Chiqueiro cultural, por Igor Ribeiro
Chiqueiro cultural, por Igor Ribeiro
É impressionante a quantidade de lixo que temos criado incessantemente. Por um lado, evoluímos nossos hábitos mundanos e passamos a reciclar materiais, armazenar água de reuso, utilizar adubos orgânicos e até transformar lodo de esgoto em . Em compensação, temos produzido uma sobrecarga de lixo informacional tão imensa que me pergunto se um dia isso também não vai ser uma tamanha crise a se resolver, aos moldes do que se passa hoje com o aquecimento global.
Reflexo da revolução digital, esse acúmulo de informação preocupa cada vez mais os japoneses e sua habilidade em criar coisas microscópicas, sua incessante busca pelo nanochip ou qualquer coisa que reduza servidores ao tamanho de uma cabeça de alfinete. Mas esse problema, relativo ao espaço, tem solução certa e não é a pior parte. O que mais prejudica quanto ao lixo informacional que criamos tem a ver com o emburrecimento de milhões de pessoas que o consomem.
Para quem tem um mínimo de bom senso, é fácil topar com exemplos dessa nódoa cognitiva por meio da internet e de publicações impressas mundo afora. O que mais surpreende é o fato de boa parte do próprio contingente especializado em produzir conteúdo de qualidade - jornalistas entre eles - estejam criando ou autorizando a publicação de informação com baixíssima qualidade ou sem fundamento construtivo. De modo prático, o que defendo é que, por mais que seja questionável o conteúdo do jornal inglês , por exemplo, não se espera muito dele além de fofoca e congêneres. Mas se começa a sair muita fofoca em meio ao editorial do , aí a coisa fica estranha.
Tem acontecido um pouco disso no Brasil, o suficiente para se ficar atento. Um dos casos mais recentes envolveu as críticas ao show de Caetano Veloso e Roberto Carlos no Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP), e a interminável réplica do cantor baiano em seu . Os dois jornalistas envolvidos, tanto da como do , são profissionais competentíssimos e raramente cometem deslizes como esses. E o sarapateco do - que já rendeu até aula de lingüística! - também foi altamente desnecessário. São todos exemplos dessa produção de conteúdo sem a menor utilidade.
A única que se salva um tanto é a jornalista da Folha e seus editores, já que seu artigo faz também uma crítica à armação empresarial que tem sido esse evento de louvação à bossa nova, na qual se gasta espaço, tempo, dinheiro e paciência para levar arte a uma centena de afortunados que poderia muito bem pagar por ela. Tanto essa quanto a apresentação de João Gilberto foram homenagens vazias, espécie de piada interna, completamente diferente do show gratuito realizado em março, em Ipanema, que misturou mestres como Roberto Menescal e Carlos Lyra a músicos da nova geração que trazem a bossa como inspiração. Se os eventos do Auditório Ibirapuera eram shows encerrados em si, com uma proposta um tanto oligárquica de regozijo cultural, porque não se gastou espaço no jornal para justamente reportar essa atmosfera, esse paradoxo social? Nem que se mantivesse a imparcialidade própria das reportagens, o ambiente de um evento como esse é por si só um imenso laboratório de juízos, que teria certo valor informativo. Mas duvido que uma crítica de um evento como esses tenha qualquer efeito, por exemplo, sobre a audiência do especial que a Globo vai transmitir em breve. Logo, que relevância teve esse auê todo?
A maior conseqüência - e claramente a mais nociva até aqui - foi a réplica de Caetano, infantil (ou gagá) ao ponto de chamar os jornalistas de "boba" e "burro". O texto do blog dele foi tão ou mais desnecessário que os próprios artigos. Preocupado em defender-se ou dar conta de uma situação que já parecia comprometida em sua raiz, o cantor vestiu-se do próprio provincianismo que critica em seu texto. Gerou uma enxurrada de notas e repercussões que já geraram e ainda vão gerar mais outras tantas, produzindo mais uma montanha de lixo informacional e fazendo muita gente perder seu precioso tempo com discussões inúteis. É de se perguntar como um gigante cultural de seu porte se rebaixou a uma briga de comadres tão banal. Concordo inteiramente com o colega Sérgio Roveri, que dedicou um espaço em seu ao tema, devido a sua impaciência com a mesmice da mídia brasileira. Acrescento que, muitas vezes, a imprensa é estimulada também por uma produção cultural viciada, cuja maior parte dos envolvidos prefere gladiar seus egos em disputas surreais do que fazer algo de qualidade, com informação realmente construtiva para todos.
De minha parte, espero que tenha contribuído para alertar autores e consumidores quanto a esse vazamento de bom senso, e que este texto não aumente a gigantesca montanha de lixo informacional na qual chafurdamos cotidianamente.






