“Censura interna das redações é inevitável e universal”, diz Cony

Na fatídica noite de 13 de dezembro de 1968, dia da decretação do AI-5 – o último e mais violento pacote de restrições imposto pela Ditadura

Atualizado em 24/04/2012 às 17:04, por Guilherme Sardas.

Crédito: Levi Ribeiro


Militar brasileira (1964-85) –, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony figurava na lista de personalidades a serem, imediatamente, “tiradas de circulação”. Às 23 horas, fora pego em sua residência, no Rio de Janeiro, e levado para o Batalhão de Guardas, onde dividiria cela com o também jornalista e escritor Joel Silveira.


Mesmo sem estar atuando na imprensa na ocasião, o escritor ficaria ali por três meses. “Eu nem tinha emprego em jornal, nessa época, eu me sustentava a partir das traduções a adaptações de grandes clássicos da Literatura que eu fazia para a Ediouro”. Foi apenas uma das experiências de cárcere, das seis que sofreu durante o regime."Foi a pior delas. Não fui torturado, apesar de a prisão já ser uma tortura”, afirma.


Hoje, com 66 anos de carreira e dono de premiada carreira literária – 17 romances, 4 prêmios Jabuti, além da cadeira nº 3 da Academia Brasileira de Letras (ABL) –, o “imortal” segue ativo na imprensa brasileira. Assina coluna semanal na página 2 da Folha de S. Paulo e participa diariamente, desde 2001, do quadro “Liberdade de Expressão”, do Jornal da CBN, ao lado de Viviane Mosé e Artur Xexéo.


Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, Cony relembra episódios vividos durante os anos de chumbo, defende que a censura institucional é a única que deixou de existir no país – “A funcional continua existindo” – e critica a redundância da imprensa em assuntos que "vendem". “O Titanic fez 100 anos. É uma pauta, sem dúvida, mas teve um canal que fez seis documentários seguidos sobre o Titanic”.


IMPRENSA – Há uma ideia comum de que com o fim da Ditadura Militar o Brasil vive um estado legítimo de liberdade de imprensa. Concorda?

CARLOS HEITOR CONY – A liberdade de imprensa sempre foi mascarada. Nunca houve liberdade de imprensa total. Existem dois tipos de censura: a primeira é a institucional, que havia no tempo do Getúlio e da Ditadura Militar. Essa acabou. Evidentemente, hoje, o governo manobra no sentido de ter elementos nas redações, nas empresas. Mas, não pode impedir que saiam certas notícias; pode apenas dificultar. Agora, tem a censura interna de cada órgão, de cada editoria. Não só cada jornal tem, como cada editoria. Os editores, realmente, exercem certa pressão nos jornalistas em geral. Eu sou o editor de Esportes, por exemplo, e detesto o Ronaldo. Qualquer matéria que chegar falando bem dele eu corto ou mitigo. Isso é para tudo: literatura, política, e serve para editores e subeditores. É toda uma hierarquia. E, às vezes, isso se estende para a própria empresa. Se ela depende de um empréstimo da Caixa Econômica ou do BNDES, ela evita falar mal [dessas empresas]. Essa censura é inevitável e universal. Sobretudo, é universal.


Você foi preso várias vezes durante a ditadura. Qual foi o episódio mais emblemático?

A pior de todas foi a do AI-5. A 13 de dezembro de 1968, fui preso às 11 horas da noite, fiquei bastante tempo preso, até depois do carnaval. Nunca fui torturado, apesar de que ficar preso é uma tortura. Na época, não estava mais no Correio da Manhã , estava desempregado. Fazia adaptações de clássicos universais, Victor Hugo, Júlio Verne, entre outros, pela Ediouro. Eu tenho uns 60 livros infanto-juvenis, publicados pela editora e eu vivia disso. O primeiro exército do RJ tinha uma lista de quem deveria ser preso e eu estava nessa lista. Nesse dia, foram buscar o Juscelino [Kubitschek], [Carlos] Lacerda etc. Eu fui preso com o Joel Silveira, que também estava sem jornal, mas tinha um passado de jornalista combativo. Essa foi a pior prisão.


Alguma outra que o tenha marcado?

Uma delas foi, digamos, justificada. Era o tempo do Castelo Branco, fevereiro de 1965. Fui para a reunião da OEA [Organização dos Estados Americanos]. No regulamento da OEA, as reuniões só poderiam ser feitas em países democráticos. A reunião ia ser feita, mas argumentaram que era ditadura, então cancelaram. O governo Castelo fez uma campanha para provar que o regime era democrático e a OEA veio, e, inclusive para provar que o país era democrático, mandaram uma série de artigos meus, provando que a imprensa estava livre, que havia um escritor, um jornalista, que chamava os militares de gorilas w imbecis. Reunimos o [Antônio] Callado, Flávio Rangel, Gláuber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Márcio Moreira Alves, Mário Carneiro, Thiago de Melo e resolvemos fazer uma manifestação na rua. O Partido Comunista prometeu 5 mil operários, mas não levou nenhum. Fizemos faixas e, quando o Castelo chegou com a comitiva dele, começamos a vaiar e gritar "abaixo a ditadura". Todos os chefes da OEA e das delegações viram o protesto. Em um minuto ou dois, a segurança do Castelo colocou a gente no camburão e nos levou para o Batalhão de Guardas.


Como enxerga o espaço destinado a discussões mais profundas ou ao conhecimento menos acessível ao leitor comum na imprensa brasileira. Existe censura, ou seja, uma restrição ao conhecimento?

Sim, mas a restrição não é ideológica, mas comercial. Mais no rádio e na TV, menos no jornal, determinados temas não dão Ibope. Para você ter uma ideia de como isso não é de hoje, em 1967, a Manchete me pediu pra fazer o trabalho sobre o Vargas [o livro-reportagem “Quem matou Vargas"]. Quando fui à Manchete, falar com a direção, estava lá o Ibrahim Sued, que fazia a coluna semanal. Era relativamente meu amigo. Quando ele soube que estavam me contratando para fazer o livro do Vargas, que ia ser publicado em dez capítulos pela Manchete, ele pulou da cadeira: “Ele já morreu, não tem mais nada, vocês vão encalhar a revista, ninguém quer saber disso”. Esse troço existe até hoje. Se você levar uma pauta para discutir o Concílio Vaticano II, ninguém se interessa. Se você levar uma pauta como Josué Montello [jornalista, teatrólogo e escritor brasileiro], ninguém quer dar. Você tem que levar então Caetano, Chico... Não é censura, mas é uma escolha, pois são tidos como assuntos que não dão Ibope. Há uma ideia preconcebida que determinado assuntos vendem...


É dever da imprensa estimular a absorção desses assuntos menos acessíveis a maior parte da população?

O problema é que a imprensa fica muito redundante. Exemplo: o [naufrágio do] Titanic fez 100 anos. É uma pauta, sem dúvida, mas há um excesso muito grande. Teve um canal que fez seis documentários seguidos sobre o Titanic. No domingo, você ligava a televisão e só tinha Titanic. Esse tipo de redundância é muito comum. Por causa dessa redundância que está dando samba, prejudicando o tratamento de outros assuntos importantes.