Como estancar o sangue da TV, por Gabriel Priolli

Um artigo do portal Carta Maior noticiava outro dia que “antes de zerar morte por tráfico, Uruguai proibiu programas policiais”. O autor sustentava que, em meados de 2012, o governo Mujica proibiu programas policiais similares ao “Cidade Alerta” e “Brasil Urgente” entre 6h e 22h, sob a alegação de que eles “promovem atitudes ou condutas violentas e discriminatórias”.

Atualizado em 04/11/2015 às 13:11, por Gabriel Priolli.

Em decorrência dessa e de outras medidas, “em junho de 2014, o governo uruguaio anunciou que as mortes ligadas ao tráfico de drogas foram zeradas no país”.


Fiquei imaginando o pandemônio que se instauraria em Pindorama se José Luiz Datena, Marcelo Rezende e seus clones fossem constrangidos com a mera cogitação de medida semelhante. Até o carpete das redações brazuca se ergueria do chão em protesto.


Ouviríamos a candente defesa da liberdade desses apresentadores inocularem a sua dose diária de terror na audiência, diante do crime supostamente “descontrolado”, e de seu direito de expressar apoio à violência policial, em conformidade com a tese social dominante de que “bandido bom é bandido morto”.


Fui em busca de confirmação para a referida proibição uruguaia, mas não encontrei. Seria improvável que não houvesse um único protesto dos jornais locais e da SIP contra a medida, e não vi nenhum. O que o governo uruguaio quer e está incluído na nova Lei de Meios do país, aprovada em 2014, mas ainda aguardando regulamentação, é mais rigor no horário de proteção à infância, que se estende das 6h às 22h. Isso incluiria restrições de conteúdo também aos programas jornalísticos, o que afetaria diretamente os noticiários policiais.


Mas, lá como cá, há forte oposição à ideia, porque muita gente argumenta que é a família e não o Estado quem deve regular o acesso das crianças aos conteúdos audiovisuais. Os governantes uruguaios sabem do vespeiro em que estão pondo a mão e fazem média.


“Nos propomos revisar e aplicar a normativa atual que o Uruguai já tem a respeito, realizando controles efetivos da mesma e estimulando a participação ativa e informada da população, em defesa de seus direitos”, endurecem de um lado, no documento “Estratégia pela Vida e pela Convivência”, que vem orientando a política de segurança pública do país.


Mas amolecem de outro: “Cremos que é imprescindível propor aos próprios meios e seus trabalhadores que desenvolvam formas de autorregulação adotadas por eles mesmos, de maneira livre, transparente e voluntária, com a mais ampla participação cidadã”. Em português claro, a estratégia é simples: ou vai por bem, com a mídia colaborando na contenção dos telejusticeiros e seus desatinos diários, ou vai na marra, com lei goela abaixo e censura de conteúdo. O que vai ser? E como refletirá por aqui?