Co-criador do Easy Taxi fala sobre estratégias para a expansão do serviço

A pessoa está atrasada para uma reunião importantíssima, sai correndo de casa e torce para dar a sorte de um táxi passar em frente à sua porta.

Atualizado em 16/10/2014 às 16:10, por Gabriela Ferigato.

Nos dias de hoje essa cena praticamente só existe em filmes. O aceno deu lugar a alguns cliques pelo smartphone.


Crédito:Divulgação Gustavo Vaz é co-CEO do Easy Taxi

À frente desse mercado está a Easy Taxi, já presente em 32 países e 165 cidades, sendo cem apenas no Brasil. A ideia nasceu literalmente de um dia para o outro. Em 2011, o mineiro Tallis Gomes participou de um Startup Weekend no Rio de Janeiro. Ao perceber que o seu projeto inicial não seria viável, teve que pensar em algo rápido. Faltando apenas 24 horas para o fim da competição, Tallis sofreu com a espera de um táxi em uma noite chuvosa na cidade carioca. Foi quando surgiu a ideia de explorar esse universo.


Em 2014, ao completar três anos no mercado, a empresa recebeu uma quarta rodada de investimento, somando, ao todo, R$ 145 milhões desde a sua criação. O último aporte, no valor de R$ 90 milhões, foi feito pela Phenomen Ventures e Tengelmann, dois importantes parceiros da Rocket Internet, especializada em negócios on-line.


O aplicativo da Easy Taxi, disponível para iOS, Android, Windows Phone e Blackberry, pode ser baixado gratuitamente tanto pelo usuário quanto pelo taxista. Uma média de 200 mil motoristas fazem parte do sistema e mais de 10 milhões de downloads já foram feitos no mundo.


“Estamos passando por um período de expansão muito forte, mas nos últimos meses estamos focados em consolidação. Lançamos a nossa plataforma corporativa para empresas, intensificamos o investimento em marketing e em construir um time mais estruturado. O foco agora é crescer nos lugares em que já atuamos e ser a marca número um e top of mind quando alguém pensa em serviço de táxi”, afirma Gustavo Vaz, co-CEO da Easy Taxi.


IMPRENSA Mídia – Como foi a recepção dos motoristas de táxi ao aderir algo 100% online?

Gustavo Vaz – É uma mudança de cultura para eles e algo muito gratificante para nós. Estava nas Filipinas, por exemplo, e um taxista veio me agradecer em nome de todos os profissionais, porque estavam trabalhando muito melhor. Mas ainda é uma mudança de comportamento. Às vezes temos que pegar o taxista pela mão e explicar o que estamos fazendo. Em países emergentes, como Bolívia, Indonésia e Filipinas, é algo bem complicado do ponto de vista do smartphone. Já em regiões como Brasil e México, a aceitação do aparelho é mais comum. Foi um grande esforço fazer com que os primeiros taxistas confiassem na marca. No começo chegamos a dar celulares para que eles pudessem testar o sistema.


Recentemente vocês receberam um aporte de U$ 40 milhões de dois grupos estrangeiros. Qual será o destino do investimento?

A ideia é lançar novos canais para o usuário. Nossa plataforma corporativa, por exemplo, existia apenas no Brasil. Agora estamos expandindo para Chile, Colômbia, Filipinas, Malásia, México e Peru. Vamos investir na expansão dessa plataforma, assim como no aplicativo de pagamento com o cartão de crédito.


E, mais do que tudo, queremos aprimorar a experiência com o usuário: investir em melhorias para o sistema, em novos canais de marketing, treinar e capacitar taxistas em diversos países. O objetivo é explicar qual o melhor uso do smartphone e fazer com que essa capacitação seja feita da forma mais amigável possível. Queremos que eles vejam a Easy Taxi não só como uma fornecedora de serviço, mas como uma consultora

de tecnologia em geral.


Quais são as prioridades dentro das estratégias de publicidade e marketing?

Temos uma forma para analisar cada uma das mídias e canais de marketing. Quando vamos para uma determinada cidade ou país testamos de tudo, desde a mídia on-line, como Facebook, Google e Twitter, bem como a off-line (jornal, revista e outdoor). Após fazer essa primeira rodada de investimento, entendemos quais canais funcionam melhor ou pior. Nas Filipinas, por exemplo, investimos muito em publicidade dentro de shoppings centers. Já no Chile, trabalhamos com televisão e tivemos mais de cem spots ao longo do mês de agosto.


O que funcionou no Brasil? Investimos muito no on-line e por meio dos próprios taxistas. Quando o passageiro entra no táxi, ele encontra um material sobre a Easy Taxi e, no encosto do banco, um cartão que ele pode levar para casa e conhecer mais sobre o nosso trabalho.


Desde o começo, a Easy Taxi lançou diversas campanhas e ações. Há alguma mais significativa? Qual o retorno de todas elas para a empresa?

Tivemos o Bibliotáxi, um projeto cultural para transformar os táxis em bibliotecas colaborativas. Fizemos uma campanha com a Johnnie Walker, a meia bandeira junto com o Santander e, mais recentemente, o Taxiokê. Pregamos muito pela experiência dentro do táxi. O passageiro vai entrar no carro, notar alguma coisa diferente e pensar que a Easy Taxi sempre oferece uma surpresa. O retorno vem de diversas formas. É o taxista que acaba vendo essas informações e se registra no sistema; é um passageiro novo que se deparou com a campanha ou o antigo que tinha parado de usar e, porque achou a ação bacana, volta. É muito difícil mensurar do ponto de vista numérico, mas temos uma percepção de quais funcionam melhor e quais valem a pena repetir.


Qual é o investimento em todas as campanhas promocionais?

No Taxiokê, por exemplo, não investimos nada. Nessas campanhas onde são feitas parcerias, os dois lados saem ganhando. A empresa tem muita divulgação de marca pela mídia. Na maioria dessas alianças, nenhuma das companhias investe, mas as duas ganham com isso.


Existe uma equipe focada em definir parcerias estratégicas?

Não há uma equipe apenas de parceria. Temos um time de marketing que faz isso. Hoje contamos com uma média de dez pessoas dessa área apenas no Brasil.


Há algum segmento do mercado mais interessado em fechar parcerias?

O segmento de bebidas é, de fato, muito importante. Acho que todas as partes envolvidas em “beber e não dirigir” se interessam mais, como seguro de carro, bebidas, bares etc. Fizemos uma campanha com diversos bares de São Paulo: se a pessoa fosse de Easy Taxi, ganharia uma cerveja. Se compararmos com cinco anos atrás, hoje poucas pessoas bebem e dirigem. Diria que menos de 10% das pessoas fazem parte dessa realidade.


A Easy Taxi não cobra uma taxa dos taxistas pelo serviço. Qual a maneira que vocês encontraram para sustentar o negócio?

A forma de gerar receita varia de país para país. No Brasil, estamos focados na plataforma corporativa, que gera muito valor para as empresas. Proporcionamos todo o fornecimento em base de dados em termos de transporte. A companhia sabe quais são suas áreas que utilizam mais ou menos o táxi e, com isso, geramos inibição de fraude. Além disso, otimizamos os processos financeiros. Antes os funcionários chegavam com recibos de papel, agora é tudo via sistema com uma só fatura no final do mês. Isso gera ganhos de até 40% para a empresa, e uma parte desse ganho fica com a própria Easy Taxi. Esse modelo é um grande foco para nós.


O sistema de publicidade dentro do aplicativo é um modelo viável?

Sim, mas não usamos no Brasil. Estamos implementando como teste no Equador. Caso funcione, talvez seja uma boa ideia levar para outros países. Acredito que pode funcionar, mas não é o nosso foco. Pode ser um “plus”. Mas acredito que não será

com esse modelo que a Easy Taxi vai crescer no mercado.


Como foi a aceitação do brasileiro em relação ao pagamento móvel?

Foi bastante positiva. No começo estávamos receosos se o brasileiro seria desconfiado. Principalmente porque aqui todo mundo está acostumado com as maquininhas e não colocar os dados no próprio celular. O resultado foi melhor do que esperávamos. É conveniente, depois que usa uma vez a pessoa vê como é fácil. O pagamento pelo cartão de crédito é um dos nossos focos para crescer em termos de mercado, mas não financeiro. Não cobramos nada do passageiro.


Quais serão os próximos passos em relação a esse sistema?

Vamos ainda investir muito no sistema, porque não está disponível ainda para todas as cidades do Brasil, como Macapá e Manaus. Testamos no Sudeste para saber se era viável e, agora que sabemos que funciona, vamos fazer um esforço maior para levar a

todas as cidades do país.


Vocês acreditam que a junção do virtual com a real necessidade dos consumidores foi o fator chave para o negócio dar certo?

Com certeza. Hoje se eu sair de casa sem carteira consigo me virar, mas se sair sem o celular tenho que voltar correndo para buscá-lo. A ideia de o celular gerar conveniência e fornecer todos os tipos de serviço é o futuro e para onde estamos caminhando. Ainda vejo duas coisas como desafio. A primeira é a credibilidade, porque muita gente ainda não confia 100%. A segunda é mudar o comportamento do consumidor, que às vezes prefere esperar um táxi aparecer a usar o aplicativo. A pessoa não tem a motivação para usar o serviço, mas, uma vez que o usa, vê que é melhor. Precisamos fazer com que ele faça o teste pela primeira vez.