Com mercado em alta, paparazzi se organizam para abastecer demanda de celebridades
No início de julho, a atração comandada por Pedro Bial às quintasfeiras na TV Globo – o “Na Moral” – colocou frente a frente o ator Pedro Cardoso e representante de uma classe, em geral, pouco exaltada pelas celebridades, os paparazzi.
Atualizado em 03/09/2012 às 16:09, por
Guilherme Sardas*.
atração comandada por Pedro Bial às quintas-feiras na TV Globo – o “Na Moral” – colocou frente a frente o ator Pedro Cardoso e representante de uma classe, em geral, pouco exaltada pelas celebridades, os paparazzi. Além de acalorado, como mira a proposta do programa, o debate acabou resvalando no próprio conglomerado global.
Depois de chamar a profissão de “medíocre”, Cardoso contestou que o tema fosse polêmico. “Polêmico é que as pessoas que ganham dinheiro com isso não estejam aqui, porque você não ganha”, disse ao fotógrafo Felipe Panfili. Veio a réplica. “O principal site que compra fotos [de mim] é da Globo, a principal revista que compra fotos é da Globo”. “Olha, que delícia a gente poder falar disso aqui”, emendou o apresentador (veja o vídeo).
“Acho que nem o Bial, nem a produção do programa imaginavam uma reação intempestiva como aquela do Pedro. Ainda bem que o programa não foi editado”, conta o fotógrafo. Juízos à parte, Cardoso desconhecia que Panfili, além de paparazzo, é dono de uma das maiores agências de fotos de celebridades do país, a carioca AgNews. Ganha dinheiro com um mercado em franca ebulição.
O novo mercado
Fundada por dois fotógrafos em 2000, hoje a agência tem 35 profissionais. “O boom foi em 2010. Mas, de lá para cá, a demanda tem crescido de maneira absurda”, explica. Diariamente, gera cerca de 40 sets de fotos – ou seja, 40 coleções de personagens diferentes –, franqueando todo o acervo on-line aos seus contratantes, revistas como a Quem, Caras, IstoÉ Gente, além de portais como Ego, Babado, entre outros.
É o modelo tradicional que tem absorvido a antiga modalidade, baseada na contratação de fotógrafos fixos pelos veículos e compras eventuais por freelancers. Segundo Marcelo Camacho, diretor de redação da revista Quem, a grande transformação aconteceu há cerca de quatros anos, com o crescimento vertiginoso de sites de celebridades e o advento das câmeras digitais – o que acabou democratizando a profissão.
“Pouco a pouco, eles perceberam o que as revistas de celebridades faziam e este material começou a cair na nossa mão. Eu recebia fotos de vários paparazzi com a mesma foto, mas só comprava de um. Então, eles se juntaram, porque enquanto um faz uma foto, os outros quatro iam atrás de outras notícias e eu poderia comprar todas”, explica.
Arquivo Pessoal Clayton Militão Os valores dos contratos costumam ser definidos caso a caso, com base em critérios como tamanho e importância da publicação, plataforma de publicação – web e impresso, ou os dois – e inclusão ou não de pequenos vídeos, a mais recente tendência do mercado. “São frames de 30 ou 40 segundos. Geralmente, quem consome essas notícias, gosta também de um videozinho”, diz Clayton Militão, paparazzi da Foto Rio News.
Quando vendidas de forma avulsa – serviço oferecido apenas por algumas agências –, as melhores fotos giram em torno de 150 reais. Como todo mercado, entre os paparazzi, há os “produtos em alta”. Flagras do casal Angélica e Luciano Huck e de Juliana Paes têm garantido altas audiências dos portais e, quando exclusivas de um veículo, alavancado altas vendagens em banca. É quase unânime, porém, que as fotos mais valiosas da atualidade são as do casal Cauã Reymond e Grazi Massafera. Com um detalhe. “Se tiver com criança, a família reunida, é mais vendável ainda. Entra nisso uma corrida para fazer a foto da filha da Grazi, que ainda não foi fotografada”, explica Militão.
Na polêmica
Apesar da indignação um tanto explícita de muitas celebridades sobre os métodos utilizados pelos paparazzi, fotógrafos e veículos defendem que há respeito e esforço permanente de se estabelecer um relacionamento saudável com as fontes.
“Nos EUA, a relação é totalmente diferente. Nenhum assessor de lá atende jornalista como aqui, onde existe uma proximidade maior com o artista. Então, eles não têm nada a perder. Por exemplo, cada agência coloca 10 ou 12 paparazzi atrás da Lindsay Lohan ou da Britney Spears. São umas 70 pessoas atrás do artista”, comenta Camacho.
Divulgação Marcelo Camacho Para Militão, hoje o país “não tem nenhum veículo altamente explorador da imagem da celebridade”. “Ninguém foca fotos de artistas bêbados, caindo na rua, como acontece nos EUA e na Europa. Ao mesmo tempo em que nossas revistas publicam uma foto da Grazi na praia, também ligam para a assessoria, pegam umas fotos de estúdio, fazem uma entrevista, para que não haja esse conflito”, diz.
É comum ainda – argumentam os fotógrafos – que imagens que comprometeriam a carreira de famosos sejam evitadas ou relegadas ao fundo das gavetas das agências. “Já aconteceu de a gente pegar um galã global numa cena homossexual, que seria algo negativo tanto para ele, quanto para gente. Se você for à praia de Ipanema, você vai ver sempre um atorzinho fumando maconha. Muitas destas fotos não são nem enviadas para os mailings dos clientes para evitar problemas. A orientação, hoje, é para nem fotografar”, conta Panfili.
Outro ponto da polêmica é fronteira às vezes pouco nítida entre uma foto bem justificada do mero voyeurismo gratuito. “Superficialidades como ‘fulano toma suco em lanchonete do Leblon’ não atendem à curiosidade dos leitores da revista”, diz José Esmeraldo, editor-chefe da revista Contigo do Rio de Janeiro. Camacho pondera que o fato de estas fotos não terem custo extra – pois incluídas no pacote firmado com as agências – acaba estimulando seu uso. “Muito por isso, a fulana chamando o táxi acaba entrando no site”.
Abusos e lei
Para garantir que não haja desrespeito às leis do país, os veículos brasileiros costumam evitar fotos não autorizadas de celebridades em ambiente privado, incluindo as que tenham sido obtidas por meios pouco ortodoxos como “escalada de muro” ou auxiliadas por escadas. O quadro, porém, não inviabiliza a polêmica, nem mesmo que parte dos profissionais cometa abusos.
Em 2010, a atriz Danielle Winits ganhou processo contra paparazzo, com a alegação de que “o fato de um ator ter uma vida pública não autoriza a exposição de sua vida íntima, ainda que esteja em locais públicos".
“A legislação brasileira, no caso, é mais rigorosa do que as normas inglesas ou italianas ou, ainda, aquelas que ditam o comportamento dos paparazzi americanos, especialmente os de Los Angeles, como se vê nos tabloides europeus e americanos”, comenta Esmeraldo. A publicação é uma das poucas que não possui contratos fixos com agências de paparazzi, fazendo compras avulsas com estas mesmas agências ou freelancers.
Segundo o advogado Ricardo Brajterman, que representou Winits na ocasião e tem acompanhado inúmeros outros casos similares, tanto a pessoa pública, como a anônima, têm protegidas pelas leis constitucionais e infraconstitucionais seu nome e sua imagem, de forma que não podem ser exploradas de forma comercial. Ao mesmo tempo, acrescenta que a Constituição também permite que a imagem e o nome de pessoas que estejam envolvidas em fatos com repercussão pública sejam utilizadas.
Neste aparente impasse jurídico, entra outra norma de direito, o abuso de direito. “Ou seja, tenho o direito de fotografar determinada pessoa que esteja na praia? Tenho. Mas, se eu fizer isso de forma ostensiva, exagerada, causando constrangimento ilegal, fazendo com que a pessoa fotografada perca a espontaneidade por estar sendo fotografada de forma exaustiva, aí já tem um abuso de direito”, conclui.
*Com Luiz Vassallo

Depois de chamar a profissão de “medíocre”, Cardoso contestou que o tema fosse polêmico. “Polêmico é que as pessoas que ganham dinheiro com isso não estejam aqui, porque você não ganha”, disse ao fotógrafo Felipe Panfili. Veio a réplica. “O principal site que compra fotos [de mim] é da Globo, a principal revista que compra fotos é da Globo”. “Olha, que delícia a gente poder falar disso aqui”, emendou o apresentador (veja o vídeo).
“Acho que nem o Bial, nem a produção do programa imaginavam uma reação intempestiva como aquela do Pedro. Ainda bem que o programa não foi editado”, conta o fotógrafo. Juízos à parte, Cardoso desconhecia que Panfili, além de paparazzo, é dono de uma das maiores agências de fotos de celebridades do país, a carioca AgNews. Ganha dinheiro com um mercado em franca ebulição.
O novo mercado
Fundada por dois fotógrafos em 2000, hoje a agência tem 35 profissionais. “O boom foi em 2010. Mas, de lá para cá, a demanda tem crescido de maneira absurda”, explica. Diariamente, gera cerca de 40 sets de fotos – ou seja, 40 coleções de personagens diferentes –, franqueando todo o acervo on-line aos seus contratantes, revistas como a Quem, Caras, IstoÉ Gente, além de portais como Ego, Babado, entre outros.
É o modelo tradicional que tem absorvido a antiga modalidade, baseada na contratação de fotógrafos fixos pelos veículos e compras eventuais por freelancers. Segundo Marcelo Camacho, diretor de redação da revista Quem, a grande transformação aconteceu há cerca de quatros anos, com o crescimento vertiginoso de sites de celebridades e o advento das câmeras digitais – o que acabou democratizando a profissão.
“Pouco a pouco, eles perceberam o que as revistas de celebridades faziam e este material começou a cair na nossa mão. Eu recebia fotos de vários paparazzi com a mesma foto, mas só comprava de um. Então, eles se juntaram, porque enquanto um faz uma foto, os outros quatro iam atrás de outras notícias e eu poderia comprar todas”, explica.
Arquivo Pessoal Clayton Militão Os valores dos contratos costumam ser definidos caso a caso, com base em critérios como tamanho e importância da publicação, plataforma de publicação – web e impresso, ou os dois – e inclusão ou não de pequenos vídeos, a mais recente tendência do mercado. “São frames de 30 ou 40 segundos. Geralmente, quem consome essas notícias, gosta também de um videozinho”, diz Clayton Militão, paparazzi da Foto Rio News.
Quando vendidas de forma avulsa – serviço oferecido apenas por algumas agências –, as melhores fotos giram em torno de 150 reais. Como todo mercado, entre os paparazzi, há os “produtos em alta”. Flagras do casal Angélica e Luciano Huck e de Juliana Paes têm garantido altas audiências dos portais e, quando exclusivas de um veículo, alavancado altas vendagens em banca. É quase unânime, porém, que as fotos mais valiosas da atualidade são as do casal Cauã Reymond e Grazi Massafera. Com um detalhe. “Se tiver com criança, a família reunida, é mais vendável ainda. Entra nisso uma corrida para fazer a foto da filha da Grazi, que ainda não foi fotografada”, explica Militão.
Na polêmica
Apesar da indignação um tanto explícita de muitas celebridades sobre os métodos utilizados pelos paparazzi, fotógrafos e veículos defendem que há respeito e esforço permanente de se estabelecer um relacionamento saudável com as fontes.
“Nos EUA, a relação é totalmente diferente. Nenhum assessor de lá atende jornalista como aqui, onde existe uma proximidade maior com o artista. Então, eles não têm nada a perder. Por exemplo, cada agência coloca 10 ou 12 paparazzi atrás da Lindsay Lohan ou da Britney Spears. São umas 70 pessoas atrás do artista”, comenta Camacho.
Divulgação Marcelo Camacho Para Militão, hoje o país “não tem nenhum veículo altamente explorador da imagem da celebridade”. “Ninguém foca fotos de artistas bêbados, caindo na rua, como acontece nos EUA e na Europa. Ao mesmo tempo em que nossas revistas publicam uma foto da Grazi na praia, também ligam para a assessoria, pegam umas fotos de estúdio, fazem uma entrevista, para que não haja esse conflito”, diz.
É comum ainda – argumentam os fotógrafos – que imagens que comprometeriam a carreira de famosos sejam evitadas ou relegadas ao fundo das gavetas das agências. “Já aconteceu de a gente pegar um galã global numa cena homossexual, que seria algo negativo tanto para ele, quanto para gente. Se você for à praia de Ipanema, você vai ver sempre um atorzinho fumando maconha. Muitas destas fotos não são nem enviadas para os mailings dos clientes para evitar problemas. A orientação, hoje, é para nem fotografar”, conta Panfili.
Outro ponto da polêmica é fronteira às vezes pouco nítida entre uma foto bem justificada do mero voyeurismo gratuito. “Superficialidades como ‘fulano toma suco em lanchonete do Leblon’ não atendem à curiosidade dos leitores da revista”, diz José Esmeraldo, editor-chefe da revista Contigo do Rio de Janeiro. Camacho pondera que o fato de estas fotos não terem custo extra – pois incluídas no pacote firmado com as agências – acaba estimulando seu uso. “Muito por isso, a fulana chamando o táxi acaba entrando no site”.
Abusos e lei
Para garantir que não haja desrespeito às leis do país, os veículos brasileiros costumam evitar fotos não autorizadas de celebridades em ambiente privado, incluindo as que tenham sido obtidas por meios pouco ortodoxos como “escalada de muro” ou auxiliadas por escadas. O quadro, porém, não inviabiliza a polêmica, nem mesmo que parte dos profissionais cometa abusos.
Em 2010, a atriz Danielle Winits ganhou processo contra paparazzo, com a alegação de que “o fato de um ator ter uma vida pública não autoriza a exposição de sua vida íntima, ainda que esteja em locais públicos".
“A legislação brasileira, no caso, é mais rigorosa do que as normas inglesas ou italianas ou, ainda, aquelas que ditam o comportamento dos paparazzi americanos, especialmente os de Los Angeles, como se vê nos tabloides europeus e americanos”, comenta Esmeraldo. A publicação é uma das poucas que não possui contratos fixos com agências de paparazzi, fazendo compras avulsas com estas mesmas agências ou freelancers.
Segundo o advogado Ricardo Brajterman, que representou Winits na ocasião e tem acompanhado inúmeros outros casos similares, tanto a pessoa pública, como a anônima, têm protegidas pelas leis constitucionais e infraconstitucionais seu nome e sua imagem, de forma que não podem ser exploradas de forma comercial. Ao mesmo tempo, acrescenta que a Constituição também permite que a imagem e o nome de pessoas que estejam envolvidas em fatos com repercussão pública sejam utilizadas.
Neste aparente impasse jurídico, entra outra norma de direito, o abuso de direito. “Ou seja, tenho o direito de fotografar determinada pessoa que esteja na praia? Tenho. Mas, se eu fizer isso de forma ostensiva, exagerada, causando constrangimento ilegal, fazendo com que a pessoa fotografada perca a espontaneidade por estar sendo fotografada de forma exaustiva, aí já tem um abuso de direito”, conclui.
*Com Luiz Vassallo






