Cartunistas utilizam a crítica e o humor para debater espionagem norte-americana ao Brasil

As discussões sobre invasão de privacidade nunca estiveram tão em voga na imprensa como nos últimos meses. Depois da denúncia de que o Brasil foi vítima de espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA) norte-americana, no começo de setembro, a pauta se tornou recorrente nos principais veículos de comunicação.

Atualizado em 06/11/2013 às 14:11, por Danúbia Paraizo.

O espaço das charges também foi contemplado com o assunto, em que os cartunistas puderam abordar a pauta, ora com olhar crítico e direto, ora pelo viés do humor.
Crédito:Divulgação Gilmar O chargista Alpino, que publica no portal Yahoo! Brasil e na revista Playboy , explica que nem sempre o riso é a abordagem ideal. Em um de seus trabalhos, ele trouxe o diálogo de dois mendigos “satisfeitos” por morarem no Brasil, onde o governo mal sabia da existência deles. A notícia do dia revelava que em nome da “luta contra o terrorismo”, o governo norte-americano vigiava as ligações telefônicas e e-mails de todos os seus cidadãos. “A notícia tem que me incomodar de alguma forma para que vire uma charge”, explica o cartunista, que passa cerca de quatro a cinco horas todos os dias lendo o que acontece no Brasil e no mundo. “Vou de política à cotidiano, de artes à fofoca, de astronomia à religião. É como um garimpo. Leio de tudo, com o mesmo grau de interesse.”
Apesar de a crítica direta ser um estilo de muitos chargistas, Marco Jacobsen, do jornal Folha de Londrina e da revista Sexy, prefere dar seu recado de forma mais descontraída. Uma de suas charges mostra o presidente Barack Obama dando um “like” no perfil de uma jovem no Facebook. “Quis aproveitar a popularidade da rede social para fazer referência à espionagem. Dar a ideia de que ele espionava a moça dentro de casa.”
Diante da repercussão do assunto, todos aguardavam a resposta da presidente Dilma Rousseff, que durante seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, no último dia 24 de setembro, cobrou explicações e um pedido de desculpas. Sua visita prevista aos Estados Unidos também foi cancelada, o que foi aprovado por muitos brasileiros. O cartunista Aroeira, dos jornais Brasil Econômico e O Dia, do Rio de Janeiro, preferiu não entrar no clima nacionalista. Em uma de suas charges, trouxe a presidente em seu gabinete e Obama “camuflado” de abajur.
Crédito:Divulgação Marco Jacobsen A ideia foi coincidentemente vista em outras charges logo depois, algo que para Aroeira é um risco da profissão. “Para evitar repetições de ideias, ter linguagem própria é fundamental, mas ainda assim corremos esse risco”, diz. O cartunista Gilmar, que colabora para o jornal da OAB, entre outros, concorda com o colega, lembrando que quando o assunto é de grande repercussão, o desafio da charge é ainda maior. “As piadas já vêm prontas das redes sociais em um clique. É complicado fazer um trabalho inédito.” Sobre a polêmica espionagem norte-americana, Gilmar preferiu retratar o ambiente do gabinete da presidente, mas de forma a aproximá-lo da realidade doméstica dos leitores. Enquanto uma funcionária aspira debaixo da mesa de Dilma, Obama é puxado pelo aparelho. Para se manter o mais atualizado possível, o cartunista diz priorizar o assunto da charge com base no que está “bombando” no Facebook e no que é trending topic no Twitter. “O que está sendo repercutido nas redes sociais recebe mais minha atenção do que o que é destaque nos grandes portais. Fico muito centrado nelas, mas pelo dinamismo e velocidade da informação, se bobear, perco o bonde. A charge tem que ser meio que imediata também.”
Jota A., cartunista do jornal O Dia , de Teresina (PI), já encontrou uma forma de driblar o problema. Ele que fez mais de dez charges sobre o assunto da espionagem norte-americana explica que faz de duas a cinco charges diferentes sobre o mesmo tema todos os dias. Após consultar os trabalhos dos colegas na internet, elege a que será publicada.