Chefe da Secom em 2019 defendeu liberação de verba publicitária para 'mídia aliada'

Revelação faz parte de relatório da PF que mostra diálogos de Fábio Wajngarten com blogueiro bolsonarista Allan dos Santos

Atualizado em 14/06/2021 às 11:06, por Redação Portal IMPRENSA.

A Polícia Federal descobriu, durante as investigações dos atos antidemocráticos, que Fabio Wajngarten, então chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom) do governo Bolsonaro, defendeu a liberação de verba publicitária para a “imprensa aliada”. O conteúdo faz parte de conversas no WhatsApp ao qual o jornal O Globo teve acesso.

Crédito:Agência Brasil Fábio Wajngarten

Segundo a PF, Wajngarten e o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, dono do site Terça Livre e amigo dos filhos do presidente, se aproximaram em 2019 e conversavam sobre o assunto.


Em um diálogo, Wagjngarten diz ao blogueiro que está preocupado com o atraso no pagamento de verbas de publicidade a “aliados” e que eles estariam “furiosos”. “Caixa devendo dinheiro pra BAND, RTV. Os aliados estão furiosos. General sentou em cima e não paga nenhuma nota passada. Provocando iminentes tumores”, afirma.


Wajngarten e Allan dos Santos também falam que seria preciso aproximar a “mídia aliada” do governo.


A PF não identifica quem seria o “general”, mas à época, a Secom era vinculada à Secretaria de Governo, chefiada pelo general Carlos Alberto Santos Cruz, que foi alvo de ataques de bolsonaristas e acabou sendo demitido pelo presidente.


Em outra conversa, Allan dos Santos e Wajngarten falam da decisão do Ministério Público perante o Tribunal de Contas da União (TCU) para pedir à Corte que obrigue a Secom a distribuir verbas publicitárias do governo com base em critérios técnicos.


Na época, matéria da Folha de S. Paulo revelara que Wajngarten mantinha contratos, por meio de sua empresa FW Comunicação e Marketing, com as emissoras Record e Band, que recebiam recursos da Secom.


Wajngarten comentou que a decisão iria beneficiar a Globo, ao que Santos sugeriu: “Bora bater sem parar”, e o chefe da Secom agradeceu.


Segundo as mensagens analisadas pela PF, Wajngarten criou um grupo de WhatsApp chamado “Mídia Pensante — SECOM” e adicionou Allan dos Santos. No grupo, foi sugerido criar um departamento de comunicação estratégica e contrainformação, ao que Wajngarten concordou.


No relatório, há também uma conversa de Allan dos Santos com um contato chamado “Eduardo”, que pode ser o deputado federal Eduardo Bolsonaro, onde o blogueiro diz: “Precisamos da Secom para implementar uma ação que desenhamos aqui. Seu pai disse que sim”.


Eduardo diz que tem o contato de Douglas Tavolaro, ex-executivo das emissoras Record e CNN. “O Douglas diz que a linha será da Record, que o que vem dos EUA é só o nome CNN”, afirma.


Verbas


Dados do sistema de pagamentos da Secom mostram que veículos classificados como “mídia aliada” receberam mais verba do governo.


Em 2019 e 2020, no governo Bolsonaro, o volume de recursos públicos destinado à Globo teve um corte de 69% comparado com o governo Temer (2017 e 2018), enquanto a verba destinada à Record caiu 7%. O SBT teve uma queda de 16%, enquanto a Bandeirantes teve uma queda de 22%. A Rede TV!, ao contrário, teve aumento no volume de verbas de 10%.


Os dados compilados de janeiro a junho deste ano apontam que o padrão vem se mantendo. Duas emissoras lideram o ranking de recebimento de verba pública — a Record, com R$ 8,3 milhões, e o SBT, com R$ 8,3 milhões. A Globo está em terceiro lugar, com R$ 6,2 milhões, à frente da Bandeirantes, com R$ 4,4 milhões e Rede TV! com R$ 1,8 milhão.


Os critérios do governo para a distribuição de verbas constam em uma instrução normativa. O primeiro é a audiência. Em seguida vem: perfil do público-alvo, perfil editorial, cobertura geográfica, dados técnicos de mercado, e pesquisas de mídia, sempre que possível.


Outro lado


Fabio Wajngarten negou o beneficiamento de determinadas emissoras e disse que sua gestão foi “técnica e profissional”.


A Rede TV! informou que não fornece dados dos seus contratos comerciais e que “o jornalismo da emissora é reconhecidamente imparcial, plural e independente”.


A CNN Brasil disse que não tem nenhuma relação com Fábio Wajngarten.


O Grupo Bandeirantes afirmou que é “reconhecido pela qualidade e imparcialidade de seu jornalismo” e que as suas “relações com chefes do Secom são institucionais como as de qualquer grupo jornalístico”.


Record e SBT não responderam. Allan dos Santos, Secom, Ministério das Comunicações, Palácio do Planalto e o deputado federal Eduardo Bolsonaro também não responderam.