Colunistas abordam os desafios da profissão e projetam futuro do mercado de opinião

Com o mercado de opinião em constante crescimento, os jornais fornecem aos jornalistas cada vez mais espaço para argumentações. Com a forte expansão da área, os colunistas Ancelmo Gois, de O Globo , Antero Greco, do Estadão , e Patrícia Campos Mello, da Folha de S.

Atualizado em 04/04/2014 às 18:04, por Redação Portal IMPRENSA.

Paulo , abordam quais são as responsabilidades do profissional que expressa teses e conceitos nos veículos.
Crédito:Divulgação Ancelmo Gois
Mais espaço de opinião Para Ancelmo Gois, a responsabilidade está atrelada ao próprio jornalismo, pois “o profissional tem deveres com a sociedade, consigo próprio, com a ética, com tudo”. Com opiniões que são divergentes ao veículo no qual atua, ele destaca a independência que tem para formar argumentações no periódico.
“Sou a favor de cotas para negros e o editorial do jornal é outro. Isso ocorre com frequência”, declarou o jornalista, que ressalta o papel social da função em relação aos limites naturais que qualquer área possui. “O ser humano é um 007 que tem autorização para cometer crimes, inclusive com palavras. Não se pode incitar um crime. A torcida, ou seja, o leitor, pode até, eventualmente, olhar quem é o mais corajoso, mas a coragem de um pode ser vista como irresponsabilidade por outro”.
Com o mercado de opinião em forte expansão, ele acredita que os jornais tendem a ser cada vez mais espaço para este tipo de jornalistas. “ O Globo hoje tem algo como 100 colunistas e é crescente o número de profissionais nesta função ao longo dos anos. Os jornais não vão dizer mais o resultado exato do jogo de Flamengo x Brasil de Pelotas, mas eles vão, através de seus colunistas, emitir opinião, e com isso, o mercado tende a aumentar”.
Entretanto, a chegada da internet deu voz aos indivíduos e os coloca no centro das atenções de um determinado grupo social, o que não atrapalha o segmento de opinião nos veículos de comunicação. Com a democratização da rede mundial, Ancelmo Gois acredita que o Brasil tem hoje 200 milhões de colunistas, mas pondera. “Neste quadro de 'overdose' de colunas, de colunistas e de opinião, acho que o profissional que atua em um jornal tradicional ainda leva vantagem enorme ao avulso, pois ele escreve para um veículo que tem público”.
“Apesar de a mídia tradicional estar ameaçada do ponto de vista do seu futuro, ela é a que mais tem credibilidade da sociedade, embora seja limitada em relação à audiência. Poucos brasileiros levantam de manhã e vão ler um jornal, mas os que levantam, veem certa credibilidade neste papel”, completa.

Para o jornalista, vale à pena trabalhar nesta função, pois através do espaço que possui, consegue mudar as coisas. “Sou muito feliz de estar neste lugar, com muita vontade de aprender com o próximo, com o leitor. Com muita humildade ajudo a melhorar as relações na rua que eu moro, no meu ‘mundinho’. Conformo-me mudando meu bairro”.
Experiência é imprescindível “Sou do Bom Retiro, canhoto, fanático por pizza, massa e livros. Jornalista de Estadão e ESPN. Se não concorda comigo, argumente”, assim se descreve Antero Greco em seu perfil no Twitter. Com anos de estrada, ele acredita que a experiência da rua é imprescindível para a formação do profissional na área, independentemente da função que venha exercer.
Crédito:Divulgação Antero Greco
“É preciso percorrer muita estrada, colecionar anos de trabalho, de rua, de sol, de chuva, de garimpo de notícias e de aprendizado. E, mesmo quando se tornar colunista, não pode deixar de ser repórter. Sempre”. Desde que entrou no time de colunistas de O Estado de S. Paulo , em diversas ocasiões sua opinião divergiu da expressada pelo jornal, o que não resultou em reparos naquilo que escreveu em seu espaço no periódico.
“Houve episódios em que o noticiário do jornal tratava um assunto de uma maneira completamente oposta à minha opinião. Nem por isso foi feito algum reparo ao que escrevi”. Com a oportunidade de disseminar um ponto de vista, o jornalista acredita que a melhor maneira de formar uma argumentação é mostrar os fatos como são. “Esse é desafio e obrigação para os jornalistas: contar histórias verdadeiras, sem adequá-las a uma manchete que esteja na cabeça dele ou do editor. Muito menos, claro, a qualquer tipo de interesse que não seja o de informar”.
Para o jornalista, essa responsabilidade está ligada ao sentido de não distorcer fatos, nem de adaptá-los à visão de mundo do próprio articulista, que deve ser mais direto e objetivo para ser entendido. “Quem dá opinião deve ter estofo - moral, profissional, intelectual - para fazê-lo. A questão é que, atualmente, qualquer um se considera articulista, comentarista, cronista, e preparado para falar a respeito de qualquer tema. Quando encontra espaço, sobretudo em veículos de comunicação populares e de grande audiência, se torna um perigo. Há monstruosidades que, de fato, poucos têm coragem de dizer, porque lhes sobram bom senso, bom gosto e discernimento”.
Com a pressão por audiência, o profissional não pode perder o foco, pois pode ser “alvo fácil para ‘dançar conforme a música’, para dizer apenas que o se espera dele e não o que de fato pensa. Esse também é desafio para o colunista: ter um olhar diferente, e sensato, quando muitos já têm opinião formada”.

Para evitar isso, é necessário possuir uma visão mais aprofundada dos temas que trata em seus comentários, assim, a seleção virá naturalmente, devendo “cuidar de aprimorar-se sempre e mais, não pode ceder à tentação do populismo nem fazer concessões para a mediocridade. Se não obtiver sucesso, no mínimo não estará traindo a consciência dele nem a boa fé dos leitores”.
Para exemplificar como o compromisso com a verdade é essencial, Antero Greco citou o caso Neymar x Dorival Jr. “Em 2010, Neymar discutiu com o técnico Dorival Júnior e muitos disseram que ele era mascarado, uma fraude, ‘um monstro’”. Na época, “considerei a polêmica apenas um incidente de trabalho, nada tão rumoroso quanto alguns queriam interpretar. E, como se viu adiante, Neymar amadureceu, cresceu e ficou famoso”.
Com liberdade para observar, opinar e exercer um gênero que gosta — a crônica —, o jornalista tem prazer de exercer a função de colunista. “É espetacular ser repórter, acompanhar a história, estar no centro dos fatos, mas é bom também, como colunista, exercer a prática de emitir conceitos em cima dos fatos. Mas sugiro que se tenha calma para chegar a ser colunista. Nada de queimar etapas, nada de querer saber tudo logo”.
Investimento diferencia jornais Colunista da Folha de S.Paulo , a repórter especial Patrícia Campos Mello escreve sobre política e economia internacional para o site do periódico. Correspondente internacional e autora dos livros "O Mundo Tem Medo da China" e "Índia - da Miséria à Potência", a jornalista formada na Universidade de São Paulo acredita que o caminho para possuir um espaço dentro da editoria de opinião de um diário é natural.
Crédito:Divulgação Patrícia Campos Mello
“Não existe um caminho certo. Vai se tornando parte das atribuições e faz parte desta diversificação de funções que agora é necessária”. E ressalta o papel que um colunista deve ter ao emitir seu pensamento. “As opiniões que o colunista emite são pessoais. Então, ele não tem uma responsabilidade com a linha do jornal, como acontece no editorial. Mas precisa ficar sempre atento, pois a possibilidade de repercussão de suas ideias é gigantesca. Assim, deve ter responsabilidade na hora de emitir suas opiniões”.
Com o investimento dos veículos de comunicação no mercado da formulação de argumentações, a jornalista acredita que este é um diferencial que poderá ser o parâmetro de escolha do leitor. “Vou comprar o jornal 'x' para ler tal pessoa, ou para saber o que tal pessoa acha”.

Com isso, o jornal se torna muito mais interessante, pois teria “uma visão pluralista, com colunistas de esquerda, de direita, e todos eles emitindo suas opiniões neste periódico”. Para ela, o trabalho de expressar uma linha de raciocínio “é bem divertido. Como repórter você não pode editorializar, e como colunista isto é possível”.