Carta ao Papai Noel

Carta ao Papai Noel

Atualizado em 17/12/2008 às 16:12, por Igor Ribeiro.

Querido Noel, velho batuta.

Peço para 2009 uma mídia menos condescendente e mais inteligente. Jornais e revistas menos atrelados com favorecimentos pessoais e mesquinharias ideológicas, e mais comprometidos com a realidade dos fatos, com uma boa apuração. Jornalistas menos deslumbrados com a fachada e a superfície de nossos representantes políticos, e mais atentos às ricas sutilezas internas que os diversos partidos oferecem para análise.

Espero que os jornalistas sejam menos ingênuos e otimistas. O povo pode ser otimista, jornalista não - este pode ser, no máximo, realista. Deveria ser uma lição básica de todas as faculdades e redações: ter sempre o espírito argüitivo em prontidão; não se deixar enganar por números e sorrisos; verificar, reverificar e cobrar... Mas não, Noel, parece que há muito tempo já se esquecem disso. Acho que crescer na classe média ou média alta e ter envolvimento com ONG amolece o coração.

Peço, São Nicolau, que meus colegas consigam controlar, durante a apuração de qualquer matéria, a ansiedade pelo malfadado furo jornalístico, que pode ter efeitos catastróficos se não for bem calibrado. Vimos isso se repetir tantas vezes neste 2008, não é, Bom Velhinho? Um descontrole de reportagem ou de produção pode prender gente inocente; estimular a população ao linchamento; revelar segredos de justiça de investigações importantíssimas; e até assassinar refém de seqüestro.

Já estou beirando a utopia, Papai Noel? É que eu ainda queria pedir para que a grande mídia, aquela que tem enorme veiculação no Brasil, mudasse radicalmente. Não seria ótimo se, em vez de alarmar a população com textos folhetinescos e acusações extremamente ralas, a tal da grande mídia tentasse unir o povo em volta de discussões reais, sólidas, comprovadamente saudáveis? Também gostaria que o senhor intercedesse para que esses grandalhões parassem de se agarrar à saia de colunistas polemistas, que esnobam intelectualidade por trás de um programa em Nova York ou debaixo de um chapéu panamá.

Por outro lado, também tem me irritado a mídia nanica, que vê conspiração em tudo que é lugar. Uma boa parte perdeu o propósito depois que a oposição virou governo. Teve que caçar uma imparcialidade que nunca respeitou. Mas a maioria ainda levanta bandeiras coloridas e grita palavras de ordem para todos os lados, fazendo prevalecer as ideologias contra a razão. Dá para mudar todos eles também, seu Noel? Deixar todo mundo um pouco mais pé no chão?

São Nicolau, quero transformar radicalmente 80% da mídia que fala economês. Sério. Não dá mais, meu bom senhor. Quando a situação vai bem, eles veiculam a informação didadicamente, com todas as letras, e todo mundo entende que o país está legal. Mas quando os gringos deixam a bomba estourar, eles não falam nada com nada, Papai Noel! Tem executivo comprando dois perus neste Natal para garantir o do ano que vem, enquanto o povão nem tchuns para a tal da crise, comprando TV de Plasma em 20 prestações. Alguém está sendo enganado pelos jornalistas do economês, não? Muda eles em 2009, Nicolau!

E os jornalistas de cultura e comportamento? Perceba, senhor: eles estão sempre mostrando ou oferecendo o último não-sei-o-quê como sendo o suprasumo do melhor em comparação ao que eles publicaram... no dia anterior!!! Eu sei que é bom para os negócios, Noel, mas convenhamos, será que o povo precisa ser convencido e hipnotizado e esfaqueado dessa forma o tempo todo? Desse modo, outro pedido meu é para que a mídia de consumo seja mais plácida.

E para que o pessoal que faz cobertura de esporte tenha mais noção. O senhor percebeu, nos Jogos Olímpicos de Pequim, a quantidade de especialista em badminton que apareceu de repente? Nada contra o badminton: por mim 2009 pode ter campeonato de badminton, de bocha e até de rouba-monte. Mas também podia ter jornalista menos palpiteiro e mais estudioso. Ah, e para o pessoal que cobre futebol, tenho um pedido que pode soar impossível, Noel: que eles consigam articular umas perguntas mais espertas para jogadores e técnicos.

E essa onda de sustentabilidade, Noel? Legal, né? Seus comparsas mitológicos devem estar começando a se animar. Mas eu sei por que eles não se alegram por completo: é muito falatório e pouca prática. Principalmente entre meus colegas jornalistas. Eles dizem que não, que são conscientes. Justificam-se por meio de pautas e reciclagem. Mas será que isso é o suficiente? Então eu peço que em 2009 as pessoas não só pensem em sustentabilidade, mas também a pratiquem mais efusivamente.

Ah, bom velhinho, são tantos os desejos que ainda tenho para 2009. Polêmicas relacionadas a sigilo de fonte e grampo telefônico que poderiam ser tão facilmente resolvidas... Ou o tempo gasto em algumas discussões fúteis alimentadas por representantes de classe. Há tanta coisa a mais para se fazer e consertar. Injustiça, pobreza, violência e irresponsabilidade rolam tão solta e impunemente neste país, que algumas picuinhas insistentes ficam até ridículas, não é Nicolau?

Sim, eu sei que a nós, os desejosos de mudança, também cabe uma parte de mudança. Mas não custa nada fazer uma listinha de Natal. Por isso, Noel, quando passar aqui pela América do Sul, não esquece de trazer esses mimos para a imprensa brasileira. Não que ela seja péssima. Até melhorou muito e consegue demonstrar mobilizações emocionantes de vez em quando, como no caso recente dos catarinenses castigados pelas águas. Mas que, a parte desses momentos iluminados, a mídia brasileira ainda tem uns viciozinhos nojentos e dispensáveis... Ah! Isso tem.

Muda ela, Noel.