Com Instant Articles, Facebook dá mais um passo rumo ao casamento com o jornalismo
“Estamos esperançosos de que essa mudança temporária vai dar um impulso para tornar o mobile uma parte ainda mais central de tudo o que fazemos.
Atualizado em 14/08/2015 às 17:08, por
Gabriela Ferigato.
Durante uma semana, os funcionários do New York Times davam de cara com essa mensagem toda vez que tentavam acessar o site do jornal pelo desktop, direcionando-os para seus smartphones ou tablets. Mesmo tendo mais da metade de seu tráfego via dispositivos móveis, o NYT quer mais.
Crédito:reprodução Quase dez milhões de pessoas seguem diariamente suas atualizações pelo Facebook. Inevitavelmente, a iniciativa do gigante da internet, batizada de Instant Articles, saltou aos olhos. A conversa entre a companhia e veículos de comunicação não é de hoje. Desde 2014, ambos discutiam um possível projeto que acelerasse a exibição das páginas para os usuários de smartphones.
Até aí, tudo bem. Mas a parte central do acordo está na seguinte afirmação: os leitores não sairiam da rede social para ler as notícias, já que seriam publicadas pelo próprio Facebook, sem que seja necessário o direcionamento para o site do jornal. Em contrapartida, compartilharia 100% da receita publicitária que eles vendem em torno de artigos e 70% do que é vendido pela empresa de tecnologia.
Google, Apple, Facebook demonstraram interesse em se aproximar da mídia. Mas seriam eles amigos ou inimigos? Já surgiu até o termo “frenemy”, uma junção dos dois em inglês. Por ora, NYTimes , The Guardian , BuzzFeed, National Geographic , NBC News, The Atlantic, BBC News, Bild e Spiegel atualizaram seus status para “em um relacionamento sério” com o Facebook, já que foram os primeiros a formalizar parceria no projeto.
“Atualmente, os leitores móveis têm que clicar em um link em seu feed de notícias com uma espera de mais de oito segundos para o artigo carregar em outra página web – uma experiência lenta no mundo da internet, que vive em ritmo acelerado”, disse o The Guardian. O Instant Articles promete acelerar em dez vezes o tempo de carregamento. Além disso, fotos em alta resolução podem ser exibidas em zoom bem próximo, vídeos tocam automaticamente quando o usuário rola a página, mapas são interativos etc.
Todo poderoso
De acordo com Silvia Bassi, diretora-executiva e publisher da IDG Now!, além do investimento em mobilidade e da possibilidade em explorar a receita publicitária, uma das vantagens é a oportunidade de conhecer melhor o leitor, afinal tem como aliado uma empresa de tecnologia que pode compartilhar métricas referentes às matérias.
“Hoje temos um cenário onde o leitor usa cada vez mais o móvel. Experimentar o Instant Articles pode ser uma boa ideia. O que não temos certeza é de que, do nada, o Facebook pode mudar a regra. Ele é o dono da regra. Se isso acontecer, você corre o risco de ter fidelizado sua audiência pela rede social. Por enquanto, tudo é hipótese”, ressalta. Hoje 30% do fluxo dos cinco sites pertencentes à IDG Now! vêm do mobile.
Alguns profissionais se preocupam que o Facebook se torne um gigantesco e poderoso gatekeeper de notícias. Segundo o professor de jornalismo do Instituto Presbiteriano Mackenzie e diretor da Pluricom, Carlos Sandano, os veículos abririam mão de uma parte importante do conceito da profissão – a distribuição.
“O Facebook estabelece os termos de uso e tem seus interesses comerciais. Ou mudam o conteúdo ou tiro você da minha rede social, como já aconteceu na Apple Store. Abrir mão dessa tarefa fragiliza as empresas jornalísticas. O que me assusta mais é ter esse poder e não assumir responsabilidades. Se uma informação errada é publicada em um jornal, ele tem responsabilidade. Já se algum boato ou coisas não verídicas são publicadas no Facebook, a responsabilidade é da pessoa que publicou”, opina Sandano.
O New York Times enfatizou que é o único a decidir quais histórias são e serão publicadas no projeto. “Nós acreditamos que é fundamental alcançar os leitores e potenciais leitores onde eles estão. Mais de um bilhão de pessoas usam o Facebook. O Instant Articles vai nos ajudar a atingir uma maior, mais jovem e global audiência. Nosso objetivo final é convertê-los para assinantes pagos”, afirmou o veículo.
Para Rafael Sbarai, professor de pós-graduação da faculdade de comunicação e marketing da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e mestre em comunicação, tecnologia e mercado, as empresas de tecnologia vêm se tornando empresas de mídia. Recentemente, a Apple estava à procura de jornalistas para atuar como curadores e editores de conteúdo. A ideia é que pudessem organizar o conteúdo do aplicativo Apple News. O Twitter, em julho deste ano, abriu uma posição de líder editorial no Brasil.
Segundo Sbarai, a vaga teria relação com o projeto Lightning, ainda não muito divulgado pelo microblog, que trará conteúdo com curadoria humana baseada em eventos importantes ao redor do mundo. “Existe um ciclo muito interessante no jornalismo que nos permite renovar cada vez mais. O Instant Articles é uma atualização de algo que fizeram de modo brilhante, o Paper. A ferramenta talvez tenha chamado atenção, mas é algo que o YouTube faz hoje e é o que o Snapchat fez com o aplicativo Discovery. Ou seja, consumir conteúdo sem que o veículo receba o clique. O jornalismo vive um momento de reflexão. Quanto mais testes e experimentos, melhor.”
Conversas paralelas
Grandes veículos de comunicação brasileiros, como O Estado de S. Paulo , O Globo e Folha de S.Paulo , começaram a discutir a iniciativa com a Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Folha e Estadão preferem não se pronunciar ainda sobre o projeto, mas, segundo Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ, a associação recomendou aos jornais associados que aguardem os primeiros resultados dessa iniciativa em outros países, antes de aderirem ao projeto.
O interesse pelo Brasil faz todo o sentido. Um levantamento feito pelo Digital News Report apontou que o país é o maior consumidor de notícias via redes sociais e o maior mercado de mídia da América do Sul. Atualmente, 108 milhões de brasileiros utilizam a internet. Destes, 70% se informam por meio de redes sociais, sendo o Facebook o líder entre número de usuários.
Como possíveis vantagens, Pedreira vê a possibilidade de agregar valor às marcas, ajudar a criar um padrão de design mais adequado ao mobile, aumentar a experiência do usuário e gerar novas receitas a curto prazo. Em contrapartida, o risco – e não apenas no caso do Instant Articles, mas também de parcerias com outras empresas de tecnologia globais – é de que os jornais percam sua condição de distribuidor de conteúdo, como já foi dito por Sandano. “Isso pode significar que o jornal passe a atuar conforme um modelo de negócio que não controla.”
Mesmo com toda a atenção voltada ao mobile, Silvia ressalta que ainda falta investimento em tecnologia. “Redações estão sem dinheiro para investir em jornalista, que dirá em tecnologia.” Outra questão importante é a monetização nessa plataforma, ainda inferior às demais. O relatório Internet Trends 2015, organizado pela pesquisadora norte-americana Mary Meeker, mostra a proporção entre o consumo de mídia versus o investimento publicitário.
A mídia impressa, por exemplo, ocupa 4% do tempo do leitor, mas atrai 18% do budget publicitário. Já no mobile, a faixa de atenção ocupa 24%, porém, a monetização está na ordem de 8% – a menor dentre todas as plataformas.“Tem boas e más notícias. A boa é que está cheio de leitor, mas será preciso achar uma forma de gerar receita com o mobile”, finaliza Sílvia.

Crédito:reprodução Quase dez milhões de pessoas seguem diariamente suas atualizações pelo Facebook. Inevitavelmente, a iniciativa do gigante da internet, batizada de Instant Articles, saltou aos olhos. A conversa entre a companhia e veículos de comunicação não é de hoje. Desde 2014, ambos discutiam um possível projeto que acelerasse a exibição das páginas para os usuários de smartphones.
Até aí, tudo bem. Mas a parte central do acordo está na seguinte afirmação: os leitores não sairiam da rede social para ler as notícias, já que seriam publicadas pelo próprio Facebook, sem que seja necessário o direcionamento para o site do jornal. Em contrapartida, compartilharia 100% da receita publicitária que eles vendem em torno de artigos e 70% do que é vendido pela empresa de tecnologia.
Google, Apple, Facebook demonstraram interesse em se aproximar da mídia. Mas seriam eles amigos ou inimigos? Já surgiu até o termo “frenemy”, uma junção dos dois em inglês. Por ora, NYTimes , The Guardian , BuzzFeed, National Geographic , NBC News, The Atlantic, BBC News, Bild e Spiegel atualizaram seus status para “em um relacionamento sério” com o Facebook, já que foram os primeiros a formalizar parceria no projeto.
“Atualmente, os leitores móveis têm que clicar em um link em seu feed de notícias com uma espera de mais de oito segundos para o artigo carregar em outra página web – uma experiência lenta no mundo da internet, que vive em ritmo acelerado”, disse o The Guardian. O Instant Articles promete acelerar em dez vezes o tempo de carregamento. Além disso, fotos em alta resolução podem ser exibidas em zoom bem próximo, vídeos tocam automaticamente quando o usuário rola a página, mapas são interativos etc.
Todo poderoso
De acordo com Silvia Bassi, diretora-executiva e publisher da IDG Now!, além do investimento em mobilidade e da possibilidade em explorar a receita publicitária, uma das vantagens é a oportunidade de conhecer melhor o leitor, afinal tem como aliado uma empresa de tecnologia que pode compartilhar métricas referentes às matérias.
“Hoje temos um cenário onde o leitor usa cada vez mais o móvel. Experimentar o Instant Articles pode ser uma boa ideia. O que não temos certeza é de que, do nada, o Facebook pode mudar a regra. Ele é o dono da regra. Se isso acontecer, você corre o risco de ter fidelizado sua audiência pela rede social. Por enquanto, tudo é hipótese”, ressalta. Hoje 30% do fluxo dos cinco sites pertencentes à IDG Now! vêm do mobile.
Alguns profissionais se preocupam que o Facebook se torne um gigantesco e poderoso gatekeeper de notícias. Segundo o professor de jornalismo do Instituto Presbiteriano Mackenzie e diretor da Pluricom, Carlos Sandano, os veículos abririam mão de uma parte importante do conceito da profissão – a distribuição.
“O Facebook estabelece os termos de uso e tem seus interesses comerciais. Ou mudam o conteúdo ou tiro você da minha rede social, como já aconteceu na Apple Store. Abrir mão dessa tarefa fragiliza as empresas jornalísticas. O que me assusta mais é ter esse poder e não assumir responsabilidades. Se uma informação errada é publicada em um jornal, ele tem responsabilidade. Já se algum boato ou coisas não verídicas são publicadas no Facebook, a responsabilidade é da pessoa que publicou”, opina Sandano.
O New York Times enfatizou que é o único a decidir quais histórias são e serão publicadas no projeto. “Nós acreditamos que é fundamental alcançar os leitores e potenciais leitores onde eles estão. Mais de um bilhão de pessoas usam o Facebook. O Instant Articles vai nos ajudar a atingir uma maior, mais jovem e global audiência. Nosso objetivo final é convertê-los para assinantes pagos”, afirmou o veículo.
Para Rafael Sbarai, professor de pós-graduação da faculdade de comunicação e marketing da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e mestre em comunicação, tecnologia e mercado, as empresas de tecnologia vêm se tornando empresas de mídia. Recentemente, a Apple estava à procura de jornalistas para atuar como curadores e editores de conteúdo. A ideia é que pudessem organizar o conteúdo do aplicativo Apple News. O Twitter, em julho deste ano, abriu uma posição de líder editorial no Brasil.
Segundo Sbarai, a vaga teria relação com o projeto Lightning, ainda não muito divulgado pelo microblog, que trará conteúdo com curadoria humana baseada em eventos importantes ao redor do mundo. “Existe um ciclo muito interessante no jornalismo que nos permite renovar cada vez mais. O Instant Articles é uma atualização de algo que fizeram de modo brilhante, o Paper. A ferramenta talvez tenha chamado atenção, mas é algo que o YouTube faz hoje e é o que o Snapchat fez com o aplicativo Discovery. Ou seja, consumir conteúdo sem que o veículo receba o clique. O jornalismo vive um momento de reflexão. Quanto mais testes e experimentos, melhor.”
Conversas paralelas
Grandes veículos de comunicação brasileiros, como O Estado de S. Paulo , O Globo e Folha de S.Paulo , começaram a discutir a iniciativa com a Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Folha e Estadão preferem não se pronunciar ainda sobre o projeto, mas, segundo Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ, a associação recomendou aos jornais associados que aguardem os primeiros resultados dessa iniciativa em outros países, antes de aderirem ao projeto.
O interesse pelo Brasil faz todo o sentido. Um levantamento feito pelo Digital News Report apontou que o país é o maior consumidor de notícias via redes sociais e o maior mercado de mídia da América do Sul. Atualmente, 108 milhões de brasileiros utilizam a internet. Destes, 70% se informam por meio de redes sociais, sendo o Facebook o líder entre número de usuários.
Como possíveis vantagens, Pedreira vê a possibilidade de agregar valor às marcas, ajudar a criar um padrão de design mais adequado ao mobile, aumentar a experiência do usuário e gerar novas receitas a curto prazo. Em contrapartida, o risco – e não apenas no caso do Instant Articles, mas também de parcerias com outras empresas de tecnologia globais – é de que os jornais percam sua condição de distribuidor de conteúdo, como já foi dito por Sandano. “Isso pode significar que o jornal passe a atuar conforme um modelo de negócio que não controla.”
Mesmo com toda a atenção voltada ao mobile, Silvia ressalta que ainda falta investimento em tecnologia. “Redações estão sem dinheiro para investir em jornalista, que dirá em tecnologia.” Outra questão importante é a monetização nessa plataforma, ainda inferior às demais. O relatório Internet Trends 2015, organizado pela pesquisadora norte-americana Mary Meeker, mostra a proporção entre o consumo de mídia versus o investimento publicitário.
A mídia impressa, por exemplo, ocupa 4% do tempo do leitor, mas atrai 18% do budget publicitário. Já no mobile, a faixa de atenção ocupa 24%, porém, a monetização está na ordem de 8% – a menor dentre todas as plataformas.“Tem boas e más notícias. A boa é que está cheio de leitor, mas será preciso achar uma forma de gerar receita com o mobile”, finaliza Sílvia.






