Centro de Documentação preservará acervo, por Andresa Afonso/Universidade de Uberaba

Centro de Documentação preservará acervo, por Andresa Afonso/Universidade de Uberaba

Atualizado em 18/03/2005 às 18:03, por Andresa Afonso - UNIUBE.

Por Objetivo é organizar documentos para incentivar e facilitar trabalhos de pesquisadores

Por que trabalhar com a documentação da vida pessoal e profissional de Mário Palmério? Em seus 80 anos de vida, Palmério exerceu várias atividades e em cada uma delas foi reunindo uma série de registros. Ele foi professor, criador de faculdades, deputado federal, escritor, embaixador, compositor, além de fundador da Uniube.O Centro de Documentação já está reunindo registros em vários tipos de formatos: correspondências, fotografias, slides, agendas e os diários de duas viagens que ele fez para a Amazônia. O acervo é chamado de "arquivo privado", pois reúne documentação de uma pessoa pública, que teve importância nacional. Assim, esses documentos têm valor não só para família, mas também para toda a sociedade.

A coordenadora do Centro de Documentação, Cristiane Ferreira de Moura, conta que esse acervo até então estava disperso, em caixas de papelão. "Muitas das fotos e recortes de jornal estavam colados em folhas de papel, o que danifica esses documentos." Ela diz que outra das grandes dificuldades encontradas são os clipes juntando fotografias: além de amassá-las, com o tempo essas peças de metal enferrujam e contaminam as fotos.Marcas de caneta esferográfica também danificam, porque essa tinta é ácida e corrói o papel com o tempo. Fitas durex, informa a coordenadora, também são grandes vilãs. "Muitas vezes as pessoas até têm boa intenção ao querer colar fotos rasgadas com durex, mas precisamos pensar a longo prazo. Em poucos anos o durex seca, descola e deixa manchas irreversíveis no documento, podendo até mesmo comprometer a leitura. O que parecia uma solução à curto prazo, vira um problema lá na frente", explica.Em um Centro de Documentação profissional, até mesmo as caixas para armazenar devem ser especiais - de PH neutro - para que as fotografias sejam apropriadamente acondicionadas. "O arquivo deve se estruturar para preservar esses documentos não por dez ou vinte anos, mas para cem ou duzentos anos. Estamos trabalhando para os pesquisadores de hoje, e também para a posteridade, para o benefício de estudiosos que ainda nem nasceram".Para que a documentação dure o maior tempo possível, o primeiro passo, que já começou a ser feito, é a higienização dos documentos: uma limpeza técnica completa, de folha a folha, retirando a poeira. Para isso, a equipe do projeto Memorial Mário Palmério já conta com o apoio de dois alunos bolsistas: o estudante de História, José Augusto da Silva Queiroz, e a aluna de Comunicação Social, Aline Veloso Mendes. "Nesses poucos dias de trabalho, os dois se mostraram muito competentes e dedicados. Será um grande aprendizado para todos", diz a coordenadora.A pesquisa histórica, feita por Cristiane Ferreira e o jornalista e professor André Azevedo da Fonseca - pós-graduando em História do Brasil na PUC-MG - buscará informações precisas para cada documento. "Nas fotografias, por exemplo, vamos identificar e registrar quem são as pessoas e qual o momento histórico em que determinada foto foi tirada - enfim, vamos inventariar cada um dos documentos", explica o jornalista.Em um segundo momento, o Centro de Documentação vai transcrever e digitalizar o acervo para deixar grande parte dos textos e fotos disponíveis na Internet para consulta pública. O professor André Azevedo também vai coordenar esse processo.

Documentos

Cristiane Ferreira diz que no contato com a documentação de Mário Palmério encontrou diários muito minuciosos. O escritor parecia sempre andar com uma agenda, com várias anotações, demonstrando ser uma pessoa muito observadora.Uma grande curiosidade ainda pouco explicada foram suas permanências na Amazônia. Na sua segunda viagem à região (1978-1987) ele deixou registrados diversos diários com impressões pessoais da vegetação e da cultura local. Em cadernos como os de 1978 e os de 1981, Palmério anotou a rotina, as pessoas que o visitavam no barco e até mesmo as impressões de cada visitante. Já foram encontradas 1.038 fotos tiradas por Mário Palmério, somente neste período amazônico. "Infelizmente essas fotos estão, em sua grande maioria, emborcadas - que é quando, devido à falta de controle de temperatura e umidade no acondicionamento, a fotografia se curva. Precisamos mandar higienizá-las e planificá-las - ou seja, torná-las 'retinhas' novamente. Essas fotos são inéditas. O Brasil inteiro tem curiosidade em relação à esse período da vida de Palmério", diz a coordenadora.Existe também entre essa documentação um glossário para suas obras, totalmente inédito. Palmério dizia que "a língua do povo não está nos dicionários". Assim, como em seus livros ele usava um linguajar bem regional, o escritor preparou um glossário para o vocabulário sertanejo de seus romances. A coordenadora informa que esse "dicionário palmeriano" será transcrito em breve, pois atualmente está manuscrito ou datilografado em folha de seda, um suporte muito frágil. "Isso é outra das muitas atividades urgentes que temos pela frente".

Por enquanto, o Centro de Documentação está sendo estruturado na sala de obras raras da Biblioteca Central da Uniube. A previsão é que seja inaugurado em setembro de 2005.