Carente de incentivos, circo pede socorro / Por Diego Sierra - UNIP (SP)

Carente de incentivos, circo pede socorro / Por Diego Sierra - UNIP (SP)

Atualizado em 23/08/2005 às 10:08, por Diego Sierra e  estudante de jornalismo da UNIP campus Anchieta (São Paulo/SP).

Por O picadeiro está armado e todos ocupam seus lugares. As crianças estão ansiosas à espera do começo do espetáculo. A cada número, o público vibra, bate palmas e dá risada. É o circo, uma das formas de entretenimento mais tradicionais, mas que já não reúne tantos espectadores como antigamente.

A origem da arte circense remonta às antigas civilizações. Há registros de malabaristas, contorcionistas e equilibristas nos espetáculos sagrados e na cultura milenar da China e da Índia. No Antigo Egito, animais ferozes eram exibidos em desfiles públicos como símbolo da conquista de outras terras. Na Grécia, as artes circenses eram modalidades olímpicas e os sátiros faziam as pessoas rirem nos seus espetáculos. As arenas romanas também apresentavam shows exóticos e extraordinários.

No Brasil, eles chegaram por intermédio dos ciganos, por volta do século XIX. Estima-se que existam 2 mil circos no país, 80 de grande e médio porte. Entre os principais problemas enfrentados, estão o custo alto de manutenção, a falta de terrenos e incentivos das autoridades e a ausência do público. Para salvar a tradição circense, muitos artistas têm se mobilizado. Em 2004 foram criadas duas associações: a Abracirco (Associação Brasileira do Circo) e a Ascafi (Associação de Famílias e Artistas Circenses).

A Funarte (Fundação Nacional de Arte), ligada ao Ministério da Cultura, é o órgão oficial responsável por cuidar dos circos no país. A instituição, em parceria com a Abracirco, propôs neste ano uma série de medidas junto ao governo federal para incentivar e regulamentar a atividade circense. Uma das propostas prevê a criação de um RG para os animais de circo. Segundo a assessora da Coordenação de Circo, Alessandra Brantes, a regra permititirá um controle efetivo sobre as condições desses animais, com a ajuda do Ibama. Ela minimiza a polêmica em torno do tema. "Tudo vem em função do circo ser legal ou ilegal. Foi criado um tumulto naquele caso em 2000, diz, referindo-se a uma criança de seis anos que morreu após ser atacada por um leão durante um espetáculo em Recife. A capital pernambucana foi uma das primeiras a proibir animais nas apresentações. A restrição se estendeu a outros locais, como o estado do Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Para este ano, a Funarte possui uma verba de R$ 2 milhões - o dobro do ano passado - para contemplar projetos de incentivo, pesquisa e educação na área. Mas o maior plano do órgão ainda não possui previsão de início: é um mapeamento nacional de circos e famílias circenses. Brantes explica que a idéia é ter uma noção geral das necessidades do setor, para formular políticas mais consistentes, e juntar artistas sem trabalho com circos que possuam demanda de profissionais.

A velha guarda - Com 58 anos de vida, todos no circo, o colombiano de alma brasileira Armando Klenque critica a distribuição de verbas públicas no setor. Diretor artístico do Circo Estatal de Cuba, Pucci, como é conhecido no meio, critica as escolas de circo que recebem recursos estatais. "Eles só pensam no dinheiro, não em arte, e o governo ajuda esses caras", diz. Segundo ele, as autoridades estão promovendo um "incentivo de colarinho branco", pois essas instituições utilizam profissionais de educação física para ensinar as artes circenses a grupos grandes, de uma forma generalizada. Para Pucci, os jovens talentos deveriam receber atenção individual.

Pucci já fez de tudo no circo e viajou por diversos países. Desde que sofreu um grave acidente que o deixou 12 anos em uma cadeira de rodas, se dedica apenas às mágicas e ao ensino das técnicas. Uma de suas preocupações é a quebra das antigas tradições, com artistas que não nasceram em famílias do meio conquistando cada vez mais espaço. Ele mesmo representa a quinta geração da sua família no circo e adora o que faz: "É a arte mais pura que existe, não tem violência, o cara domina o corpo e faz coisas que mais ninguém consegue".

Há um consenso de que falta colaboração das prefeituras para a obtenção de terrenos e incentivos fiscais para os circos. Mas o jovem Junior Torres, 22 anos, que se apresenta no globo da morte desde o 14, enxerga uma outra alternativa. Ele acredita nos investimentos em mídia para trazer as pessoas de volta às apresentações. "Toda essa transformação, a internet, os shoppings, o cinema... afastam o público", explica. Ele dá o exemplo do empresário Beto Carrero, que obtém sucesso nos seus empreendimentos colocando suas principais atrações nos programas de televisão. Os artistas mais antigos, como Pucci, falam que o circo vai acabar. "Meu pai diz que há 20 anos falavam a mesma coisa", diz Torres, otimista.