Cobertura esportiva também expõe profissionais ao perigo, dizem jornalistas
Os riscos de se exercer a profissão de jornalista no Brasil se encontram em quase todas as áreas. Pode ser difícil de acreditar à primeira vista, mas no jornalismo esportivo não é diferente.
Atualizado em 21/02/2014 às 15:02, por
Lucas Carvalho*, Alana Rodrigues* e Christh Lopes* e Jéssica Oliveira.
A violência que, cada vez mais, estampa as manchetes sobre o futebol brasileiro, afeta não somente os atletas e os torcedores, como também os profissionais da imprensa. Lidar com a paixão e o fanatismo aflorado de milhões de pessoas, muitas vezes, pode colocar o repórter em situações de alto risco.
Crédito:Reprodução Bruno Abdala foi agredido por torcedores no PR
A série sobre os perigos de ser jornalista no Brasil, que já tratou sobre , e , chega ao fim com uma reportagem especial sobre a rotina dos repórteres que cobrem futebol no País. IMPRENSA ouviu profissionais que já vivenciaram a violência no esporte e que revelam o quanto esse fenômeno pode prejudicar o papel da mídia.
A relação entre jornalistas e atletas, muitas vezes, alcança níveis de tensão que podem resultar em discussões públicas, ofensas ou até agressões físicas. Em 2010, os insultos do então técnico da seleção brasileira de futebol, Dunga, ao repórter Alex Scobar, da Rede Globo, renderam até um editorial da emissora. Dois anos depois, foi a vez de Joanna de Assis, do SporTV, processar torcedores da Portuguesa por insultos e ameaças, no que ela chamou, na época, de um “estupro verbal”.
Mais recentemente, na última quinta-feira (20/2), repórteres foram ameaçados e ofendidos na saída de uma delegacia em São Paulo por membros de torcidas organizadas do Corinthians, investigados por invadir o Centro de Treinamentos do clube e ameaçar funcionários e atletas.
Bruno Abdala, repórter da rádio CBN Curitiba, carrega uma triste experiência com relação à violência no futebol. No dia 14 de abril de 2013, ele foi cercado e agredido por torcedores do Atlético-PR, por comentários feitos no Twitter contra a organizada “Os Fanáticos”. “As torcidas organizadas atrapalham demais o trabalho do jornalista. O profissional se sente ameaçado quando alguém da organizada xinga ou fala alguma coisa, porque a gente sabe que aqueles caras são bandidos. Tem muita gente boa, claro, mas a maioria não, e quando um deles te ameaça, o objetivo é fazer você calar a boca”, diz.
Crédito:Divulgação
Gilvan Ribeiro foi agredido por dois técnicos nos anos 90
Abdala já havia testemunhado a selvageria de torcedores quando o clube paranaense Coritiba foi rebaixado para a Série B, em 2009. Mais recentemente, ele esteve na Arena Joinville no jogo entre Vasco e Atlético-PR, em dezembro do ano passado, quando uma briga generalizada tomou conta das arquibancadas e rendeu imagens chocantes.
“O que eu vi em Joinville foi uma coisa bem triste. Você fica com medo, quer preservar a sua vida. A briga ficou só na arquibancada, só que uma imagem que repercutiu no mundo inteiro, em que torcedores do Vasco cercaram um torcedor do Atlético, com chutes e ferros na cabeça, aconteceu bem na minha frente. Fiquei muito abalado, mas você tem que manter a tranquilidade porque está no ar! Mas é quando você chega em casa, para pra pensar”, conta.
O jornalista conta que ao ver as imagens pela televisão se comoveu de tal maneira que “chorava copiosamente”. “A gente começa a repensar o nosso papel. Eu sou jornalista, gosto do que faço, amo futebol, mas a gente tem que pensar também em se preservar.”
O repórter lembra ainda outro caso polêmico, que resultou em morte, apesar de não chegar a envolver jornalistas diretamente, mas que poderiam ter vitimado colegas de profissão. Ele cita como exemplo o jogo entre Corinthians e San José, na Bolívia, pela Copa Libertadores de 2013, onde um jovem de 14 anos morreu vítima de um rojão disparado pela torcida alvinegra.
“Se aquele artefato tivesse caído no campo e acertado um jornalista, ele teria morrido. Qualquer um. Um fotógrafo, um repórter, alguém na cabine. Atingiu um torcedor por acaso. O jornalismo esportivo é claro que é uma profissão de risco”, diz.
Quando a violência deixa as arquibancadas e começa a envolver diretamente profissionais, atletas e jornalistas, a situação ganha novos contornos. Luiz Prósperi, editor do caderno de "Esportes" de O Estado de S. Paulo , comenta a relação da imprensa com jogadores, clubes e torcidas.
“Com as torcidas a relação nem sempre é pacífica. Há uma disposição geral entre as facções organizadas de acusar a imprensa de ser responsável por campanhas negativas ao comportamento delas. O diálogo é quase nenhum. Com os atletas, hoje em dia, é muito pacífica. Bem diferente dos anos de 1980 e 1990 quando os jogadores não tinham um staff como têm hoje e a relação era mais direta”, pondera.
Prósperi conta que já vivenciou muitos casos de hostilidades contra jornalistas na cobertura à beira do gramado. “Não foram poucos os que acabaram em agressões físicas, em especial nos anos de 1980 e 1990”, diz. Na época citada, curiosamente, dois casos ganharam notoriedade envolvendo um mesmo jornalista.
Em 1994, o então ex-jogador e técnico do Santos, Serginho Chulapa, desferiu uma cabeçada contra o repórter do Diário de S. Paulo , Gilvan Ribeiro, na entrada do vestiário. Dois anos mais tarde, o profissional foi novamente vítima de um treinador, levando um soco de Luiz Felipe Scolari após uma discussão durante uma coletiva pós-jogo.
“Com o Serginho Chulapa não foi consequência de uma matéria que levou à agressão. Foi uma coisa gratuita, que poderia ter acontecido com qualquer um. Ele estava bastante alterado naquele dia, surtado. Mas eu já fiz outras matérias que provocaram reações, muitas vezes agressivas, e reações tensas de jogadores e técnicos”, revela Ribeiro.
O jornalista diz que a liberdade no relacionamento entre clubes e imprensa, com a livre circulação dos repórteres pelos vestiários e contatos pessoais com atletas, propiciava uma cobertura totalmente diferente da atual, além de um risco maior.
“Naquela época, a gente tinha alguns conflitos. Embora houvesse respeito, eles entendiam que a minha função era apurar e publicar notícias e que, às vezes, poderiam contrariar o interesse deles. Então, se você tinha uma postura bacana, era possível até manter uma relação de respeito mútuo”, acrescenta.
Bruno Abdala finaliza dizendo que até mudaria para outra área, talvez mais segura, como assessoria de imprensa, mas a paixão pelo trabalho fala mais alto. “É uma profissão de risco, sim. O que aconteceu em 2009 [quando o Coritiba foi rebaixado], de a torcida entrar em campo e começar a quebrar tudo, não foi a primeira, nem vai ser a última vez que algo assim acontece. O jornalista tá ali trabalhando e pode ser agredido. Mas quem gosta, enfrenta tudo isso. O jornalismo esportivo é uma cachaça: vicia”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Assista ao vídeo:
Crédito:Reprodução Bruno Abdala foi agredido por torcedores no PR
A série sobre os perigos de ser jornalista no Brasil, que já tratou sobre , e , chega ao fim com uma reportagem especial sobre a rotina dos repórteres que cobrem futebol no País. IMPRENSA ouviu profissionais que já vivenciaram a violência no esporte e que revelam o quanto esse fenômeno pode prejudicar o papel da mídia.
A relação entre jornalistas e atletas, muitas vezes, alcança níveis de tensão que podem resultar em discussões públicas, ofensas ou até agressões físicas. Em 2010, os insultos do então técnico da seleção brasileira de futebol, Dunga, ao repórter Alex Scobar, da Rede Globo, renderam até um editorial da emissora. Dois anos depois, foi a vez de Joanna de Assis, do SporTV, processar torcedores da Portuguesa por insultos e ameaças, no que ela chamou, na época, de um “estupro verbal”.
Mais recentemente, na última quinta-feira (20/2), repórteres foram ameaçados e ofendidos na saída de uma delegacia em São Paulo por membros de torcidas organizadas do Corinthians, investigados por invadir o Centro de Treinamentos do clube e ameaçar funcionários e atletas.
Bruno Abdala, repórter da rádio CBN Curitiba, carrega uma triste experiência com relação à violência no futebol. No dia 14 de abril de 2013, ele foi cercado e agredido por torcedores do Atlético-PR, por comentários feitos no Twitter contra a organizada “Os Fanáticos”. “As torcidas organizadas atrapalham demais o trabalho do jornalista. O profissional se sente ameaçado quando alguém da organizada xinga ou fala alguma coisa, porque a gente sabe que aqueles caras são bandidos. Tem muita gente boa, claro, mas a maioria não, e quando um deles te ameaça, o objetivo é fazer você calar a boca”, diz.
Crédito:Divulgação
Gilvan Ribeiro foi agredido por dois técnicos nos anos 90 Abdala já havia testemunhado a selvageria de torcedores quando o clube paranaense Coritiba foi rebaixado para a Série B, em 2009. Mais recentemente, ele esteve na Arena Joinville no jogo entre Vasco e Atlético-PR, em dezembro do ano passado, quando uma briga generalizada tomou conta das arquibancadas e rendeu imagens chocantes.
“O que eu vi em Joinville foi uma coisa bem triste. Você fica com medo, quer preservar a sua vida. A briga ficou só na arquibancada, só que uma imagem que repercutiu no mundo inteiro, em que torcedores do Vasco cercaram um torcedor do Atlético, com chutes e ferros na cabeça, aconteceu bem na minha frente. Fiquei muito abalado, mas você tem que manter a tranquilidade porque está no ar! Mas é quando você chega em casa, para pra pensar”, conta.
O jornalista conta que ao ver as imagens pela televisão se comoveu de tal maneira que “chorava copiosamente”. “A gente começa a repensar o nosso papel. Eu sou jornalista, gosto do que faço, amo futebol, mas a gente tem que pensar também em se preservar.”
O repórter lembra ainda outro caso polêmico, que resultou em morte, apesar de não chegar a envolver jornalistas diretamente, mas que poderiam ter vitimado colegas de profissão. Ele cita como exemplo o jogo entre Corinthians e San José, na Bolívia, pela Copa Libertadores de 2013, onde um jovem de 14 anos morreu vítima de um rojão disparado pela torcida alvinegra.
“Se aquele artefato tivesse caído no campo e acertado um jornalista, ele teria morrido. Qualquer um. Um fotógrafo, um repórter, alguém na cabine. Atingiu um torcedor por acaso. O jornalismo esportivo é claro que é uma profissão de risco”, diz.
Quando a violência deixa as arquibancadas e começa a envolver diretamente profissionais, atletas e jornalistas, a situação ganha novos contornos. Luiz Prósperi, editor do caderno de "Esportes" de O Estado de S. Paulo , comenta a relação da imprensa com jogadores, clubes e torcidas.
“Com as torcidas a relação nem sempre é pacífica. Há uma disposição geral entre as facções organizadas de acusar a imprensa de ser responsável por campanhas negativas ao comportamento delas. O diálogo é quase nenhum. Com os atletas, hoje em dia, é muito pacífica. Bem diferente dos anos de 1980 e 1990 quando os jogadores não tinham um staff como têm hoje e a relação era mais direta”, pondera.
Prósperi conta que já vivenciou muitos casos de hostilidades contra jornalistas na cobertura à beira do gramado. “Não foram poucos os que acabaram em agressões físicas, em especial nos anos de 1980 e 1990”, diz. Na época citada, curiosamente, dois casos ganharam notoriedade envolvendo um mesmo jornalista.
Em 1994, o então ex-jogador e técnico do Santos, Serginho Chulapa, desferiu uma cabeçada contra o repórter do Diário de S. Paulo , Gilvan Ribeiro, na entrada do vestiário. Dois anos mais tarde, o profissional foi novamente vítima de um treinador, levando um soco de Luiz Felipe Scolari após uma discussão durante uma coletiva pós-jogo.
“Com o Serginho Chulapa não foi consequência de uma matéria que levou à agressão. Foi uma coisa gratuita, que poderia ter acontecido com qualquer um. Ele estava bastante alterado naquele dia, surtado. Mas eu já fiz outras matérias que provocaram reações, muitas vezes agressivas, e reações tensas de jogadores e técnicos”, revela Ribeiro.
O jornalista diz que a liberdade no relacionamento entre clubes e imprensa, com a livre circulação dos repórteres pelos vestiários e contatos pessoais com atletas, propiciava uma cobertura totalmente diferente da atual, além de um risco maior.
“Naquela época, a gente tinha alguns conflitos. Embora houvesse respeito, eles entendiam que a minha função era apurar e publicar notícias e que, às vezes, poderiam contrariar o interesse deles. Então, se você tinha uma postura bacana, era possível até manter uma relação de respeito mútuo”, acrescenta.
Bruno Abdala finaliza dizendo que até mudaria para outra área, talvez mais segura, como assessoria de imprensa, mas a paixão pelo trabalho fala mais alto. “É uma profissão de risco, sim. O que aconteceu em 2009 [quando o Coritiba foi rebaixado], de a torcida entrar em campo e começar a quebrar tudo, não foi a primeira, nem vai ser a última vez que algo assim acontece. O jornalista tá ali trabalhando e pode ser agredido. Mas quem gosta, enfrenta tudo isso. O jornalismo esportivo é uma cachaça: vicia”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Assista ao vídeo:





