Casamento à americana
Casamento à americana
Já comentei aqui que tenho uma queda por notícias estranhas, pouco usuais, que, geralmente, ficam escondidas no emaranhado das tragédias e desgraças nacionais e internacionais que merecem maior destaque nas páginas dos jornais.
Gosto de ler sobre pessoas comuns envolvidas em fatos ou circunstâncias curiosas. É mania antiga minha, o fascínio por esses flashes da vida alheia. Acho que dá para entender muito bem a alma de um povo e ter um insight bem preciso da essência de uma sociedade prestando atenção nessas materiazinhas desimportantes, curtinhas, publicadas para tapar buracos que o departamento comercial não conseguiu preencher com algum anúncio.
Se os jornais e revistas fossem uma selva, as manchetes e grandes matérias seriam aquelas árvores frondosas, com troncos cavernosos, enormes e galhos cobertos de folhas, onde bichos perigosos podem se esconder. Eu entro na selva, olho essas árvores, geralmente com nojo do limbo e dos vermes que se escondem naquelas partes do tronco não muito iluminadas pelo sol.
Mas o que gosto mesmo é de olhar para o capim rasteiro, prestar atenção nas plantinhas vagabundas que nascem, crescem, vivem e morrem anônimas. E que, embora menos vistosas que as grandes árvores, demonstram com muito mais precisão que tipo de solo é aquele onde todas estão cravadas.
Por exemplo: dia desses, vi num jornal daqui, o Sun Sentinel , que um casal de uma cidade da Flórida chamada Kissimmee, está brigando na justiça num caso bastante curioso. A mulher diz que ambos se casaram no dia 24 de maio de 2008. O homem jura que jamais aconteceu tal casamento e que ambos apenas coabitavam. E pelo jeito nem muito pacificamente. Um boletim de ocorrência registrado na Polícia no dia 10 de outubro do ano passado, o aponta como vítima de violência doméstica e ela como a agressora.
A mulher, Heather Bowser, apresentou como prova ao juiz uma certidão de casamento. O homem, Matthew Ditzel, nega veementemente e diz jamais ter estado presente no dia que a certidão de casamento foi produzida e assinada pela notária pública Verônica González, que, coincidentemente, é amiga e trabalha no mesmo local que a noiva, um hotel e spa em Orlando.
As investigações acabaram indicando que o homem realmente estava casado contra sua vontade ou conhecimento. A noiva e a notária pública armaram toda a jogada. Foram presas (e depois soltas, sob fiança), perderam seus empregos e a notária também perdeu o direito de continuar oficializando uniões e autenticando documentos por ter certificado falsamente que presenciou o casal dizendo o "sim" por livre e espontânea vontade.
Um juiz, Jeffrey Fleming, negou o pedido de anulação do casamento feito pelo noivo porque a noiva garante ter condições de apresentar testemunhas que compareceram ao jantar de comemoração pelo casório. E o caso continua.
O que tudo isso nos ensina sobre a natureza humana e a sociedade americana? Muitas coisas. Mas vou listar só as principais porque senão isso aqui vira uma tese, ao invés de uma coluna.
Primeiro: Freud não estava num de seus melhores dias quando disse a tal frase que lhe é atribuída: "Afinal, o que querem as mulheres?". Elas querem é casar.
Também querem ser magras, saradas, lindas, maravilhosas, ter uma carreira de sucesso, uma família de comercial de margarina, filhos educadíssimos e bem sucedidos, querem ser ótimas profissionais, mães, esposas, amantes, enfim, umas doidas, que perseguem o impossível e o inviável. Não é a toa que programas de TV e livros de autoajuda têm uma audiência predominantemente feminina.
Antes que as feministas de plantão comecem a me jogar pedras, quero lembrar que também sou mulher e também me incluo na fila das insanas. Mas reconheço que meu caso até que é leve. Observo que têm umas colegas por aí mais doida que eu. Por exemplo: aqui em casa, nunca teve esse negócio chato de discutir relação. Pratico Krav Magá numa academia junto com meu marido e duas vezes por semana discutimos nossa relação é no tatame, treinando juntos os golpes e técnicas de ataque e defesa. Funciona que é uma beleza, eu recomendo.
Segundo: os homens são seres mais simples, que se contentam com uma cerveja gelada, uma travessa de frango frito e o domínio do controle remoto da TV. Se coabitarem com alguém que também lhes dê sexo e roupa lavada não pensam em mais nada, estão no céu. Por essas e muitas outras razões eu adoro essas criaturas óbvias, com vocação para a felicidade e os prazeres simples da vida.
Terceiro: nem sempre a falta de burocracia facilita a vida das pessoas. Aqui nos Estados Unidos, para casar basta o casal ir numa Prefeitura, pagar uma taxa e conseguir uma licença matrimonial. Depois, de posse desse papel, é só entrar num banco, ou hotel, um supermercado ou qualquer lugar onde esteja um notário público, dizer o sim e está resolvida a parada.
Detalhe: qualquer um pode se tornar notário público. Há cursos por correspondência.
Portanto, na próxima vez que você estiver para ter um ataque de nervos numa repartição pública porque precisa recolher a assinatura do concursado suplente do assistente do subgerente do Departamento dos Carimbos e Selos Inúteis num documento qualquer, lembre-se dessa história.
E do pobre do Matthew Ditzel, que graças a essa praticidade americana acabou fisgado, contra sua vontade ou conhecimento, por uma mulher violenta, neurótica, doida pra casar, que ainda batia nele. Tudo isso porque ele gosta de frango frito, cerveja gelada, sexo, roupa lavada e de ter a posse absoluta do controle remoto da televisão.
E erga as mãos para os céus, porque pelo menos para lhe proteger de tamanha desgraça serve tanta burocracia no Brasil.






