Cinegrafista libertado de Guantánamo foi pressionado a não voltar para a Al-Jazeera

Cinegrafista libertado de Guantánamo foi pressionado a não voltar para a Al-Jazeera

Atualizado em 23/05/2008 às 14:05, por Redação Portal IMPRENSA.

O advogado Clive Stafford-Smith concedeu uma entrevista, na última segunda-feira (19), a Lucie Morillon, representante de Repórteres sem Fronteiras nos Estados Unidos da América. Ele falou sobre o seu cliente Sami Al-Haj, operador de câmera sudanês do canal Al-Jazeera, detido durante seis anos na base norte-americana de Guantánamo, em Cuba.

Stafford-Smith, que se deslocou aos Estados Unidos para testemunhar ante o Congresso, em Washington, aproveitou a ocasião para falar sobre o estado de saúde e o futuro profissional do seu cliente.

Sami Al-Haj foi acusado de dirigir um site online com ligações ao extremismo islâmico, e de ser pago pela Al-Qaeda por ter tentado entrevistar Osama bin Laden. Apesar destas acusações, o jornalista não chegou a ser em nenhum momento formalmente incriminado.

"[O exército norte-americano] acusava Sami Al-Haj de ser um suposto terrorista por este ter recebido uma formação do seu canal, Al-Jazeera. Os termos exatos eram: 'O preso confessou ter sido ensinado pela Al-Jazeera a manejar uma câmera de filmar', o que os militares consideravam como terrorismo", afirmou Stafford-Smith. "Não existe nenhum tipo de fundamento jurídico. Eles inventavam novas acusações e nós demonstrávamos uma e outra vez que não passavam de disparates."

O advogado assegura que não lhe foi dada nenhuma explicação quanto à libertação tardia de Sami Al-Haj. Com efeito, as autoridades norte-americanas continuam a considerá-lo um terrorista. Ao longo da sua estadia em Guantánamo, os interrogadores tentaram obrigar o operador de câmera sudanês a incriminar o seu canal, Al-Jazeera, acusado de receber financiamento da Al-Qaeda.

"Trata-se, a meu ver, de uma agressão contra a Al-Jazeera. Como cidadão americano, considero esta ação deplorável, porque deveríamos defender a liberdade de expressão, e a Al-Jazeera é vista como o porta-estandarte da liberdade de expressão no Médio Oriente", explicou Stafford-Smith.

O advogado também se debruçou sobre o estado de saúde de Sami Al-Haj, que teve de ser hospitalizado devido a uma condição de extrema fraqueza, após longa viagem de avião. A utilização do banheiro foi-lhe vedada durante as vinte horas do vôo, no qual o jornalista não abdicou da sua greve de fome. Sami Al-Haj esteve durante todo o trajeto algemado e encapuzado.

"Os médicos que o atenderam no Sudão temiam por sua vida", afirmou Stafford-Smith. "No entanto, ele conseguiu recuperar as forças nos dois ou três dias seguintes".

Além das seqüelas resultantes das torturas em Guantánamo, os médicos da base haviam informado Al-Haj de que sofria de um cancro, mas que lhe seria impossível consultar um especialista. Porém, os exames realizados pelos clínicos sudaneses não indicaram nenhum indício de cancro.

No que diz respeito ao âmbito profissional, o advogado garantiu que o seu cliente não tinha a intenção de visitar uma zona de guerra ou de conflito. Stafford-Smith revelou que a Administração norte-americana pressionara o governo sudanês para que este proibisse o operador de câmera de viajar ou de retomar a sua colaboração com a Al-Jazeera.

"Ele preferiria passar mais dez anos em Guantánamo do que assinar um documento desse tipo", afirmou Stafford-Smith. "Aquando da libertação, um almirante tentou convencê-lo a assinar um documento, mas o Sami respondeu que o seu advogado lhe aconselhara a não assinar nada."

Quanto às acusações de tortura, rejeitadas pelo governo americano, Stafford-Smith asseverou que o seu cliente havia sido interrogado em cento e trinta ocasiões. Em cento e vinte delas, os militares tentaram obrigar Sami Al-Haj a admitir que a Al-Jazeera era uma organização terrorista.

O advogado descreveu também os métodos de alimentação pela força utilizados contra os presos em greve de fome - os guardas introduziam um tubo estreito no nariz dos detidos. "Era um trato desumano", sublinhou Stafford-Smith. Sami Al-Haj passou um total de 478 dias em greve de fome. "Lembrem-se das greves de fome dos militantes do IRA nos anos 80 - raramente iam além dos setenta dias".

Leia mais