Roda Viva – ou Liberdade! Liberdade!
Para Ernesto Paglia, a autonomia editorial do programa ajuda explicar a longevidade do Roda Viva, que chega aos 40 anos em setembro ainda com impacto
Estúdio do Roda Viva no programa de 2026 e a estreia do programa em 1986 (Reprodução TV Cultura)
Neste segundo ‘bloco’ da entrevista com o Ernesto Paglia, o atual apresentador do Roda Viva da TV Cultura, achamos que seria justo focar mais no próprio programa, já que a chegada dele no comando coincide com os 40 anos de um formato pioneiro, cujas entrevistas frequentemente geram matérias e manchetes pela imprensa afora.
Aliás, a desproporcionalidade da repercussão do Roda Viva em relação aos seus níveis de audiência é, para Paglia, uma prova da qualidade do programa e “mil vezes mais importante do que qualquer medição de audiência poderia sugerir”.
E o fenômeno continua mesmo em tempos de fragmentação de audiências devido à explosão de canais e plataformas que a primeira equipe do Roda Viva não poderia nem imaginar que um dia existiriam. Para Paglia, “os tempos mudaram, mas a audiência da TV Cultura permaneceu”. Assim como permaneceram os elementos centrais do Roda Viva, que também resistiram – e bem – ao tempo.
O programa estreou em setembro de 1986, durante o governo José Sarney, quando o Brasil ainda dava seus primeiros passos, às vezes nervosos, em direção a um retorno à democracia plena.
Como Paglia faz questão de ressaltar, o programa surgiu apenas 11 anos depois do então diretor de jornalismo da própria TV Cultura, Vladimir Herzog, ter sido “morto nos porões da ditadura, literalmente, em São Paulo”.
Havia, acho, um tatear para entender qual era o papel da imprensa livre, uma imprensa sem amarras da censura, sem as ameaças da repressão, da ditadura militar.
Por isso mesmo, não é de estranhar que o primeiro programa, ancorado por Rodolfo Gamberini, teve como entrevistado Paulo Brossard, jurista e político gaúcho que, na época, servia como Ministro da Justiça do governo Sarney.
E o que impressiona é como o programa resistiu ao tempo. Sim, muita coisa mudou – o programa encurtou em meia hora, o número de entrevistadores foi enxugado (e sensatamente – na primeira edição, eram mais de 20!), a interação com a audiência era feita apenas através de três telefonistas, o número de mulheres entre os entrevistadores era desproporcionalmente menor do que o de homens e o estúdio tinha até cinzeiro, com pelo menos dois participantes fumando ao longo do programa. Vale conferir no canal do Roda Viva no youtube, hoje com quase dois milhões de seguidores.
Mas, essencialmente, o conceito continua o mesmo: um convidado é posto no centro de um cenário em formato de arena, cercado por entrevistadores (agora também com a presença de estudantes de jornalismo), todos sob a batuta de um condutor – os 16 apresentadores que se sucederam da estreia até hoje.
A presença de um cartunista veio logo depois, em 1987, através do Paulo Caruso, que continuou refletindo as entrevistas na forma de ilustrações até a sua morte em 2023.
Aliás, uma das novidades do formato sob Ernesto Paglia é que, no lugar de manter a rotatividade de artistas desde o falecimento de Caruso, o bastão passou permanentemente para o Eduardo Baptistão, cujo trabalho também aparece no Estadão e em outras publicações.
Liberdade, Liberdade
Para Paglia, um dos principais motivos para o sucesso de quatro décadas do Roda Viva é a liberdade que tem. E uma liberdade dupla.
Primeiro, por ser um produto da TV Cultura, sob a Fundação Padre Anchieta, que foi criada nos moldes de emissoras públicas europeias, ou seja, essencialmente mantida via recursos públicos, mas controlada por um conselho com representantes da sociedade, além do governo de estado, claro.
E na primeira intervenção deste ‘bloco’ de um de nossos convidados, as diferenças entre a TV pública e a comercial são o foco da pergunta de Eugênio Bucci*, jornalista, professor da ECA e um dos membros do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, agora que Ernesto Paglia inclui experiência nas duas.
Paglia começa a responder se divertindo um pouco, lembrando que Bucci “é meu patrão...”, mas aproveitando para ressaltar as vantagens do modelo: “ele manda e não manda”. “Acho muito bem bolada essa estrutura que faz com que a TV Cultura não seja um mero braço do Palácio dos Bandeirantes”.
E ele se aprofunda mais na explicação: “Na TV pública existe muito mais espaço do que na TV comercial. É menos engessado, é menos controlado. Óbvio, todo veículo de comunicação tem uma linha editorial, tem uma filosofia, atende a determinados interesses e diretrizes. Isso todo mundo tem. A BBC tem. PBS tem, todo mundo tem”.
Para Paglia, esta liberdade e maior flexibilidade não estão presentes em outros canais, como a Globo, onde trabalhou por várias décadas. “Claro, ninguém vai fazer propaganda no Roda Viva, mas se tiver que falar uma marca ali, está tudo certo. Na TV Globo, nem pensar. Na TV Globo, editaria, cortaria e tal. A TV Globo já não tem programa de entrevista ao vivo. Então, a TV Globo gosta de ter controle sobre tudo aquilo que põe no ar. Dá para entender – há muitos interesses envolvidos.”
Mas a outra liberdade ressaltada por Paglia – e diretamente relacionada com as amarras de outros meios de comunicação – é a dos entrevistadores.
“O sujeito senta ali e, com muita frequência, está mais livre no Roda Viva do que no veículo onde trabalha”, porque não têm que seguir pauta ou fazerem perguntas pré-determinadas pelos veículos ou pelo próprio Roda Viva – uma vantagem para os participantes mas, também, garantia de uma maior pluralidade no ar.
Para Paglia, a liberdade dada por uma emissora pública e a liberdade dada aos entrevistadores formam a base da função do Roda Viva: “Bom jornalismo, sem filtro, com jornalistas convidados que não ganham um tostão furado para estar ali. Estão ali por vontade própria, porque respeitam o programa, porque gostam, porque curtem a liberdade que lhes é dada. Eles perguntam rigorosamente o que lhes vem à cabeça. Ninguém combina coisa nenhuma”.
10ª. Eleição Presidencial
Ainda bem que Ernesto Paglia não deu sinais de que queria um começo tranquilo, já que a liberdade e a capacidade de gerar impacto do Roda Viva são testadas com ainda mais vigor em ano eleitoral. A décima eleição presidencial desde a criação do programa – e deve ser ainda mais testada agora, num ano de eleições que ocorrem num momento delicado e confuso no Brasil e no mundo.
Daí não surpreender que a pergunta do Fernando Mitre* – ex-diretor nacional de jornalismo da Bandeirantes e pioneiro dos debates presidenciais no Brasil – tenha sido sobre a cobertura das eleições, querendo saber como Paglia vê o desafio de cobrir os programas e projetos políticos e não apenas os confrontos gerados para alimentar a polarização.
Para Paglia, o Roda Viva “tem o antídoto para esses desafios embutido no seu DNA”, com a vantagem de, em anos eleitorais, poder entrevistar individualmente os principais candidatos e sem edições (mesmo quando têm que ser gravadas por questões de agenda dos convidados, as edições do Roda Viva sempre vão ao ar como se fossem ao vivo, sem edições internas).
Na realidade, ele vê com mais preocupação outros formatos na televisão, inclusive os debates. E, no mesmo estilo mais irreverente que quer dar à condução do programa, mas lembrando que também tem quatro décadas de experiência nas costas, arremata: “Acho que o Roda Viva está muito bem posicionado nesse sentido e eu me sinto à vontade. É óbvio que uma hora e meia ao vivo é mais ou menos uma hora e meia a mais de tempo para falar bobagem, de risco, de fazer algo errado. Mas está aí o desafio, vamos lá...”.
Durante a entrevista, Ernesto Paglia fez questão de ressaltar a qualidade e o profissionalismo da equipe responsável pelo Roda Viva, especialmente quando se levam em conta a complexidade de ter vários participantes, o formato circular do cenário e os riscos editoriais, claro.
Para Ernesto Paglia, o programa “foi uma semente muito bem cultivada e, hoje, temos uma árvore frondosa que é o Roda Viva”.
Que o mais novo ‘jardineiro-chefe’ do Roda Viva ajude a manter essa árvore para que ela continue a gerar o oxigênio que tanto ajuda a limpar o poluído ar da desinformação no Brasil.
No próximo ‘bloco’, daremos foco à carreira de Ernesto Paglia, do jornalismo diário na Rede Globo a documentários e, agora, apresentador do Roda Viva da TV Cultura. ◼
Bloco 1 - Roda Viva: A vingança da entrevista longa
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*Eugênio Bucci é jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Escreveu para diversas publicações, incluindo a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo e o Jornal do Brasil, e foi diretor de revistas como Superinteressante e Quatro Rodas, da Editora Abril. Foi presidente da Radiobrás de 2003 a 2007, num período de modernização e reposicionamento da então estatal federal de comunicação. Eugênio também é membro do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta e do Conselho Deliberativo do Instituto Vladimir Herzog.
*Fernando Mitre é jornalista com passagem por jornais em Minas e São Paulo, sendo membro da equipe que criou o Jornal da Tarde, do Grupo O Estado de S. Paulo. Nele, assumiu diversas posições até chegar ao cargo de Diretor de Redação do jornal. Mitre foi para a Rede Bandeirantes em 1989, onde comandou a produção do primeiro debate presidencial da televisão brasileira e, ao longo da carreira, acumulou a produção de mais de 30 debates eleitorais. Ele continua a contribuir com a Bandeirantes, mas deixou a posição de diretor nacional de jornalismo do grupo no final de 2025.





