Carreira aquecida com ‘trincheira avançada’
Do mais jovem correspondente da Globo ao mais experiente apresentador do Roda Viva, Ernesto Paglia possui uma trajetória que abrange de pautas políticas a ambientais
Ernesto Paglia durante expedição na Groenlândia (Arquivo Pessoal)
Como pode alguém ir três vezes à Groenlândia e, em vez de congelar, sair com os olhos brilhando e o coração aquecido? E ainda na volta trazer uma péssima notícia: “algumas questões das mudanças climáticas podem ser reversíveis, com exceção de uma: o derretimento da Groenlândia.”
É preciso esclarecer que o derretimento da Groenlândia não é uma consequência da energia do repórter Ernesto Paglia, que, ao longo de sua carreira, tem se aventurado (também) em coberturas e documentários que têm como foco as mudanças climáticas.
Apesar de ter feito uma carreira eclética dentro da Globo, que durou 43 anos, seu entusiasmo com a pauta ambiental é antigo e cresceu com o trabalho. Paglia começou no reportariado em 1979, fazendo jornalismo diário “pé na rua”. Cobriu de tudo naquele período, principalmente pautas políticas, como as Diretas Já!. Em 1986, antes se tornar o mais jovem correspondente internacional da emissora, fez uma expedição ao arquipélago de Fernando de Noronha, que teve ares de aventura, registrada no site de memória da Globo.
Ao voltar de Londres em 1989, o meio ambiente já era tema recorrente nas suas reportagens. Cobriu o Fórum Global na Praia do Flamengo durante a Rio 92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento). Conta que, naquela época, já havia uma sensação de saturação com o tema do ambientalismo. Chamavam de ecologia: “Ah, não aguento mais os jornais, os telejornais, as revistas. Todo mundo só fala de ecologia”.
Negacionismo
Nos "blocos" anteriores, tivemos a participação de jornalistas com suas perguntas. Neste, deixamos a pergunta para Maristela Crispim*, diretora executiva da Eco Nordeste e presidente da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, por abordar uma pauta transversal tanto do programa Roda Viva quanto da carreira do Paglia. Ela questiona sobre uma possível saída para manter a integridade da informação climática neste complexo cenário geopolítico de polarização e negacionismo em crescimento.
“É um mal da nossa época, que só será mesmo remediado ou, pelo menos, enfrentado com armas da própria tecnologia”, responde Paglia, enfático.
Antes, contextualiza que estamos vivendo numa época de grandes manifestações de negacionismo, mas que hoje, graças à capilaridade e velocidade das redes sociais, ou seja, “dessa democrática algaravia, dessa multiplicidade de vozes dentro das redes sociais”, o negacionismo acaba encontrando seus pares e vai aumentando. Assim como a polaridade com viés ideológico.
Além dessa manifestação mais espontânea, há aquelas fabricadas que são multiplicadas artificialmente por grupos ou pessoas interessadas em divulgar descrença.
“O desafio não é pequeno. A democracia hoje enfrenta esse desafio imenso do digital ruim. Esse digital do mal é um grande problema. E a própria natureza do digital, que vive muito da polarização e da indignação.”
Ernesto aponta como “arma tecnológica” os filtros e as mediações que talvez possam diminuir este ruído. “É uma maneira de combater esse tipo de negacionismo, ou de fake news, ou de produção maldosa, maliciosa, de conteúdo falso e tudo mais.”
Agregada à questão tecnológica, tem também a camada ideológica, que se manifesta muito enfaticamente na pauta sobre o meio ambiente, como se a ciência fosse uma questão de crença ou de opinião.
“Acho que hoje uma imensa maioria já está mais bem informada, mas ainda existe muita gente que carrega desconfianças, porque, como eu disse, bota óculos ideológicos.”
Formatos originais
Precisei ir até o fim do mundo, na Groenlândia, para falar daquilo que está aqui, batendo à porta em Petrópolis, no litoral de São Paulo, no Rio Grande do Sul. Mas, infeliz ou felizmente, a gente tem que achar maneiras criativas, interessantes, desafiadoras, que atraiam o público.
Além de encontrar formas originais para contar suas histórias, Paglia, como um bom jornalista, frisa que é fundamental levar informação muito bem respaldada pela ciência para o grande público. Contudo, é necessário “traduzi-la de uma maneira acessível e aceitável”. Diz que é muito ruim ser portador de más notícias. “E as notícias não são boas. Mas não adianta a gente colorir.”
Na Amazônia, fez o documentário “Caça Tempestades”. O formato escolhido foi propositalmente "apelativo", admitindo que a equipe se baseou na linguagem da franquia de filmes "Twisters" (caçadores de tornados) para criar um conteúdo interessante e curioso para o público. Apesar da estética de aventura, o documentário possui rigor científico, realizado em parceria com o fundador do Laboratório de Eletricidade Atmosférica do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Osmar Pinto Junior, com quem já havia trabalhado em reportagens para o Fantástico anos antes.
Paglia defende ser necessário encontrar formas criativas de atrair a atenção das pessoas para temas científicos, passando a mensagem de que o esforço ambiental visa, em última análise, a salvação da nossa própria espécie e da nossa "casa", já que o planeta continuará existindo mesmo sem os seres humanos. “Não dá para também pressupor que o público vai se interessar por esses assuntos só porque eles são importantes.”
É do jogo!
Ao falar de sua saída da Globo, Paglia primeiro brinca, dizendo que existe uma tese de que lá a chefia soma o salário à idade e, quando o total passa de 100, você está fora. É tentador fazer os cálculos. Será que vale a mesma matemática para o William Bonner?
“É um número hipotético, claro, mas a verdade é que hoje em dia o modelo de negócios é outro, a coisa não se paga. Então, é preciso gastar menos”, diz com mais seriedade.
Avalia que a Globo passou a disputar atenção com plataformas como o YouTube em um cenário muito mais fragmentado do que no passado. Segundo ele, antes a concorrência ocorria entre veículos semelhantes, mas hoje a disputa envolve diferentes formatos e produtores de conteúdo. “Não é uma corrida de iguais. Então, isso é o grande mistério para nós, jornalistas especialmente, mas não apenas, o pessoal que produz conteúdo, ficção, novela, programas de entretenimento. Todo mundo está aí tentando entender como faz para enfrentar as outras plataformas.”
E o Bonner?
“Acho que a TV Globo não quer mais brincar disso. Alguém que comande, que seja apresentador e âncora. O âncora, no formato dos telejornais americanos, o apresentador, normalmente, é mais uma pessoa da equipe, é a cara do jornal, muitas vezes dá o tom, mas é mais membro da equipe.”
Ele acredita que o William Bonner foi uma exceção, acumulando a editoria e a apresentação num cargo que nunca mais deve se repetir.
Trincheira avançada
Enquanto a Groenlândia é considerada uma “trincheira avançada” da mudança climática global, funcionando como um termômetro precoce e um acelerador dos impactos climáticos em todo o planeta, Paglia, ao assumir a linha de frente do Roda Viva, chega ao centro da ação, uma espécie de “trincheira avançada” do jornalismo, ainda mais em pleno ano eleitoral que promete muita tensão num mundo polarizado.
Aos 66 anos, Ernesto Paglia é o jornalista mais experiente a assumir o programa Roda Viva, com a animação de foca. “Dessa vez, o pessoal ali ousou, resolveu fazer uma tentativa de dar a este velho repórter uma nova função de jovem apresentador. Ótimo! É uma injeção de ânimo sem igual”, comemora. ◼
Bloco 1 - Roda Viva: A vingança da entrevista longa
Bloco 2 - Roda Viva – ou Liberdade! Liberdade!
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*Maristela Crispim é cofundadora e diretora executiva do Instituto Eco Nordeste e atualmente é presidente da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA). É mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Trabalhou 24 anos no Diário do Nordeste, período em que conquistou quase 50 premiações de jornalismo. Fez parte do júri do Prêmio Esso e da equipe de seleção do Programa Petrobras Socioambiental. Leciona no Curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor).





