Código de Ética em debate: Confira entrevista com Sergio Murillo, presidente da FENAJ

Código de Ética em debate: Confira entrevista com Sergio Murillo, presidente da FENAJ

Atualizado em 12/09/2007 às 17:09, por Pedro Venceslau.

Código de Ética em debate: Confira entrevista com Sergio Murillo, presidente da FENAJ

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IMPRENSA: O código de ética é, hoje, um instrumento reconhecido e utilizado como referência nas redações brasileiras?
Sergio Murillo -É. Mas não o suficiente. Ética é, antes de tudo, teoria e reflexão. E na verdade refletimos muito pouco sobre a nossa atividade profissional. A rotina, o corre-corre, estruturas de mando nos locais de trabalho, o medo do desemprego. As desculpas ou justificativas são muitas para não pensar - individual e/ou coletivamente - sobre o conteúdo e a repercussão do nosso trabalho. É uma alienação vergonhosa e insustentável do ponto de vista moral e ético.

Não acha que, sem uma punição mais pesada, como a cassação do diploma, fica difícil introjetar os valores e regras do código na categoria?
Acho que nossa menor preocupação deva ser com os aspectos punitivos da aplicação do código. O código é, antes de qualquer coisa, um instrumento de defesa do jornalismo, como gênero e atividade profissional. Não defendo a impunidade. Acho que a liberdade é premissa para o exercício do jornalismo, sempre combinada com a responsabilidade. O professor Nilson Lage sempre afirma que um dos principais problemas do nosso código é que ele não tem valor coercitivo. É verdade. Daí, também, a necessidade de constituição de um conselho federal dos jornalistas. São os conselhos que têm a prerrogativa de, após um amplo processo com todo direito de defesa, eventualmente cassar o registro de um profissional. A OAB faz isso, e nem por isso deixa de ser democrática. Mas a falta de um valor coercitivo não é o único limite para o nosso código. É preciso definir também princípios éticos para as fontes, especialmente as oficiais, para as empresas - que com seus
compromissos políticos e comerciais são as principais responsáveis pelos delitos éticos - e para a própria sociedade.

O código não condena o profissional que trabalha, ao mesmo tempo, em assessoria e redação, desde que as duas funções não se cruzem. E se o repórter de esporte que é assessor de uma deputada for promovido a chefe de redação?
As decisões de um chefe de redação determinam o viés da cobertura de todas as áreas dos veículos de comunicação. Acho que é incompatível com o exercício cumulativo e simultâneo de assessoria de imprensa em qualquer área. É uma opinião pessoal e ressalvo que sempre é necessário usar o bom senso. O grande fascínio e também martírio da ética é decidir entre o certo e o certo.

É verdade ou é lenda que a maioria dos dirgentes sindicais brasileiros é assessor de imprensa?
Esta direção, que recebeu o apoio de mais 70% dos quase seis mil jornalistas que participaram do último processo eleitoral, reflete a realidade da nossa profissão no Brasil. Tomamos o cuidado de formar um grupo de dirigentes com representantes de grandes e pequenas redações, de diversos veículos de mídia, assessorias de imprensas de empresas e órgãos públicos, jornalistas de todos os segmentos, como repórteres, editores, diagramadores, ilustradores, cinegrafistas, fotógrafos e professores de jornalismo, como é o meu caso. Uma chapa plural que espelha a nossa profissão e o movimento sindical independente dos jornalistas. É verdade que a oposição não teve o mesmo cuidado. Mas isso é problema deles.

Como retomar a luta pelo Conselho Federal de Jornalismo sem ser massacrado pela chamada grande imprensa? Acha que é possível virar esse jogo?
Já estamos virando. É muito agradável ler com freqüência manifestações de diversos setores sociais lamentando o arquivamento do projeto sem qualquer debate público. Acho que a principal tática nesse caso é ampliar o apoio social ao projeto. Preste atenção no verbo: Ampliar. Porque diversas organizações sociais já manifestaram apoio ao projeto, como é o caso da OAB. Todas olimpicamente ignoradas pela mídia. O CFJ é, ou será, um órgão fiscalizador do exercício regular da profissão. Mas, na medida que elege como principal missão zelar pela aplicação do código de ética dos jornalistas, transforma-se também em um instrumento para assegurar a responsabilidade social da mídia. E isso interessa à sociedade. Por isso, deve estar no centro da nossa estratégia, neste segundo momento da guerra do CFJ, consolidar e ampliar o apoio social à constituição de um conselho federal para os jornalistas.

Qual a relação da FENAJ com a ABERJE? O que acha da tese deles, que o comunicador moderno das grandes empresas é um profissional mestiço? Defende que apenas jornalistas possam dirigir a comunicação das grandes empresas?
Acho que a Aberje exerce um importante papel para difundir e qualificar uma das nossas atividades profissionais que é jornalismo empresarial. Pessoalmente me preocupa a expressão mestiço. Mal explicada, pode justificar a exploração absoluta do trabalhador. Uma coisa é o jornalista dominar diferentes linguagens, processos, instrumentos e tecnologias de comunicação. Outra, completamente diferente, é exercer cumulativamente diversas funções, promovendo o desemprego e o aviltamento da profissão.

Por que condenar o uso da câmera escondida? Isso não prejudica a investigação jornalística?
E quando não havia? Não existia investigação jornalística antes da câmara oculta, dos grampos, das gravações não autorizadas? O debate justo sobre o uso desses instrumentos não pode ocultar a necessária condenação sobre a prática abusiva, desnecessária, desrespeitosa e sensacionalista desse tipo de "jornalismo" dependente de métodos ilícitos para obter informação. Uma regra? Simplesmente não use. Mas o código, semelhante a diversos textos deontológicos da profissão no mundo, faz a ressalva do interesse público. Como decidir? Com bom senso e com muita reflexão do jornalista e, se possível, de toda redação.

No caso da manipulação digital por Photoshop. O código diz que imagens manipuladas devem vir com um selo "M" indicando que houve manipulação. Como ficaria, por exemplo, o ensaio da Hortência da PlayBoy?
Defendo o direito da dona Gisele Bündchen usar o photoshop para "turbinar" suas fotos para um ensaio de moda - muito embora acho que ela não precise. È um problema dela ou da Hortência, como modelos, que sempre devem ser consultadas, e seus editores. O objeto em questão não é jornalismo. Se a imagem tem relevância e interesse jornalísticos, surge um outro interessado: o público, que tem todo o direito de saber que a foto ou o vídeo foram alterados para facilitar a leitura da informação. É uma questão de cidadania.