Carta à Isabella
Carta à Isabella
Pequena menina Isabella, de apenas cinco anos:
Não me leve a mal: você já cansou. Melhor dizendo, estou cansado de você. Há mais de 30 corridos e longos dias, só ouvimos aqui falar na sua morte brutal, na estupidez de seu assassino, na batalha entre violência e delicadeza, na justiça, com caixa alta e caixa baixa. Se bem que toda essa publicidade não é culpa sua, nada tem a ver com o que você deseja ou permite. Fazem tudo isso em seu nome, mas sem seu consentimento.
Por favor, não me interprete rude, mas seria melhor que sua morte tivesse sido anônima, como são tantas outras mortes - igualmente brutas e violentas - no dia-a-dia. Jogado pela janela, que seu corpo ali estirado no chão se contabilizasse no perverso balanço das agressões cometidas contra crianças e adolescentes no Brasil e no mundo. E fosse registrado apenas num pé de página, numa nota pelada, lida apressadamente pela apresentadora de televisão. Seria melhor para todos nós, especialmente para você. Porque não faz sentido que a imprensa dê tanto destaque para seu assassinato se ele não ajudar a reduzir as outras centenas de mortes de crianças nas mesmas condições que a sua.
Você é muito nova, talvez ainda não tenha percebido que se transformou na principal atração de um grande e bizarro espetáculo. Não se iluda: os jornalistas querem mesmo é ganhar em cima de sua triste história. Se houvesse mais sangue, mais violência, mais absurdo, mais felizes eles ficariam. Repare bem nas cínicas caras dos repórteres de televisão. Enquanto parecem compungidos, sensibilizados com seu assassinato, escondem, no canto da boca, um perverso sorriso de satisfação e contentamento. Perceba também as planilhas de audiência das emissoras de televisão, a circulação das revistas que estampam a sua foto. Tudo isso pode lhe ajudar a compreender que sua morte é apenas um meio.
Enquanto seu sofrimento provoca gozo na mídia, o povo pede justiça. Não acredite no povo quando ele estiver debaixo dessas circunstâncias. O povo não quer justiça. O povo quer notoriedade. Empunham palavras de ordem, cartazes em cartolina, clamam por vinganças ou justiça. Mas o povo deseja, de verdade, tão e somente seus 15 segundos na televisão. Ontem eu vi uma mulher histérica, a sacudir o gordo corpo como quem manifesta demônios ou entidades sobrenaturais, clamando vingança e pedindo linchamento público de dois acusados, agora presos. Ela estava em seu júbilo particular. Desligadas as câmeras, o clamor desaparece. O aluguel atrasado é mais importante que sua morte e a notoriedade, mais desejada que sua vida.
Veja bem, no começo a chamavam "Isabella Nardoni". Depois, "menina Isabella" ou "pequena Isabella", bem como "Isabella, de apenas cinco anos". Queriam qualificar você, provocar emoção sobre a barbárie. De minha parte, a chamo agora de "Pequena menina Isabella, de apenas cinco anos". É uma ironia minha, não se entristeça. A imprensa, que empanturrou teu rosto de adjetivos, é a mesma que se recusa a adjetivar adequadamente tanto figuras de mérito, quanto canalhas com quem não tem vergonha de compartilhar a mesa e dividir o vinho.
Isabella, morra. Morra e suma, fuja dos jornalistas, dos repórteres, dos farejadores de sangue, dos comentaristas de polícia, dos especuladores, dos que clamam por justiça. Esconda-se deles como quem se esconde naquela antiga brincadeira de rua.
Atenciosamente e com a melhor das intenções,
Rodrigo






