Carreira: morte em poucas linhas
Carreira: morte em poucas linhas
No Brasil, a seção deobituários costuma publicar somente lista de falecimentos. Quando isso nãoacontece, os obituários brasileiros focam apenas nas mortes de pessoasimportantes e conhecidas que ganham as páginas de editorias variadas, de acordocom sua área de atuação em vida.
Para conhecer um pouco mais de quem está por trás dessas seções no jornalismo brasileiro, publicamos a reportagem "A morte é o mote" na revista IMPRENSA nº 247, seção "Carreira", que há três meses publica matérias sobre jornalistas que não-assinam. A seguir, veja mais trechos dos depoimentos de Matinas Suzuki Jr., organizador de "O Livro das Vidas", reunião de obituários do The New York Times , Estevão Bertoni e Leandro Rodrigues, obituaristas da Folha de S.Paulo e do Zero Hora , respectivamente.
Matinas Suzuki Jr.
Revista Imprensa - Podemos dizer que os obituários publicados na Folha e no O Globo são tentativas de resgatar a seção de obituários no Brasil? Como o senhor avalia essas experiências?
Matinas Suzuki Jr. - O Globo sempre manteve uma seção de obituário, o que é raríssimo na imprensa brasileira. Mas é um obituário mais convencional, um resumo biográfico da vida da pessoa que morreu. A seção que a Folha inaugurou se aproxima mais do obituário moderno, que procura contar uma pequena parábola - extrair uma lição da vida que se foi.
O senhor criou na rede Bom Dia uma seção de obituários. Qual era seu formato?
A seção se chama "Minuto de silêncio" e continua existindo, embora sem a assiduidade que já teve. Ela chegou a ter momentos memoráveis, especialmente na edição de Jundiaí. A seção de obituários é de vital importância para os jornais regionais e locais nos Estados Unidos e foi baseado neste exemplo que implantamos o "Minuto de silêncio".
No interior do país, por causa de famílias mais tradicionais ou por causa da proximidade entre os habitantes, existe um costume maior de publicar obituários?
De uma maneira geral - e o jornalismo fora dos grandes centros não fogem à regra - a imprensa brasileira só dedica espaço aos mortos ilustres. A receita é mais ou menos a mesma: uma reportagem contando as circunstâncias da morte, uma biografia de tom enciclopédico e uma repercussão (acho curioso que muitas vezes, na repercussão, as pessoas falam mais de si mesmas do que da pessoa que morreu: "Fulano foi importantíssimo para a minha vida, foi graça a ele que eu pude..." ou então "Nunca me esqueço do dia em que nos encontramos e eu..." e por aí vai). É uma forma digna de tratar os mortos ilustres, mas talvez não seja a jornalisticamente mais sofisticada. O que ocorre é que, sobretudo nos países anglo-saxões, o jornalismo de obituários já está em uma outra fase em que uma pessoa não precisa necessariamente ser ilustre ou ser bem conhecida para ter o seu obituário no jornal. Basta que ela tenha tido uma vida interessante. Eu acho uma forma de jornalismo mais inclusiva - e não é à toa que os obituários estão entre os textos mais lidos nesses jornais. Aliás, não só em jornais: o obituário semanal da revista The Economist é, merecidamente, um dos tópicos mais procurados por seus leitores.
O senhor já escreveu algum obituário?
Sim, o meu. Deu muito trabalho, mas acho que agora cheguei à forma
definitiva, com o auxílio de dois amigos: "Matinas Suzuki Jr. tentou ser Matinas
Suzuki Jr., mas desperdiçou a sua única chance".
ESTEVÃO BERTONI
Revista Imprensa - Qual o critério adotado para selecionar as pessoas que estarão no obituário?
Estevão Bertoni - Pode parecer besta a resposta, mas o único critério é a pessoa ter morrido recentemente. Rica, pobre, de direita ou de esquerda, negra ou branca, tanto faz. Lógico que facilita o personagem ter uma história legal de vida, aí não há dúvidas de que o sujeito merece um texto. Agora, se não aparece de cara nada muito interessante, tenta-se descobrir algo escondido. Escolho um nome qualquer na lista de mortos que o serviço funerário envia e vou atrás sem saber nada da pessoa. Quase sempre dá certo. A coluna tenta manter um prazo de sete dias da morte até a publicação. É um critério que o espaço tenta seguir.
Como vocês recebem essas notícias, você procura, é pautado? Os leitores podem enviar sugestões?
Procuro, sou pautado e recebo sugestões. Eu monitoro todas as mortes noticiadas em sites, jornais, TV. Fico de olho. Às vezes o jornal pede para fazer um texto de determinada pessoa. Ultimamente, tenho recebido muitos e-mails com sugestões. É leitor que acompanha a coluna e quando morre alguém da família ou conhecido, escreve contando a história. Tem um mesmo leitor que já me passou duas boas histórias. Já falei para ele continuar mandando as sugestões porque a parceria funcionou. Tem muitos colegas no jornal que acabam sugerindo também algum nome.
Como os familiares e amigos reagem ao contato?
O mais difícil é achar os contatos. Uma vez vi uma história de um rapaz que pulou numa lagoa para salvar uma garotinha que estava se afogando, numa cidade em Minas Gerais. Os dois morreram. Queria muito ter feito um texto sobre ele. Tentei por dois dias localizar a família. Detalhe: foi durante um feriado prolongado. Cemitério, funerária, bombeiros, jornalistas. Liguei para todo mundo que podia e não consegui nada. Aí desisti. Mas acho que foi o único caso. Tem dia que fico horas e horas para conseguir falar com a pessoa certa. A maioria fala numa boa. Quando é tragédia fica mais difícil, aí tento falar com amigos, pessoas próximas. Tem gente que não quer falar, lógico, mas são poucos. As famílias costumam ficar felizes, ligam para agradecer. Recentemente recebi um convite de uma família para almoçar. Eles gostaram do texto. Tem gente que quer mandar presente, aí tenho que explicar que não posso aceitar, mas agradeço.
Como você chegou ao posto de obituarista?
Eu tenho 26 anos. Entrei na Folha em 2006, como trainee . Faz um ano que escrevo obituários. Havia passado pela reportagem e fiquei um tempão como redator. Acho que tudo começou quando, num dia em que fiquei na Folha até tarde da noite resolvendo pendências, acabei vendo uma troca de tiros entre suspeitos de algum crime e policiais, bem na frente do prédio do jornal. Vi um cara sendo morto a tiros. Coisa horrível. Depois que a confusão passou, desci e fui ver que diabos era aquilo. Fiquei até as seis da manhã acompanhando a movimentação. Aí escrevi um e-mail para meus colegas de editoria, relatando o que eu tinha visto pela sacada do jornal e dizendo que tinha deixado um texto que poderia ser aproveitado. Esse meu e-mail caiu na mão do editor, e aí ele achou que eu sabia escrever. Um tempo depois, ele me botou para fazer os obituários.
Diferente de outros jornais, o obituário na Folha é assinado. Ao que se deve isso?
O obituário da Folha é diferente. Não conheço outro jornal no país que tenha o mesmo espaço com aquele estilo de texto. A maioria dos obituários ou reproduz notas divulgadas pela família ou faz algo burocrático: "Morreu ontem, aos 80 anos, Fulano de Tal". A coluna da Folha é uma reportagem. Tenho que apurar, checar as informações. Não pego coisas de arquivo e jogo lá. É um esforço de reportagem, por isso que é assinado, acho.
Leandro Rodrigues
Revista Imprensa - Qual o critério adotado para selecionar as pessoas que estarão no obituário?
Leandro Rodrigues - O obituário segue um critério jornalístico. Damos preferência na edição a pessoas com alguma representatividade ou destaque na comunidade ou no seu setor de atuação. Mas isso não significa que só publicamos obituários das pessoas com uma história de destaque. A seção, em ZH , também tem um caráter de serviço. Ou seja, qualquer pessoa pode mandar sua sugestão de obituário, com algumas linhas sobre o morto.
Como vocês recebem essas notícias, você procura, é pautado? Os leitores podem enviar sugestões?
Um pouco de cada. Recebemos muitas sugestões, às vezes com textos bastante informativo. Mas não podemos ficar reféns desse caminho. Desde cedo, procuramos sondar as participações de falecimento que devem sair na edição do dia seguinte, anúncios pagos, para verificar se alguma pessoa de destaque na cidade ou no estado morreu. Por meio das agências de notícias, também acompanhamos as mortes de personalidades internacionais, que sempre tentamos colocar no jornal também. Trata-se de uma ponta de cultura geral para esse leitor descobrir que tal pessoa teve papel importante na resistência francesa contra os nazistas, por exemplo.
É difícil conseguir as informações? Como os familiares e amigos reagem ao contato?
Às vezes, é bem difícil, principalmente quanto se precisa de informações precisas, concretas, sem "achismos". Mas na maioria dos casos, conseguimos boas fontes. A grande parte dos familiares e amigos gostam de falar, de contar aspectos da vida do morto, curiosidades. E tentamos estimular isso. Outros não desejam o obituário por razões diversas. Respeitamos isso em ZH .
Como você chegou ao posto de obituarista?
Tenho 31 anos, oito deles em ZH . Sou repórter da editoria de Geral e sigo fazendo outras matérias do dia ou especiais paralelamente. Como obituarista, estou há cerca de um ano e meio. Antes, havia uma espécie de rodízio no setor.
Qual a repercussão da seção?
Há muita repercussão entre os leitores. O retorno por e-mail e telefonemas nos dá uma impressão de que se trata de uma leitura diária para muita gente. Pessoas que começam a encontrar seus amigos no obituário, que desejam saber como e porque razão os outros estão morrendo. E o nosso obituário está na ZH.com também, ampliando a possibilidade de leitura.
Você lembra de histórias inusitadas que envolvia algum morto?
Certa vez, lendo o texto para uma viúva a fim de checar as informações, seguiu-se um silêncio do outro lado da linha. Depois, ela respondeu: "Mesmo com toda a tristeza que eu estou sentindo agora, com esse texto você me fez sorrir pela primeira vez depois que ele morreu". Acho que isso ocorreu porque a morte é o ponto de partida, não o foco. A vida é o principal.






