Confissões eleitorais: o que decide meu voto

Confissões eleitorais: o que decide meu voto

Atualizado em 28/10/2010 às 18:10, por Rodrigo Manzano.

Acabo de receber, fã emocionado, um livro lindo da Editora Leya, "Ensaios", de Truman Capote. Desde uma reportagem que escrevi para a Revista Cult há alguns anos sobre o escritor norte-americano - quando entrevistamos, a editora Denise Goes e eu, o biógrafo de Capote, além de seu advogado, responsável pelo espólio e o editor das obras de Capote nos Estados Unidos - minha admiração por ele se tornou mais intensa, festiva, até. Chegamos a publicar, com exclusividade, uma carta de Capote para Gloria Vanderbilt e a garimpar (virtualmente) entre as centenas de objetos que tinham acabado de ir a leilão pela Bonhams & Butterfields um pequeno pedaço de papel onde Capote escreveu, com tinta vermelha, "I know what I´m doing, except sometimes" ["Eu sei o que estou fazendo, exceto em alguns momentos"]. Então chega-me esse livro, coletânea de textos, nunca publicados em português.
Abro à página 89. "Estilo: e os japoneses", de 1955. Leio: "A primeira pessoa que me impressionou , além do meu círculo familiar, foi um velho cavalheiro japonês chamado sr. Frederik Mariko. O sr. Mariko administrava uma floricultura em Nova Orleans. Eu o conheci quando tinha uns 6 anos, talvez, e andava pela floricultura, e durante os dez anos de nossa amizade, ou até ele morrer subitamente em uma viagem de vapor a St. Louis, ele fez para mim uns vinte brinquedos, todos criados por suas mãos - peixes voadores pendurados em arames, uma maquete de um jardim cheia de flores minúsculas e animais medievais emplumados, uma dançarina com um leque de corda que abanava por três minutos; e esses brinquedos, delicados demais para se poder brincar com eles, foram minha primeira experiência estética - criaram um mundo e estabeleceram um padrão de gosto. Havia um grande mistério em torno do sr. Mariko, não como homem (ele era simples e sozinho e tinha dificuldades de audição, o que enfatizava seu isolamento), mas por não se poder nunca decidir, vendo-o trabalhar nos arranjos, o que o levava a escolher entre as folhas marrons e as treliças verdes, criando assim um efeito tão sofisticado, tão preciso". E continua.
Gosto dessa ideia da beleza mínima das pequenas coisas. Gosto também da poesia de Manoel de Barros: "Aprendo com abelhas do que com aeroplanos / É um olhar para baixo que eu nasci tendo / É um olhar para o ser menor, / para o insignificante que eu me criei tendo. / O ser que na sociedade é chutado como uma barata / cresce de importância para o meu olho./ Ainda não entendi por que herdei esse olhar para baixo. / Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas. / Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão / Antes que das coisas celestiais. / Pessoas pertencidas de abandono me comovem: / tanto quanto as soberbas coisas ínfimas."
Ao contrário do que pode parecer, política é a arte da beleza e das pequenas coisas. A campanha eleitoral deste ano - a mais horrorosa e violenta campanha desde 1989, a primeira da qual me lembro - não teve olhar para as insignificâncias. Grandiloquente, perdeu-se naquilo que não tem importância para o cidadão. Pautada equivocadamente pelo sobe-e-desce dos números de pesquisa, pela resposta imediata das amostragens e pelo teor incendiário das acusações, a campanha não colaborou para o país que desejamos, independentemente de nossa orientação política. À direita e à esquerda, o que se viu foi um espetáculo mesquinho e atrasado. Nem o jornalismo, que poderia salvar o debate, qualificando-o, tem do que se orgulhar.
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Nove mil, cento e quarenta e cinco quilômetros separam a portaria do prédio da IMPRENSA e Nairobi, capital do Quênia; a fronteira entre Estados Unidos e Canadá, via estado de Minesotta; a Ilha da Reunião, na África, e as Ilhas do Desapontamento, na Polinésia Francesa. As duas últimas localidades, por razões toponímicas, poderiam ser o mesmo local, desconheço reunião que não se torne desapontamento, mas uma está a leste, outra a oeste.
Nove mil, cento e quarenta e cinco quilômetros foi o quanto percorri para uma reportagem especial publicada na edição da revista IMPRENSA de setembro, que celebrou os 60 anos da televisão no Brasil. De São Paulo a São Paulo, passando por Macapá, Salvador, Goiânia, Pirenópolis, Florianópolis e São José, a missão era encontrar cinco casas brasileiras e entrevistar seus moradores para entender como a televisão toma parte de seu cotidiano, e o que representa a caixa mágica na vida de brasileiros comuns, como um elemento de integração desse país imenso e tão diverso em suas culturas, seus hábitos, seus comportamentos e suas realidades. A reportagem foi limitada por duas exigências: era preciso que cada residência estivesse em uma região geográfica brasileira diferente e que as famílias não fossem pautadas previamente.
A experiência me propiciou a velha sensação de um foca que sai à rua pela primeira vez, ansioso por encontrar boas histórias, e o medo e insegurança típicos de quem vive no confortável e narcótico esquema "redação, ar-condicionado, telefone, e-mail" a que estamos acostumados, jornalistas deste século XXI. A jornada também me deu de presente uma dor nas costas insuportável, cinco noites mal dormidas, 10 mil milhas na companhia aérea e a saudade de meus óculos, perdidos em algum vôo. Além, claro, de uma intensa experiência jornalística de conhecer novas pessoas e novas realidades ligadas pela poderosa presença da televisão, verdadeiro santuário do imaginário nesses brasis Brasil afora. E também a aflição de quem percebe o quanto as redações estão afastadas do Brasil real, do país que pulsa nas ruas. O quanto nós, jornalistas, menosprezamos a inteligência média do cidadão comum. O Brasil que eu vi nas ruas destas cidades é tão ou mais interessante que qualquer outro lugar do mundo, a leste ou a oeste da redação da IMPRENSA.
Essas andanças mostraram-me as abelhas e a beleza das pequenas coisas. Ignoradas por nós, jornalistas, ignoradas pelos políticos e pela campanha sórdida que não deve ser nunca esquecida como a pior dos últimos tempos.
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No domingo, todos votaremos. Gosto de eleições tanto quanto de Capote e Manoel de Barros. Apesar dos pesares, somos uma democracia e isso deveria ser motivo de um grande orgulho e alegria. Atrás da caixa de papelão que esconde a urna, não sou jornalista, nem professor, nem nada. Não sou branco, nem preto; nem rico, nem pobre; nem culto, nem ignorante; nem crédulo, nem herege. Atrás da caixa de papelão, somos tudo o que apenas uma democracia nos permite ser. O meu voto no domingo está decidido e fundamentado: a minha escolha leva em conta as pequenas coisas, a beleza e os brinquedos de corda da política. "Eu sei o que estou fazendo, exceto em alguns momentos", repetirei Capote.