Cidade educadora aprende a dizer pinguela, e não ponte - João Camargo Neto/ALFA

Cidade educadora aprende a dizer pinguela, e não ponte - João Camargo Neto/ALFA

Atualizado em 30/11/2004 às 10:11, por João Camargo Neto estudante de jornalismo da faculdade ALFA e  Goiânia.

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Deu no Suplemento do Campo, O Popular, de 28 de agosto: "Relatório retirado da 2ª Conferência Nacional pela Educação no Campo, realizado recentemente em Luziânia (GO), propôs uma série de medidas visando à fixação de jovens rurais em atividades no campo, evitando o êxodo para os grandes centros urbanos. Entre as medidas estão a interiorização das universidades e o acesso mais facilitado ao ensino superior, além do financiamento de pesquisas na agricultura familiar. O documento sugere também materiais didáticos e aulas adequadas à realidade de cada região, a valorização e formação dos professores e de modo a colocar fim entre as diferenças entre o ensino no meio rural e na cidade".
Não deu outra, enquanto lia as poucas linhas, fui remetido à minha infância. Até os onze anos de idade, vivi na Fazenda Córrego da Onça, município de Itapuranga, a 160 quilômetros de Goiânia. Estudei os primeiros cinco anos, do pré à quarta série, em escola rural, e com a mesma professora: dona Alzira Maria de Moura, que também foi mestra do meu pai e dos meus tios, além da minha irmã, que estudava na mesma sala que eu.
Muitos ignoram uma sala de aula rural. Para esses, apresento a minha: uma só professora, para cinco séries na mesma sala. Uma só lousa dividida em cinco partes, uma para cada série. As atividades recreativas eram de dar inveja à qualquer boêmio-mirim citadino. Jogar bola na grama, onde deitávamos e rolávamos. Banho no córrego, meninos e meninas se atirando dos galhos das árvores que margeavam o leito.
Os livros chegaram através de um primo de segundo grau. A televisão, antes em preto e branco e à bateria, fora substituída por uma colorida. Com a instalação de energia elétrica, podíamos assisti-la ininterruptamente, sem pausas, porque não havia mais bateria para esquentar. De novo os livros: lia assentado nos galhos da mangueira, de onde adorava fazer de conta que era banheiro só para escutar o barulho do cocô amassando-se no chão.
A quinta série chegara. Não tinha alternativa, só mudando para a cidade. O transporte escolar rural era perigoso e inconstante. Meu pai endividara-se para construir uma casa em Itapuranga para não cairmos no aluguel. Tinha que trabalhar para ter meu dinheirinho para um eventual lanche na escola. A enxada já não era mais meu brinquedo nem tão pouco meu instrumento de trabalho. O primeiro no asfalto fora um carrinho de picolé. Depois, uma passara a trabalhar em uma frutaria. Em seguida, uma bicicleta para fazer cobranças. Por fim, em função dos investimentos de meu pai em cursos básicos (datilografia - à época ainda existia - e computação), um escritório de contabilidade com telefone por conta e Internet. Do meu último ano na escola rural ao emprego no escritório, passaram-se seis anos.
O vestibular já batia à porta. Empregara-me em uma livraria logo de início quando me mudei para Goiânia. Hoje, quase na metade de um curso superior, olho para trás e vejo os colegas, primos e irmã, enfim, amigos que ficaram no campo. Muitos nem concluíram o ensino médio, outros sequer chegaram a ele. Dois, dentre tantos, conseguiram se alocar numa unidade da Universidade Estadual. Curso? Geografia. Nada contra, ao contrário, considero de mega importância o investimento em cursos de licenciatura, sobretudo os que frisam as necessidades locais. No entanto, eles não cursam geografia porque querem. Fazem-no por terem poucas opções: entre geografia, história e letras, a geografia.
O governo quer melhorar a educação no campo. As escolas rurais não dispõem de TV nem tampouco de livros. Não dá para continuar a passar conhecimentos somente através da oralidade. E os livros têm que ser além da cartilha. Biblioteca satisfatória já é rara em escola urbana que, de livro em livro, forma sala menor do que muita biblioteca particular. Também quero que não tarde a informatização das escolas rurais. Sendo atendidos esses requisitos somada a formação continuada dos professores, não terei do que ter saudade se aproveitarem um conceito de Paulo Freire: "Antes de ensinar a ler as palavras é preciso ensinar a ler o mundo".
O campo atingiu um desequilíbrio insustentável. A tão falada economia de subsistência é uma falácia. Nem horta há mais nas propriedades rurais. Milho, mandioca, feijão, arroz, só com muitíssima boa-vontade. Não que os "caipiras" (expressão pejorativa cunhada por Monteiro Lobato em momento de extrema aversão aos produtores rurais) não queiram se beneficiar da terra, mas é mais barato ir à cidade comprar na mercearia que produzir no próprio pedaço de terra.
Bem escreveu o urbanista Alejandro Zenha: "A cidade nos rouba tudo, nos tira as chaves de casa, nos expulsa da noite, faz cativeiro pra quem amamos e nos cerca de grades e vidro. A cidade pavimenta a poesia dos edifícios, asfalta a saudade e aumenta distâncias outrora tão pequenas. Tem horas em que a cidade me parece uma aquarela em tons de cinza. Daltônica. Tem horas em que tudo me passa desapercebido, qualquer compromisso se torna mais importante do que qualquer menino de rua".
A educação pública gerida pelo Estado constrói as disparidades entre o ensino, que bifurca-se em ensinos. A educação privada surgiu antes da pública. Combatente à educação urbana, o tradicionalismo rural em ruptura versus à face do ensino citadino. Não acho interessante findar as diferenças entre as educações urbana e rural. Seria mais interessante o intercâmbio entre as duas educações, em prol da reformulação de um só ensino: que os alunos de escola rural, vez ou outra, participem de atividades urbanas, como cinema e teatro e que, alunos urbanos visitem fazendas, não falo de hotel-fazenda e sim de roças, propriedades com paiol, porteira, chiqueiro, córrego e não rio, para conhecerem galinhas além daquelas que são vendidas congeladas.