"Cobertura da imprensa sobre a Copa tem sido pontual", diz Luis Carlos Quartarollo
Para o jornalista, a mídia nacional e internacional tem sido crítica e elogiosa à medida dos acontecimentos.
Atualizado em 04/07/2014 às 14:07, por
Lucas Carvalho*.
Luis Carlos Quartarollo, ou “Lula”, como é chamado entre os colegas de profissão, começou sua carreira no rádio em Piracicaba (SP). Após mover-se para a capital paulista, acompanhou cinco Copas do Mundo in loco , fez parte da equipe de Osmar Santos na rádio Record e, em 2014, completa 25 anos de Jovem Pan. Como ele mesmo diz em seu , sempre trabalhou com esporte, mas gosta mesmo é de futebol. Crédito:Divulgação Para Luis Carlos Quartarollo, cobrir Copa no Brasil permite aos jornalistas ver mais lados da competição Chamado de “Repórter Cascavel” por Milton Neves devido à fama de fazer perguntas desconcertantes para a comunidade futebolística, Quartarollo conta à IMPRENSA sobre sua experiência de mais de 40 anos em rádio, seu estilo de fazer jornalismo e a realização do Mundial em solo brasileiro.
IMPRENSA – Como você explica o apelido “Repórter Cascavel”? Luis Carlos Quartarollo – Ah, ele [Milton Neves] tem mania de colocar apelido em todo mundo, né? [risos] Acho que é uma maneira de ele dizer que eu sou venenoso. Mas eu encaro numa boa, até porque eu não sou. Eu gosto de perguntar direto, mas isso é uma questão de estilo. Tem hora que você tem que se colocar de uma forma direta para o entrevistado.
Você acha que falta aos jornalistas uma postura mais direta ao lidar com atletas, treinadores etc.? Eu acho que a gente tem que respeitar o estilo de cada um. Há pessoas que conseguem tirar muita coisa de outra de uma maneira mais light, mais maleável. Eu, por ser direto assim, e às vezes fazer uma pergunta mais forte, posso conseguir uma resposta mais forte que até gera uma polêmica maior. Mas há momentos também em que não gera nada. E, como já aconteceu comigo, você conversando, como nós estamos falando aqui, surge um assunto legal, que também repercute do mesmo jeito.
E como você acha que deve ser a relação entre jornalista e entrevistado no meio esportivo? O nosso relacionamento com o atleta, por exemplo, hoje é muito diferente do que era dez, 15, 20 anos atrás. Na época nós éramos mais próximos deles. Não existia nem muito a figura do assessor de imprensa – que hoje virou o cerceador da imprensa. Antigamente, o jogador tinha mais coragem, era menos covarde para enfrentar uma situação. Os caras enfrentavam. Você fazia uma crítica em uma pergunta, o cara entendia que não era pessoal. E quando tinha que discutir, discutia mesmo e acabou. Mas era muito diferente. Eu não digo nem que era melhor ou pior, era diferente.
O que mudou no jornalismo de rádio ao longo da sua carreira, especialmente após a internet e as mídias sociais? O rádio tem a sua instantaneidade, ele é muito rápido e pode se beneficiar com essas novas mídias e novas ferramentas da internet. Para você ter uma ideia, no meu apartamento eu não conseguia sintonizar na Jovem Pan a não ser em um cantinho. Eu, como profissional da casa e gostando de rádio, tentava sempre ouvir ali naquele cantinho do quarto da minha filha. Hoje não, hoje eu ouço no meu celular, em qualquer lugar, no carro, no computador…
Então, eu acho que se o rádio aproveitar bem essa chance, ele vai continuar existindo com muita força. Ele tem que, talvez, investir mais, encontrar um caminho novo – está numa encruzilhada –, mas ele continua sendo um veículo muito forte. De qualquer maneira, eu acho que um caminho vai ser encontrado daí – tomara que seja! Mas vai ser na sua geração, porque eu já estou na perna da volta. [risos]
Qual é a diferença entre cobrir um Mundial fora de casa e agora no nosso país? A verdade é a seguinte: aqui, pelo menos, eu estou vendo a Copa. Quando você sai do País para cobrir, não vê a competição. Você vê os jogos do Brasil. E, principalmente a gente que cobre a seleção brasileira, fica enclausurado no Brasil, fica ali confinado com o elenco brasileiro. Antigamente, era mais difícil. Na verdade, eu estou vendo mais a Copa do que se estivesse fora do País.
E isso também agrega conteúdo à cobertura? Sim, porque você tem mais informações, pode fazer mais comparações, não só de cobertura. Eu acho, por exemplo, que a cobertura da televisão está muito superficial, muito “oba-oba”. Apesar de a gente sempre falar em internet, que o jornal vai morrer e aquela coisa toda, eu acho que a cobertura da mídia impressa está muito melhor. Pelo menos eu tenho sentido assim. Eles têm conseguido fazer coisas legais mesmo tendo um tempo muito curto para fazer, porque as notícias da manhã à tarde já são velhas. E mesmo assim eles têm conseguido fazer coisas legais…
O que você acha da aparente mudança de discurso na imprensa, no Brasil e no Mundo, com relação à realização da Copa? Eu acho que a gente não pode ser injusto com nada. Quando está certo, você tem que aplaudir. E nós somos muito pontuais nas críticas e nos elogios. O que mereceu elogio ontem, hoje talvez não mereça. A Copa, para o Brasil, dentro de campo, funcionou e está funcionando maravilhosamente bem. Nas quatro linhas.
Mas há muito o que se fazer. O legado não vai existir; as dívidas que ficarão da Copa, ficarão para nós, para o povo; muita gente roubou demais e enriqueceu com a Copa do Mundo… A minha preocupação é a seguinte: enquanto o Joseph Blatter [presidente da Fifa] for presidente do Brasil até o dia 13 de julho, vai funcionar. A partir do dia 14 de julho, a gente volta a ser Brasil.
O que você está achando da cobertura da imprensa sobre a Copa? Tem sido uma cobertura crítica, porém elogiosa quando tem que elogiar. Principalmente a imprensa de São Paulo e mais para o sul, nós somos mais “chatos”, mais críticos. Daqui pra cima, há um ar mais festivo nas coisas. Mas, de qualquer maneira, se você analisar no geral, as críticas têm sido positivas. Às vezes, a gente bate mais porque realmente as coisas acontecem e você tem que falar.
Já que estamos em ano de eleições, como você acha que a Copa pode afetar a editoria política? O resultado do Mundial pode ter consequências na corrida eleitoral? Eu já até perguntei isso para algumas pessoas envolvidas em política. Dizem que se o Brasil perder, a Dilma corre risco; se ele ganhar, isso vai ser usado pelo atual governo. Eu acho que a Copa do Mundo atrapalhou todos os planos políticos. Se não fosse o Mundial, já estávamos aí com um monte de programa eleitoral enfiado em nossa goela abaixo, contando um monte de mentira, fazendo um monte de promessa… Isso é esquerda, direita, centro, todos!
A verdade é a seguinte: a campanha eleitoral vai começar a partir de 14 de julho, e vai começar engatinhando. Nos livramos, pelo menos, de um monte de programa aí que enche o nosso saco. Eu acho que a disputa eleitoral ficou mesmo para cima da hora da eleição e isso é melhor para o Brasil. O País se acostumou a ter eleição todo ano! Parece que isso aí dá dinheiro, viu? [risos]
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* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





