Carlos Nascimento revela: "Quando vi a Globo estagnada, resolvi sair".

Carlos Nascimento revela: "Quando vi a Globo estagnada, resolvi sair".

Atualizado em 28/07/2005 às 19:07, por Thaís Naldoni - thaisnaldoni@portalimprensa.com.br.

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No final dos anos 60, um garoto de 13 anos começou a flertar com a comunicação, em sua cidade natal - Dois Córregos, interior de São Paulo - como sonoplasta da Rádio Cultura local. Quase ao mesmo tempo, o jornal O Democrático, também começava a publicar em suas páginas os primeiros textos de quem seria, anos mais tarde, um dos mais conhecidos nomes do jornalismo Brasileiro: Carlos Nascimento.
Hoje, após passagens pela TV Cultura, TV Record e mais de vinte anos de TV Globo, Nascimento é editor-chefe e apresentador do "Jornal da Band". Nesta entrevista para IMPRENSA, o jornalista fala sobre a crise política, a saída de Ana Paula Padrão da TV Globo, além de analisar os caminhos percorridos pela mídia e pela televisão brasileira. Acompanhe.

IMPRENSA - A saída da Ana Paula Padrão da Globo foi meio traumática, cheia de episódios polêmicos. A sua também foi assim ou aconteceu de forma tranqüila?
Nascimento -
A minha saída foi muito diferente. Meu contrato venceu, eu avisei que talvez não renovasse, eles fizeram algumas sugestões de coisas que eu poderia fazer, mas eu não via mais futuro lá, não via mais para onde ir.
O mais importante na nossa profissão é o desafio, é quando você sente que pode avançar, fazer coisas boas e diferentes. Na Globo senti que tinha chegado a hora. Durante muitos anos, o que me manteve na TV Globo foi a possibilidade de fazer coisas novas, de avançar, de mudar, de melhorar. Quando eu vi que havia se estagnado, não só eu, mas toda a empresa, todo o jornalismo, eu resolvi sair. Já com a Ana Paula, o caso foi outro. O contrato me parece que ainda estava em vigor, mas comigo foi tudo diferente.

IMPRENSA - Portas abertas ainda entre você e a emissora?
Nascimento -
A minha porta está. A da Globo eu não sei.


Carlos Nascimento em especial sobre o Japão - 1984

IMPRENSA - Há muitas diferenças em se trabalhar na Globo e na Band?
Nascimento -
Claro que tem diferença entre a Globo e a Band, mas não é só entre a Globo e a Band. É entre a Globo e todas. A Globo é a emissora líder, tem mais equipes, mais dinheiro, mais recursos, tem mais tudo. Mas isso não quer dizer que o trabalho que fazemos aqui seja inferior ao da Globo. Nós trabalhamos em condições muito mais difíceis, com menos gente, mas trabalhamos.
Recebo cerca de 20 e-mails por dia, às vezes mais, comparando nosso jornal com o "Jornal Nacional". O público, é claro, sente falta de algumas coisas porque nós não temos a amplitude da Globo, mas 90% destes e-mails são de cumprimentos, dizendo que nós fazemos bem o nosso papel.Quanto à popularidade, desde que eu saí da Rede Globo, embora tenha ficado muitos anos lá, já no dia seguinte as pessoas começaram a me associar com a Band.

IMPRENSA - Muitos políticos têm criticado a imprensa pela cobertura da crise. Os petistas falam em "linchamento". O que você acha disso? Acredita a mídia tem exagerado?
Nascimento -
Não acho houve exagero. O tratamento até aqui está corretíssimo. O governo é que está devendo explicações para a mídia e para a opinião pública, haja visto o que aconteceu nesta viagem do presidente a Paris. Estavam lá os melhores correspondentes da imprensa brasileira e o presidente preferiu dar entrevista para uma pessoa desconhecida. Não diminuindo a importância e o valor do trabalho desta jornalista, pelo contrário. Quem não é famoso tem tanto valor e capacidade quanto às estrelas da profissão e isso eu não contesto. Mas é estranho. Num lugar onde você tinha Reali Jr., Mário Sérgio Conti, Caco Barcellos e tantos outros jornalistas, é estranho que o presidente tenha evitado todos eles.


Carlos Nascimento entrevista Antônio Brito - 1985

IMPRENSA - Existe muita especulação e teses sobre esta entrevista...
Nascimento -
Causou estranheza pelo seguinte: o "Jornal da Band" tinha em Paris o seu correspondente Mário Sérgio Conti, um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro - que chegou a ser diretor da Veja. Ele pediu a entrevista e não foi atendido. De repente, o presidente vai, dá uma entrevista a uma pessoa estranha e que vai parar na TV Globo. De repente, poderia ter sido em outra emissora, mas foi na Globo. Não sei se estava combinado, mas isso não vem ao caso. O que eu quero dizer é o seguinte: o presidente da República não deveria ter feito isso. Deveria ter falado a todos.

IMPRENSA - Qual a importância do papel da mídia em todo este processo?
Nascimento -
A mídia é fundamental. Toda essa história começou com a Veja, com história do Roberto Jefferson, dos Correios e daquele Maurício Marinho. A partir daí, o que mais se viu, foram tentativas de desmentir, tentativas de abafar, de dizer que não, que não era nada disso, que ninguém sabia. E própria mídia teve que investigar para dar continuidade às denúncias. Então, o papel da mídia foi fundamental. Mais uma vez, a mídia esteve e está do lado do país.
Todo mundo disse que a mídia estava dando espaço e voz para o Roberto Jefferson e que as denúncias não têm provas, que tudo era fanfarronice dele. Mas, meu Deus! Já caiu um partido inteiro e praticamente um Ministério inteiro. A mídia arriscou-se a fazer isso, mas ela foi atrás, não só repetiu as palavras do Roberto Jefferson. Cada jornal, cada televisão e cada rádio foram investigar e tudo o que saiu, que gerou esta crise, é fruto da investigação da mídia, aliás, como sempre.


Carlos Nascimento no Jornal da Cultura - 1988

IMPRENSA - Tem havido uma comparação sistemática desta crise pela qual o país está passando, com a do governo Collor...
Nascimento -
É muito parecido. Dizem que o presidente Lula é diferente do presidente Collor. É verdade. A história política dos dois é diferente. Mas a diferença não passa disso. Mas, se houver envolvimento direto do governo e do presidente, não há diferença nenhuma. E a responsabilidade do presidente Lula é a mesma que foi atribuída ao Collor.

IMPRENSA - Você se surpreendeu com as denúncias de corrupção dentro do governo Lula, ao contrário do esperado pela grande maioria dos brasileiros, que tinha esperança de que ele fosse diferente dos demais?
Nascimento -
Eu nunca tive grandes expectativas em relação a políticos, fossem eles quem fossem. Como brasileiro, eu sempre quis que a história do presidente Lula continuasse de uma maneira feliz. Eu vi o Lula começar. Fui um dos primeiros da Globo a entrevista-lo. Me lembro que foi em 77, em São Bernardo, quando ele foi reeleito para a Presidência do Sindicato. Era um domingo e ele ia tomar posse. Fui lá fazer uma entrevista. Era filme preto e branco ainda. Ninguém nem sabia quem era o Lula.
Depois, fui às assembléias, cobri as greves. Estava lá no dia em que foi decretada a intervenção no Sindicato. Fui junto com o Lula para o DOPS quando ele foi preso, acompanhando com o carro atrás. Ou seja: acompanhei a vida dele. Como brasileiro e como jornalista eu sempre torci para que desse certo. Só que uma coisa é a história política, a figura do candidato e do homem. Outra coisa é depois que ele chega ao poder. Muitos fatores entram em cena depois do poder. No caso do Lula, me parece que, desde o início, o erro foi querer fazer, através do PT, um país diferente daquele que o Brasil é. Algumas pessoas do PT acharam que o partido era mais importante que o governo, mais importante do que o Brasil, do que os brasileiros e começaram a querer que o Brasil se moldasse ao jeito delas. E deu no que deu.

IMPRENSA - Você acha que vai emplacar a versão de crime eleitoral?
Nascimento -
Eu acho muito difícil. O PT adotou essa estratégia tentando desmerecer a inteligência dos brasileiros, tentando simplificar as coisas como se tudo não passasse de um acidente. Infelizmente, eles não se convenceram ainda de que é impossível provar alguma coisa dessa forma. Já há denúncias formais de que contratos de publicidade do Valério, com empresas estatais, foram usados como aval para os empréstimos bancários. Então, isso mostra que há um envolvimento direto do governo, de empresas do governo, do bem público, dinheiro do contribuinte. Porque isso é uma troca, tudo indica que é uma troca.
O dinheiro entrava na agência do publicitário via empresas estatais e saía como empréstimo para o PT. Isso não era crime eleitoral apenas, é muito mais que isso. Eu acho que é zombar da inteligência média do brasileiro pretender que a gente acredite nessa história. E outra: uma história permeada de fatos bizarros, como a do dinheiro que aparece na cueca do sujeito. E quem era aquele sujeito? Era assessor do irmão do Genoino, que era presidente do PT. Ou seja, existe uma coincidência de fatos infelizes para o PT, que tornaram pouco críveis quaisquer versões amenas do quem vem acontecendo.


Carlos Nascimento no programa "SP Já" 1990

IMPRENSA - Como o "Jornal da Band" tem feito a cobertura dessa crise política?
Nascimento -
O "Jornal da Band" desde o primeiro dia vem dando as notícias todas com absoluta independência. Nós temos limitações quanto ao número de repórteres e de equipes, mas todas as que estão disponíveis estão sendo empregadas nisso. A sucursal de Brasília tem trabalhado muito bem. Nós temos, em determinados momentos, dado também nossos furos, antecipado informações. O Fábio Pannunzio tem feito um bom trabalho, o Eduardo Castro, a Letícia Renault, a Marina Franceschini, a Patrícia Zorzan, mais o pessoal de São Paulo, a gente tem feito bem e conseguido excelentes audiências.
Neste último mês, o bloco do "Jornal de Band" que deu recorde de audiência foi o bloco de política, com nove pontos.

IMPRENSA - A contratação da Ana Paula Padrão pelo SBT, na sua opinião, acabou movimentado o mercado jornalístico, motivando as empresas a investirem?
Nascimento -
Eu acho que o jornalismo brasileiro, seja em que nível for, precisa de investimento, não importa se rádio, revista, televisão ou jornal. Esse é o ponto. Nós já tivemos as empresas de mídia investindo muito mais e já tivemos muito mais profissionais no trato do jornalismo.
Isso mudou nos últimos anos, porque a administração dessas empresas deixou de ser feita na área jornalística por jornalistas ou gente oriunda de redações. Veio muita gente de fora, de outras empresas, de outros negócios e isso acabou gerando uma necessidade de fazer economia - que é o que sempre se ouve - cortar custos e mudar o jeito de fazer. E isso colidiu com a maneira tradicional de se administrar, que é investindo.
Os empresários da mídia têm que por na cabeça que jornalismo é bom, dá retorno, dá prestígio, mas é preciso investimento. Tem que ter bons funcionários, pagos com dignidade, condições de trabalho, poder viajar, fazer as reportagens. Isso é que eu sinto ser o grande impasse atualmente.

IMPRENSA - Hoje se fala muito na má qualidade da programação da TV aberta. O deputado Fantazzini criou, inclusive, o ranking da baixaria. Como você analisa isso? Você assiste TV aberta?
Nascimento -
Muito pouco. Na verdade tenho visto só telejornal e alguma coisa de programas. O que eu sinto é que a televisão brasileira teve uma história até a Globo, que era a história da Tupi, da Excelsior e da própria Bandeirantes. Depois veio a TV Globo, que imprimiu um modelo de TV no Brasil. Isso é mérito de duas pessoas: Walter Clark e o Boni, que bolaram um jeito de fazer uma televisão vitoriosa e que se encaixou muito bem em determinado período da história e da economia brasileira.
Esse período acabou, acho eu que por volta de 90, quando nós voltamos a ter eleições diretas, quando tivemos a abertura da economia, ou seja, o país mudou, mais pela economia do que pela política. E a televisão não conseguiu acompanhar. Não construiu um novo modelo para o país que surgiu ali e que hoje está cada vez mais distante da nossa televisão.
Essa fase de violência, de programas policialescos, que retratam o "mundo cão", é fruto de um momento de falta de criatividade, de indecisão e de falta de um caminho, que o Walter Clark e o Boni, lá atrás enxergaram, porém eles não tiveram sucessores. Estamos patinando e perseguindo isso já há algum tempo.


Carlos Nascimento em entrevista com FHC - 2001

IMPRENSA - Dentre tantas coberturas feitas por você, existe aquela que ficou marcada efetivamente?
Nascimento -
Eu nunca me preocupei em me celebrizar por nada do que eu tenha feito. Cobri três Copas do Mundo, a queda das torres gêmeas em transmissão ao vivo, cobri a morte e doença do Tancredo Neves, que até hoje as pessoas falam disso e eu odeio essa história porque já faz mais de 20 anos. Cobri o impeachment do Collor, cobri até Colégio Eleitoral. Fui também correspondente na Espanha por um ano e, de certa forma, ajudei a cobrir a Guerra das Malvinas naquela época. Fiz muita coisa, mas nada muito espetacular. Ganhei vários prêmios também.
Na verdade, sempre procurei não decepcionar o telespectador. Sempre tive na cabeça que nós que fazemos telejornalismo, trabalhamos para o público, nosso compromisso é com quem nos assiste. Então, fazer um jornal ou matéria que agrade o telespectador, para mim basta.

IMPRENSA - Você se identifica com alguma editoria específica?
Nascimento -
Sempre fui repórter geral, durante dez anos, depois trabalhei como editor de jornais locais em São Paulo. Depois, fiz um período muito bom no "Bom Dia Brasil" cuidando de economia. Inclusive, acho que o que eu mais gosto é economia. Eu nunca fui um jornalista econômico, mas é uma área de me atrai bastante. Eu escrevo sobre economia, faço comentários na rádio sobre economia e até fiquei contente porque circulou um anuário de jornalistas de economia e meu nome estava incluído lá. Achei bastante honroso. Hoje, se eu tivesse que voltar a estudar, eu gostaria de entender mais de economia.

IMPRENSA - Você acha que falta profundidade na cobertura do jornalismo impresso no Brasil?
Nascimento -
É muito ruim ficar comparando mídias. Todas elas são boas e todas elas são ruins, dependendo do trabalho que fazem naquele dia, naquela hora e diante daquele tema. Têm excelentes coberturas no rádio, que são inatingíveis pelos jornais e até pela própria televisão. Tem coberturas em que a televisão é insuperável, que os jornais do dia seguinte têm gosto de coisa velha e há coberturas que são da mídia impressa.
Por exemplo, a cobertura desta crise que estamos, não que a televisão não esteja fazendo seu papel, porque está, mas a mídia impressa tem tido mais gás para cobrir. Talvez porque tenha mais gente, possa se dar mais ao trabalho de investigação. Por isso é que acho que não melhor ou pior. Cada um tem o seu papel.


Carlos Nascimento na Copa do Mundo de 94

IMPRENSA - Você concorda com o tão falado conceito de cross media?
Nascimento -
Se tem uma coisa que eu não acredito, que acho um erro grave hoje das empresas de mídia, que é o cross media, ou seja, você querer fazer todas as mídias, com os mesmos profissionais e tudo ao mesmo tempo. Isso é uma bobagem, isso não existe. Porque há coberturas que são do rádio e só do rádio, como um jogo de futebol. Um incêndio ao vivo, só o rádio pode transmitir o calor da hora, você podendo acompanhar tudo do seu carro.
Já a cobertura da morte do Papa, tem que ser pela televisão, que está lá transmitindo a missa e toda a comoção. Cada veículo trata bem de determinados temas, que não necessariamente são bem tratados pelo outro. Por isso essa história de cross media, para mim, é conversa mole.

IMPRENSA - Você acha que os jornalistas têm que revelar suas fontes?
Nascimento -
É claro que não. O jornalista não tem a obrigação de revelar a fonte e não deve revelar a fontes, desde que a notícia seja verdadeira. Desde que o jornalista tenha checado aquela informação e tenha certeza do que ele escreveu e falou. O que eu não posso é dizer que não vou revelar minha fonte e publicar uma falsidade. Isso é uma irresponsabilidade.
O segredo de fonte não pode ser usado como desculpa, ter que servir como amparo, como base para a sustentação do jornalismo. Mesmo que tenhamos muita informação sem prova documental, eu sempre defendi que tudo o que a gente escreva, a gente possa provar.
Fui processado uma única vez, por um estelionatário. O que ele não sabia é que eu estava colecionando as provas de tudo o que eu dizia. Tanto que eu mesmo é que fiz minha defesa e entreguei pronta para o advogado.

IMPRENSA - Em tempos em que a indústria do dano moral está muito em evidência, você acredita que o jornalista se sente temeroso por fazer uma denúncia, por exemplo?
Nascimento -
Dano moral o jornalista não pode causar. Tendo um fato jornalístico relevante, com provas e argumentos, você não pode se intimidar, senão você não é jornalista. Com provas e argumentos, você não causa dano moral, você faz uma denúncia.