Concorrência da internet não afeta circulação de jornais no Brasil

Concorrência da internet não afeta circulação de jornais no Brasil

Atualizado em 18/08/2008 às 15:08, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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Enquanto o jornalismo tradicional nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos passa por um sério período de crise, com queda acentuada nos números de exemplares em circulação, demissões em massa e diminuição dos leitores, a circulação dos jornais nos países emergentes, como Brasil, Índia e China, cresce de maneira surpreendente.

Seria esse um argumento para os meios de comunicação brasileiros não se preocuparem com a rápida disseminação da Internet já que, só no ano passado, a circulação dos nossos jornais aumentou 12%? De acordo com um debate na manhã desta segunda-feira (18), no 7º Congresso Brasileiro de Jornais, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais), a resposta é não.

Em contrapartida ao aumento de circulação dos jornais, a Internet no Brasil também não pára de crescer. Enquanto a soma dos exemplares das 30 maiores publicações diárias do país chega a cerca de 3,5 milhões - número semelhante ao das maiores revistas, segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC) - uma pesquisa do Datafolha mostra que o Brasil já alcançou a marca de 59 milhões de internautas, em dados apresentados por Caíque Severo, diretor de conteúdo do iG.

Para Rosental Calmon Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas, na Universidade do Texas (EUA), embora a situação do Brasil pareça promissora em relação à dos Estados Unidos, por exemplo, não podemos fingir que não há uma mudança ocorrendo. "A sociedade industrial está sendo substituída pela sociedade da informação ou do conhecimento. Surge um outro sistema de mídia, e a Internet é apenas a ponta mais visível de uma nova revolução, a revolução digital", analisa o jornalista.

Aposta na interatividade

E como acompanhar essa transformação? Nos Estados Unidos, onde a crise se faz mais aparente, as empresas de comunicação estão apostando na interatividade com o leitor. A Internet transformou os consumidores de notícias, que deixaram de ser receptores passivos para, pela primeira vez, serem também transmissores, através de blogs, por exemplo. A mídia tradicional perdeu o controle e o poder da informação, que está cada vez mais na mão dos indivíduos. "Ninguém fala no fim da comunicação de massa, mas em uma mudança na forma de fazer essa comunicação", diz Rosental.

Um exemplo dessa transformação no Brasil foi dado por Aloy Jupiara, editor executivo da Globo Online. Ele explicou que a Internet vai se conjugar com o meio impresso para criar algo novo, com o leitor cada vez mais ativo. O jornalista passa a ser mediador do diálogo, e não mais dono da informação. Para isso, o jornal O Globo aposta em ferramentas como o "Eu Repórter" - em que os leitores mandam fotos e pautas para a redação - e a publicação no jornal impresso de comentários feitos no site. "É um compromisso de pertencimento. Os leitores acreditam que o jornal é um jornal deles", afirmou Aloy.

Aquecimento da economia brasileira

Em um palestra realizada também nesta segunda, Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior explicou porque a circulação de jornais tem crescido no país. "A performance da indústria jornalística tem relação com o crescimento econômico. Se a economia vai mal, as vendas caem", decalrou Jorge. Ele acredita que o crescimento da classe média é um fator decisivo para o aumento de leitores. "A busca por notícia tende a crescer quando as pessoas entram no mercado de trabalho e acham que tem mais direitos. Para um semi-analfabeto, ler um jornal é status", disse.

E como será a conjuntura nacional para os meios de comunicação daqui a dez anos, em 2020? "Para mim há uma conclusão óbvia: a indústria brasileira de jornalismo de 2020 refletirá o Brasil de 2020. Os jornais não desaparecerão para os meios eletrônicos. Sobreviverão e se apropriarão das novas mídias em seu proveito", declarou o ministro.