Roda Viva: A vingança da entrevista longa
À frente do Roda Viva há um mês, Ernesto Paglia revela suas expectativas e os bastidores do programa
Ernesto Paglia em entrevista online (Reprodução/ IMPRENSA)
Não havíamos determinado uma duração quando marcamos a entrevista com Ernesto Paglia, o atual apresentador do programa Roda Viva da TV Cultura. A entrevista rendeu 1h42, o que obviamente gerou um problema de edição para o mundo digital. Então, resolvemos fatiá-la em pedacinhos, como Hitchcock fazia na edição de seus filmes de suspense.
Neste primeiro ‘bloco’, Paglia conta as mudanças em curso, os desejos e sua visão do programa de entrevista mais longevo da televisão brasileira.
É preciso dizer, também, que ‘imitamos’ a polifonia do Roda Viva ao convidar jornalistas para fazerem perguntas. A participação destes jornalistas irá aparecer no decorrer dos blocos.
Assumir a bancada do prestigiado programa da TV Cultura é uma honra para poucos jornalistas. O formato do programa não tem dó: ao vivo, sem cortes, com tempo de duração que parece mais uma de partida de futebol: 90 minutos. (Às vezes, o programa é gravado por questões de agenda do entrevistado, mas é gravado ‘corrido’, como se fosse ao vivo, sem edições.)
Enfim, é um formato assustador para todos os envolvidos.
“Estou sobrevivendo”, diz Paglia, ao final do primeiro mês na nova casa. A tarefa, contudo, implica também uma programação especial no segundo semestre, para comemorar os 40 anos do programa, em pleno ano eleitoral.
Soundbite, a frase de efeito
Começaremos com a provocação ‘Tostines’ de um dos jornalistas mais premiados do Brasil, o paranaense Mauri König*, sobre o que mudou no formato das perguntas (dos jornalistas) e das respostas (dos entrevistados) ao longo das quatro das décadas de programa.
O tempo mudou. Paglia foi categórico. Nossa atenção tem sido sequestrada pelas big techs e transformada em dinheiro, monetizada e vendida nas suas frações. “O fato de não ter um limite de tempo muito explícito é um convite tentador e é talvez até um antídoto. Uma resistência a essa forma de se explorar a atenção das pessoas de maneira tão fragmentada. Acho que talvez seja uma vingança”, diz.
Para lidar com o tempo e dar o ritmo da conversa, é necessário muito treinamento. Nossa atenção está cada vez mais sendo treinada para aguentar menos, para o encurtamento da narrativa. A captura de uma atenção breve passou a ser o novo negócio. Os jornalistas treinados a irem ao ponto. Os entrevistados, com o suporte do media training, aprendendo a dominar a entrevista.
“O fato é que o mundo corporativo e o mundo político seguramente recorrem ao media training e estão muito bem treinados. Mas, pelo menos até agora, apenas um político esteve conosco, que foi o senador Alessandro Vieira, do MDB, na qualidade de relator da CPI do crime organizado. E ele, sim, mostra que é bem treinado, ele dá respostas mais concisas, mais curtas, porque esses caras, ainda mais quando recebem perguntas difíceis, percebem que quanto mais falam, mais se enrolam.”
A nossa televisão não é a televisão do soundbite de 15 segundos.
Paglia aponta que o Roda Viva tem uma situação excepcional, privilegiada até, quando a questão é sair da superficialidade. O desafio do apresentador é o de não permitir que a coisa perca o ritmo. Se o entrevistado começar a dar respostas que duram o bloco inteiro, provavelmente vai ficar chato para o telespectador.
Roda pião, gira rápido o negócio
É do jogo do Roda Viva mudar a pessoa que comanda a bancada. Nestes 40 anos, Ernesto Paglia é o décimo sexto jornalista a segurar o bastão, lembrando que Augusto Nunes e Heródoto Barbeiro tiveram dois “mandatos”. Como disse Lucio Mesquita, “você só toma conta e garante que passe para a próxima geração”.
Com uma felicidade estampada no rosto, e uma admiração até aparentemente genuína pela TV Pública brasileira, Paglia acredita que o modelo de criação da Fundação Padre Anchieta é o que garante a independência da TV Cultura, através da intermediação do Conselho Curador da Fundação, do qual participam diversas entidades. “As favas não estão contadas”, pontua.
“O Conselho é muito colorido e multifacetado. Isso garante que a TV Cultura tenha uma razoável autonomia e represente bem a sociedade. Acho isso um luxo”, diz.
Desde o seu primeiro programa, começou a imprimir sua marca, sua leveza. A intenção é deixar o programa menos formal, mais solto, sem mudar seu formato campeão.
Entre as experimentações, Paglia está satisfeito com a solução de usar a câmera que fica sobre o ombro do apresentador para fazer intervenções, como a brevíssima apresentação do convidado e as mudanças de bloco.
Como tem que rodar a cadeira para se virar para a câmera, Paglia criou um clima um pouco mais intimista, diferente de falar para aquela câmera que está lá longe. “Quando você fala para alguém que está aqui, você tem outra postura, outro tom, muda o tom, muda o sentimento ali”, explicou enquanto apontava o próprio ombro.
O convite à participação dos universitários de jornalismo, alocados no segundo andar do cenário, também foi sugestão dele, considerando a função educativa da TV pública. “Vamos ajudar a formar as futuras gerações de jornalistas. Eu tenho a esperança de que um dia um sucessor ali na bancada poderá dizer ‘eu já vim aqui como universitário e tive a honra de fazer uma pergunta ao vivo, em rede nacional’.”
Com uma bancada povoada de seis jornalistas profissionais, quatro estudantes de jornalismo e um cartunista, Paglia faz ainda questão de integrar ao time um especialista, o que não é novidade, mas que estava um pouco esquecido.
“Trazer especialista, alguém que tem outro ponto de vista, acrescenta um approach diferente. São pessoas que podem fazer perguntas de outra posição, de outro ângulo, e têm rendido. Então, com tudo isso, a gente está trabalhando e tentando oxigenar.”
Quem deixou de rodar foi o cartunista. Eduardo Baptistão agora conta com uma cadeira cativa. Entre as qualidades para a vaga estão a rápida pegada jornalística, o trabalho artístico e a agilidade do ‘ao vivo’.
“O trabalho dele é muito bem acabado e o detalhamento é um desafio para realizar em 15, 20 minutos. Mas ele está dando conta lá”, elogia.

O tal do Coliseu
“Não deve ser fácil sentar ali, não”, empatiza-se com a posição do entrevistado. Ao mesmo tempo em que o cidadão está no centro das atenções, a função dos entrevistadores é não deixar que a pessoa domine a cena.
Com um cenário comparável com a arena do Coliseu, mas um em que os leões ocupam parte da arquibancada no lugar de ficarem com as vítimas, Paglia diz que não vê necessidade de mudar os ‘leões’, mas alçar a ‘vítima’ para uma posição menos rebaixada, em sinal de respeito. “Eu gostaria de ver a cadeira central mais alta, mas não sei se isso vai ser possível. Daqui a alguns meses a gente conversa de novo.” Portanto, você soube aqui primeiro – e pedimos desculpas pelo potencial spoiler...
Convidamos o “bi maratonista do Roda Viva”, Heródoto Barbeiro** para lançar sua pergunta gravada, que mira exatamente nas dificuldades do cenário. Para quem assiste, pode parecer tudo muito simples e fácil, mas fazer a roda girar ao vivo de forma continua e sem tropeços é um esforço e tanto.
Paglia já tinha se antecipado com suas observações e ideias em relação ao formato do programa, mas o recém-chegado aproveitou a pergunta do Heródoto para dar crédito à competência do diretor de TV e da equipe técnica da TV Cultura.
“Eu acho que, para o público, tudo depende do corte. O diretor de TV pode cortar, de uma certa forma, as câmeras, mostrando de uma maneira mais intimista. Aí, sim, você está com a câmera do outro lado do estúdio, mas o zoom aproxima e o entrevistador aparece enchendo a tela da casa do telespectador.”
O cenário circular provoca um desafio extra por causa do eixo ótico. “Como é que você pode mostrar a mesma pessoa de diferentes ângulos?... Se bobear, o coitado telespectador cai da poltrona. Você não deve romper o eixo.”
Morder ou afagar, confundir para explicar
O clima de descontração e interação com os as pessoas que estão participando do programa acontece antes da transmissão, que inclui um receptivo simples envolvendo o pessoal da tv e os convidados. “Nada como um entrevistado à vontade”, diz Paglia, que ressalta que, com seu jeito “meio esculhambado”, aproveita este tempo para quebrar o gelo, conversando sobre amenidades, fazendo brincadeiras e buscando se vestir com a mesma formalidade ou informalidade do convidado.
Quarenta minutos antes do programa iniciar, tem o esquenta, com uma entrada no Jornal da Cultura ao vivo, direto do estúdio. “Eu introduzi uma ousadia, também isso não era feito nos últimos tempos; pego o entrevistado, seguro ele do meu lado e faço uma perguntinha rápida ali, se possível uma pergunta provocativa, que deixa no ar uma questão que a gente vai aprofundar na sequência, quando o programa entrar no ar.”
Se o cenário do Roda Viva dá mais garra aos ‘leões’ quando a missão é arrancar informações ou responder perguntas difíceis, ele traz o risco de intimidar pessoas mais fechadas ou que esteja já para conversar sobre temas mais leves. Paglia reconhece que é um desafio e aposta na sua capacidade de ser mais descontraído para evitar que a pessoa se feche ao se apavorar com o formato.
Além da descontração, o experiente jornalista tem outra carta na manga: o caos. No caso, o caos das coletivas.
Eu gosto muito do clima da coletiva, que às vezes é meio caótico mesmo. As pessoas se interrompem, as pessoas interrompem o entrevistado, e eu deixo os colegas à vontade para fazerem isso.
Com certeza, a possibilidade de um convidado super treinado em mídia baixar a guarda é maior num clima mais frenético e menos coreografado, com o caos podendo abrir portas para declarações reveladoras.
E, com campanha eleitoral à frente num cenário político polarizado com muitos apostando nos clips em redes sociais (dentro ou fora do contexto) para ganhar votos, a TV Cultura e os produtores do Roda Viva têm um senhor desafio para marcar os 40 anos do programa, mas o momento histórico não vai ser ignorado, como exploraremos com o Ernesto Paglia no próximo ‘bloco’. ◼
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*Mauri König é jornalista há 30 anos. Ganhou os prêmios Maria Moors Cabot Prize, Global Shining Light Award, International Press Freedom Awards, Lorenzo Natali Prize e o Prêmio de Direitos Humanos da Sociedade Interamericana de Imprensa. No Brasil, conquistou por duas vezes o Prêmio Esso regional e o Prêmio Vladimir Herzog.
** Heródoto Barbeiro é um renomado jornalista, âncora, historiador e escritor brasileiro, com mais de 50 anos de carreira. Conhecido por sua atuação em rádio e TV (CBN, TV Cultura, Record News), atualmente é âncora na Rádio Nova Brasil. É mestre em História pela USP e autor de mais de 40 livros.





