precisa ser neutra. Não pode ter muita ‘cor’. Não pode puxar demais para o grave. Nem muito séria nem muito descolada. Se é muito grave, só vai vender produto jornalístico que requer alta credibilidade, mas pode ser incompatível com um programa de entretenimento.”
Para Vieira, o desafio é atuar nessa faixa neutra. O profissional deixa claro que a voz padrão é algo distinto da publicidade. “Sou jornalista e não misturo trabalhos comerciais com notícia. Sempre que existe o oferecimento de um anúncio do programa, ele vem separado e feito por outra pessoa. O produto que eu represento é a CBN somente”, conclui. Voz padrão da Rádio e da TV Bandeirantes, Walker Blaz ressalta o nível estratégico da função para a emissora e a importância de o locutor estar alinhado com a casa. “Quando você se torna a voz de um veículo, todo o seu foco precisa estar ligado no projeto que a direção pretende desenvolver com a sua participação. A partir do instante em que você está integrado, sua voz se transforma no instrumento da divulgação de um produto complexo, que exige o melhor do seu potencial.” Para ele, o trabalho desenvolvido contribui para influenciar todas as pessoas que trabalham no canal. Donos de uma grande responsabilidade, os profissionais de voz padrão são responsáveis por um elo fundamental do negócio: a aproximação da marca da emissora de sua audiência por um dos primeiros meios de comunicação existentes: a voz.
Identidade x Publicidade
Há 12 anos como principal voz publicitária das Casas Bahia, Bob Floriano, atual presidente do Clube da Voz, atua em diversas áreas. Além de locução publicitária, ele também é voz padrão do canal a cabo E! Entertainment. Floriano é jornalista e já apresentou programas como “Shop Tour” e “Fala Brasil” na TV Record. Porém, a formação jornalística não o impede de atuar na locução publicitária. No Clube da Voz seu objetivo é valorizar o locutor e oferecer alternativas de qualidade aos anunciantes.
Clube da Voz
“O Clube da Voz tem o objetivo de reunir locutores profissionais. Sempre considerando que eles já tenham realizado trabalho publicitário. Nosso desafio atual é acompanhar o desenvolvimento do mercado e possibilitar que nosso conteúdo esteja disposto de forma digital. Recentemente, criamos uma rádio digital justamente para ter uma programação que sirva como vitrine para nossas vozes.”
Emprestando a voz
“Há 12 anos, sou a voz das Casas Bahia. Foi sendo construída uma relação de identidade e confiabilidade. A marca percebeu que seu produto estava muito bem impresso no áudio. Eu sempre digo que nós emprestamos um RG para a marca com a nossa voz. E acho que as empresas sérias tomam esse cuidado na hora de selecionar seus locutores.”
Na TV paga
“Também sou voz padrão do canal E! Entertainment há mais de 10 anos. A TV paga é um mercado muito grande e tende a crescer ainda mais. Mas exige qualidade. O investimento deve ser sério. Mas a técnica em si segue a dinâmica dos outros canais.”
Limites da publicidade
“Quando você é voz padrão sempre existe essa divisão. Tem outro profissional nos canais que faz especificamente as chamadas comerciais. Não me importaria de fazer os dois, mas isso é uma decisão do canal. Mas o resumo de tudo isso é: o profissional de voz padrão empresta a credibilidade de sua voz para emissoras e marcas.”

Matéria publicada na edição de junho (279) da Revista IMPRENSA