Comendo na mão (nem sempre limpa) das fontes
Comendo na mão (nem sempre limpa) das fontes
O jornalista depende basicamente das suas fontes. Isso significa que, como mediador, recorre necessariamente a outras pessoas para obter informações e, com isso, informar a sua audiência (leitores, telespectadores, radiouvintes ou internautas).
Na prática, no entanto, esse processo, aparentemente óbvio, tem se caracterizado, quase sempre, por algumas particularidades.
Em primeiro lugar, um número significativo de notícias/reportagens está respaldado em apenas uma única fonte, ou seja, não há pluralidade de falas ou vozes, opiniões ou versões, como se deveria esperar. Uma pessoa apenas dá o recado e a matéria se encerra por aí, com a maior tranqüilidade. O jornalista lava as mãos e vai dormir em paz, certo de que cumpriu bem a sua tarefa.
Em segundo lugar, as fontes são tidas muitas vezes como descomprometidas, ou seja o jornalista assume que está diante de uma voz ou fala independente. Este fato é mais dramático em algumas coberturas do que em outras. Na política, costuma-se admitir que há diferenças de visões ou de interesses em função de partidos e do jogo recorrente entre situação x oposição. Ouve-se pelo menos um parlamentar a favor e um contra para repercutir determinado tema ou assunto. Aceita-se pois que há interesses em disputa, embora muitas vezes a imprensa assuma uma perspectiva oficialesca (como gostam e confiam nas autoridades os nossos colegas!). Já, por exemplo, na economia e negócios (incluindo aí as coberturas específicas de agronegócio, telecomunicações etc), ciência e tecnologia e saúde, a monofonte (termo utilizado aqui para designar tanto uma fonte única como para identificar um conjunto de fontes que defendem os mesmos interesses) predomina.
Finalmente ( e o problema acontece com freqüência e é grave), são acessadas as fontes que têm vínculos comerciais com o veículo, do tipo operação casada, comum especialmente em editorias e veículos especializados. Você já percebeu como os executivos (as fontes) que participam de determinadas reportagens são da mesma empresa (ou entidade, ou do governo) que anuncia no veículo?
Alguns veículos prezam tanto a sua sustentabilidade que abrem mão de seu compromisso público e fica mesmo difícil cobrar deles alguma coisa porque, no fundo, são apenas captadores de anúncios e bajuladores de autoridades. Não debatem coisa alguma, são veículos-releases a serviço de qualquer um (que possa pagar a conta).
A imprensa brasileira (na verdade, é sempre mais correto reconhecer que há imprensas brasileiras - no plural - porque há diferentes sistemas de produção e culturas jornalísticas em nosso País) abriu mão há muito de sua capacidade investigativa e tem se tornado burocraticamente preguiçosa. Há exceções, é claro, mas elas podem ser contadas com os dedos das mãos.
A situação é mais escandalosa quando contemplamos alguns setores e empresas. É possível perceber esta falta de espírito crítico em determinadas coberturas, como a de medicamentos, agroquímica, biotecnologia, as montadoras e até a indústria tabagista e de bebidas, quando se esperava que as suspeições com respeito à defesa de interesses privados fossem normais.
A indústria da saúde, em particular os grandes laboratórios, faz o seu lobby pela imprensa, muitas vezes pressionando os governos (ameaça de demissões e de retaliações internacionais) e manipulando a opinião pública, com o objetivo único de vender medicamentos, muitos deles de eficácia discutível e mesmo nocivos à saúde. Nunca se retirou tanto remédio do mercado como agora, o que comprova a ineficácia dos órgãos reguladores/controladores como o poderoso FDA e a nossa Anvisa (que aprova aqui o que é proibido lá fora).
Os fabricantes de transgênicos continuam insistindo no argumento, com a complacência da mídia, que os seus produtos são a opção para matar a fome do mundo e cinicamente jogam nos bastidores tentando travestir de ciência o que é apenas interesse comercial. Falam contra os agrotóxicos e se valem deles para aumentar os seus lucros , ao mesmo tempo em que aprofundam o processo de concentração e monopólio das sementes em todo o mundo, inclusive e especialmente no Brasil.
A indústria agroquímica, de mineração , de papel e celulose mantêm o seu discurso hipócrita de sustentabilidade enquanto poluem o solo e a água, predam os recursos naturais e afrontam a biodiversidade. Você já percebeu como as campanhas das empresas que atuam nestes setores (que investem centenas de milhões para limpeza de imagem) proclamam, repetidamente, a sua sustentabilidade ambiental? Freud explica e a sociedade consciente repudia.
A indústria tabagista (vamos nos fixar na Souza Cruz e na Philip Morris, as que dominam o mercado) tenta legitimar a sua ação deletéria à saúde se candidatando a prêmios de responsabilidade social ( a falta de compromisso das entidades patrocinadoras facilita essa estratégia). Proclama que paga impostos demais, mas causa um prejuízo enorme para o sistema de saúde com os seus produtos nocivos, com a cumplicidade das autoridades que não conseguem ao menos reduzir o contrabando e a evasão de divisas.
As montadoras, que no início de 2007 andavam chorando pelos corredores de Brasília, festejam lucros enormes à custa da venda de milhões de automóveis , tornando o trânsito infernal nas grandes cidades e aumentando terrivelmente a poluição do ar. Nunca houve tantos "recalls" de veículos, o que talvez seja fácil explicar: a legislação é frouxa (um pequeno anúncio na mídia já resolve o problema causado aos consumidores) e o controle de qualidade cada vez mais precário porque a ânsia pelo lucro (modelos precisam ser lançados imediatamente) não permite maior atenção à segurança dos veículos.
A imprensa faz a apologia do aumento da área cultivada por transgênicos, dos recordes da venda de automóveis, da responsabilidade social da indústria tabagista (que mata milhões anualmente em todo o mundo), da sustentabilidade da indústria agroquímica (agrotóxico é veneno, não remedinho de planta!) e publica releases da indústria da saúde para engordar seus lucros.
Estas notícias / reportagens quase sempre estão subsidiadas pelas fontes privadas (cada vez mais competentes em programas de "media training"), com o apoio de algumas agências/assessorias que sobrevivem do trabalho sujo de "limpeza de imagem".
Para evitar leituras e interpretações equivocadas, vamos deixar claro que há excelentes assessorias e agências de comunicação e que os comentários aqui postados não se endereçam ao setor como um todo. Mas é preciso não haver dúvida de que tentar convencer a imprensa e a opinião pública da responsabilidade social da indústria tabagista, da sustentabilidade da indústria agroquímica, do compromisso da indústria de transgênicos com a redução da fome ou mesmo da eficácia de determinados medicamentos significa desrespeito à ética e à cidadania.
A imprensa brasileira, e os jornalistas em geral, precisam retomar a sua capacidade investigativa e duvidar da boa-vontade de determinadas fontes, partindo sempre do pressuposto de que "não existe almoço grátis". Enquanto isso, vamos continuar assistindo à multiplicação dos "a convite de", de coletivas bem freqüentadas (especialmente quando há farta distribuição de brindes e almoços generosos) e de outras benesses patrocinadas por interesses privados ou públicos, muitas vezes excusos.
Não fica bem comer na mão de determinadas fontes. O bom jornalista e o veículo de respeito deveriam no mínimo observar a limpeza da mão que os alimenta. A democracia e a cidadania agradeceriam muito se eles tomassem este cuidado básico.






