Capa - O homem do telejornal

Capa - O homem do telejornal

Atualizado em 04/09/2009 às 18:09, por Karina Padial e Luiz Gustavo Pacete/Redação Revista IMPRENSA.

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O "Jornal Nacional" aderiu à ideia de que a vida recomeça aos 40 anos. Para comemorar, mudou a bancada, colocou um novo telão para vinhetas, trocou o globo tridimensional do cenário e trouxe alguns apetrechos tecnológicos.

Apesar da roupagem "moderninha" ele tem, no fundo, o mesmo espírito familiar do telejornal nascido em 1º de setembro de 1969. Este foi o ponto em comum destacado tanto pelo antigo (e primeiro) apresentador, Cid Moreira, como pelo atual, William Bonner, que também faz as vezes de editor-chefe do JN.

Ambos fontes da matéria de capa da edição 249 da revista IMPRENSA (setembro/2009), reforçaram a enorme influência que o telejornal representa e representou dentro no cotidiano de diversas gerações de brasileiros, criando um mito televisivo que faz milhões de pessoas responderem ao "boa noite" que, risonho e confidente, é dito há 40 anos do outro lado da bancada.

Na edição impressa de IMPRENSA, além da entrevista de Moreira e Bonner, há exemplos do trabalho diário com as afiliadas, uma análise sobre a influência que o formato trouxe aos outros telejornais de TV aberta, uma pesquisa exclusiva sobre a repercussão que o "JN" e seus concorrentes geraram na mídia impressa em 2009 e textos inéditos de Eugênio Bucci e Laurindo Leal Filho, respectivamente a favor e contra o famoso telejornal, além de depoimentos de jornalistas como Gabriel Priolli e Luiz Gonzaga Mineiro.

Confira abaixo, na íntegra, a entrevista que Bonner concedeu à IMPRENSA:

REVISTA IMPRENSA - Em que circunstâncias você assumiu o "Jornal Nacional"? Em que ano isso aconteceu?

William Bonner
- Em 1999, logo depois do trigésimo aniversário do "Jornal Nacional", o então diretor da Central Globo de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, nomeou o jornalista Mário Marona para chefiar o jornalismo da TV Globo em Brasília. E me pediu que ocupasse a chefia do JN interinamente, até que outro jornalista assumisse o cargo. Acabei sendo efetivado algumas semanas depois, em meados de outubro.

IMPRENSA -Nessa época, quais mudanças implantou no telejornal?

WB -
O JN não é um produto subordinado a preferências pessoais de editores. Mudanças não são promovidas de forma autocrática. As modificações que introduzimos paulatinamente no JN foram sempre discutidas com a direção do Jornalismo da Globo. Houve algumas poucas modificações que eu poderia lembrar, de ordem técnica. Notas curtas foram pulverizadas ao longo do jornal em momentos em que o contexto lhes era mais adequado, em vez de serem agrupadas numa única edição em sequência. Assim, além de desobrigar os apresentadores a interromper seu trabalho editorial, na redação do JN, para gravar textos (que passaram a ser lidos ao vivo), essas notas alteraram o ritmo da apresentação do noticiário. E permitiram que o espectador recebesse informações dentro de seus contextos. Isso costuma ajudar a compreensão daquilo que é publicado. Séries especiais de reportagens sobre temas complexos já existiam no JN, mas tornaram-se mais frequentes. Houve também as entrevistas nas bancadas, com personalidades que são notícia, e especialmente com os candidatos a presidente, em 2002. O JN foi o primeiro a adotá-las. A cobertura político-eleitoral se intensificou. Tudo isso, como eu disse antes, em decisões conjuntas.

IMPRENSA - O JN mantém, depois de 40 anos, muito de seu formato original. É, talvez, o único programa que está no ar há tanto tempo sem que seu formato tivesse sido alterado consideravelmente. A que se deve isso?

WB - Discordo. O JN, em 2009, é muito diferente daquele feito em 1969. A começar pela linguagem. Nosso texto, hoje, é muito mais próximo do falar das pessoas do que há 40 anos, quando respeitava um formato mais parecido com o texto dos noticiários de rádio. O JN utiliza participações "ao vivo" de seus repórteres de forma muito mais frequente - e essas participações são, hoje, muito mais uma conversa entre os jornalistas sobre as notícias. Temos também, como disse, entrevistas ao vivo, feitas pelos apresentadores. E fazemos o mesmo quando o entrevistado está em outra cidade, outro país. Além disso, o JN deixa o estúdio para ser apresentado de perto de onde se deram os fatos. Não apenas em tragédias como as mortes na chuva de Blumenau, por exemplo, como a eleição presidencial americana, a morte do Papa, as Copas do Mundo. Visualmente, o formato do JN mudou muitíssimo, também. Deixamos o estúdio asséptico e montamos o cenário do "Jornal Nacional" no ambiente da redação. Uma tendência que a concorrência tenta imitar de forma constrangedora.

IMPRENSA - Quais as características do JN que, ao longo desses anos sob o seu comando, você fez questão de manter?

WB - Não se trata de "fazer questão" de manter. Trata-se de entender que ninguém é mais importante do que o próprio JN. Ele é um patrimônio dos cidadãos brasileiros. É no "Jornal Nacional" que as pessoas buscam informação sempre que algo grandioso acontece. Os números de audiência atestam isso. E o hábito brasileiro de buscar informações no JN deve-se ao fato de as pessoas saberem que podem confiar no nosso trabalho. O compromisso assumido por todos nós é o de mostrar aquilo que de mais importante aconteceu no dia com isenção, correção, pluralidade e clareza. Nosso esforço diário é esse, em respeito ao público e ao nosso compromisso com ele. E esse compromisso nós herdamos de todos os profissionais que nos antecederam nos cargos. Foram muitos, em quarenta anos.

IMPRENSA - Existe hoje, uma grande discussão sobre o perfil do telespectador brasileiro. Na sua opinião, ele realmente mudou?

WB -
Não vejo propriamente uma mudança de perfil específica do público telespectador. Há, sim, transformações na sociedade brasileira - e isso é muito bom. Porque, nessas quatro décadas, as taxas de analfabetismo diminuíram, o tempo médio de permanência na escola aumentou, a democracia brasileira renasceu e se consolidou, a nossa economia venceu um desafio que gerações de brasileiros talvez nem acreditassem que um dia seria possível vencer. Somos, hoje, um país com muitos problemas para resolver. A educação ainda é falha, a saúde pública idem, o saneamento básico, a segurança pública. Mas somos um país muito melhor do que o Brasil de 1969 em praticamente todos os quesitos. Assim, não há como imaginar que as pessoas não se modificassem, ao sabor de tanta mudança. Mas isso não é um fenômeno de telespectadores. É um fenômeno de cidadãos.

IMPRENSA - Você percebe haver um declínio - mesmo que sutil - na relevância do veículo televisivo como fonte de informação e entretenimento?

WB - Existe, hoje, uma oferta muito maior de informação do que há 40 anos, mas fundamentalmente por conta da internet. Porque os jornais eram muito fortes, assim como as rádios. Naquela época, a televisão não estava presente em todos os domicílios do Brasil. Só para citar um dado, em 1989, vinte anos atrás, segundo o IBGE, apenas cerca de 70% dos domicílios tinham TV. Há quarenta anos, a penetração era ainda menor, embora não haja dados. Hoje, esse número chega 95%. Portanto, a televisão era forte, mas não tinha a penetração que tem hoje e sofria a concorrência de rádio e jornais. Hoje, a televisão tem penetração enorme e sofre a concorrência da internet, num momento em que jornais impressos e rádios perderam força. Não estou dizendo que são elas por elas, mas é um mito achar que no passado remoto a TV não tinha concorrência. A TV sempre teve concorrência e isso é ótimo. Fontes plurais de informação permitem desenvolver o espírito crítico das pessoas. E obrigam essas mesmas fontes de informação a se qualificar. Porque não adianta ouvir uma informação de alguém em quem não se confie. Por isso, mesmo com a multiplicação de oferta de fontes de notícias, é natural que as pessoas selecionem em quais ela deve confiar. Além do mais, a televisão aberta é gratuita. Num mundo em que informação é um bem ainda mais precioso, no dia-a-dia, a televisão aberta é a possibilidade de se informar, ainda que de maneira menos aprofundada do que na leitura de jornais. Mas nós, no "Jornal Nacional", não temos a menor pretensão de substituir os jornais impressos. O que nós pretendemos, todas as noites, é antecipar, aos brasileiros, aquilo que os principais jornais brasileiros destacarão em suas primeiras páginas no dia seguinte. Se nós fizermos isso - e despertarmos no telespectador o desejo de se aprofundar naqueles assuntos lendo os jornais, por exemplo - teremos cumprido nosso papel. E a TV aberta ainda representa o principal contato da maioria dos brasileiros com informações que tenham origem além dos limites da rua em que moram. Esse papel ainda não mudou. Nos últimos três meses, o share do "Jornal Nacional", nas principais capitais brasileiras, é de 60%, um número altíssimo, como no passado. E na era do controle remoto. Ou seja, se as pessoas nos veem é por escolha delas, porque confiam no que relatamos. Isso é motivo de alegria.

IMPRENSA - As emissoras concorrentes têm copiado o mesmo modelo do JN, inclusive os logos, a bancada, o painel de fundo. Como lidar com jornais tão parecidos?

WB -
O JN tem 40 anos de existência e é natural que haja tentativas de copiá-lo - embora algumas me pareçam constrangedoras. Mas é preciso ter consciência de que o sucesso do "Jornal Nacional" é resultado da construção de uma estrutura muito bem montada. Uma rede de emissoras afiliadas, com suas equipes de jornalistas, colocam o JN virtualmente em cada metro quadrado do Brasil. Isso permite que nós cheguemos primeiro ao local onde se deu um fato importante. Nos grandes centros, é questão de minutos. Nos rincões mais isolados da Amazônia, é questão de horas. É mais fácil copiar um cenário e tentar imitar um formato do que montar uma estrutura assim. O JN é produto dessa estrutura - e dos talentos que a Globo conseguiu formar ou arregimentar nesses 40 anos.

IMPRENSA - Na comparação histórica, o JN tem perdido audiência. Os dados que apontam essa queda são significativos para você?

WB -
Os números que já dei mostram que a audiência do JN é altíssima. A Direção Geral de Jornalismo e Esportes e a Central Globo de Jornalismo cobram do JN a isenção, a correção, a pluralidade e a clareza do material jornalístico que publicamos. Porque se nós afrouxássemos esses critérios, perderíamos importância. E, com ela, a audiência. O que faz do JN o telejornal de maior audiência do Brasil (e uma das maiores do mundo) é que as pessoas podem não saber o que vão encontrar lá. Mas elas têm certeza daquilo que não vão encontrar de jeito nenhum: sensacionalismo, não verão nenhuma apelação, não serão desrespeitadas, não serão traídas em sua confiança. E quando assuntos de grande relevância e impacto dominam as conversas dos brasileiros, é no JN que eles se ligam, à noite, a despeito de toda a oferta e de toda a concorrência. Acho que nada atesta com mais precisão o valor que o JN tem para o Brasil.

IMPRENSA - Como é trabalhar ao lado de Fátima Bernardes? É claro que vocês já se acostumaram, mas no começo não houve conflitos?

WB - Trabalhar com Fátima é uma honra. Uma profissional que construiu reputação de competência e seriedade numa carreira muito bonita em jornalismo. Não temos nem tivemos conflitos. No início, tínhamos, sim, uma torcida muito grande pelo sucesso do outro. Passados 11 anos de trabalho como colegas no JN, temos, hoje, o entrosamento profissional que caracteriza toda a equipe de editores. Quer dizer: questões não-profissionais ficam em casa.

IMPRENSA - Como é sua rotina como editor do jornal?

WB - Sou pai de três filhos e jornalista. Assim, acordo muito cedo, levo as crianças para a escola, leio os jornais e a internet, faço exercícios e duas vezes por semana comando a reunião matinal do JN. Nos outros 3 dias, isso é tarefa de outros integrantes da equipe: o editor-chefe adjunto Luís Fernando Ávila, o editor de política Vinícius Menezes e a editora de geral Angela Garambone. Na falta de qualquer um de nós (férias, por exemplo), o editor de geral Ricardo Pereira entra no circuito. Mesmo quando não comando a reunião matinal, estou disponível o tempo todo para consultas através de rádio, celular e e-mail. Como, aliás, estão o diretor da CGJ, Ali Kamel, e o Diretor Geral de Jornalismo e Esportes, Carlos Henrique Schroder. Minha presença na redação pode ir das 11h até o fim do JN, ou a partir das 14h da tarde. Às 14h30, temos uma reunião com os editores que acabaram de chegar, em que é apresentado o conteúdo planejado para aquela edição. Depois disso, reunião de pauta: a avaliação de ofertas de reportagens que serão produzidas para edições futuras. Aí vem todo o período de fechamento do JN e a apresentação.

IMPRENSA - O "Jornal Nacional", muitas vezes, é a única fonte de informação da população. Como você lida com a responsabilidade de fechar um telejornal diário que influencia a opinião de milhões de brasileiros?

WB - Com ética e responsabilidade. É a única forma de trabalhar no "Jornal Nacional".

IMPRENSA - Como você acredita que a relação entre telespectador e JN pode evoluir levando em consideração, principalmente, a possibilidade de interação da internet e a chegada da TV Digital?

WB - Já utilizamos a internet como instrumento de interatividade. Recebemos sugestões de reportagens e as executamos. Oferecemos ainda o conteúdo integral do JN a quem visita nossa página, além de conteúdo extra. Nossa página é uma das mais visitadas da Rede Globo.

IMPRENSA - Como é lidar e como você avalia as constantes críticas de que o JN apóia determinados grupos políticos, defende algumas ideias por meio de suas matérias?

WB - As críticas que partem de grupos antagônicos são a prova mais eloquente de nossa equidistância e de nossa isenção. Estranho seria se um produto jornalístico que trata de temas relevantes não motivasse queixas de algum dos lados. Felizmente, as críticas e os elogios nos chegam de todas as direções.

IMPRENSA - Você acredita na imparcialidade no jornalismo?

WB -
Sim, sem dúvida nenhuma. E é o que procuramos fazer no jornalismo da Globo. Apresentar os problemas, as opiniões divergentes, e permitir ao público que forme sua própria opinião diante das argumentações dos contrários. Não é nosso papel emitir opinião, mas fornecer informação objetiva para que cada um forme a sua.

IMPRENSA - Você se emocionou ao noticiar a morte de Roberto Marinho. Sua relação com a emissora é muito mais do que profissional?

WB -
Sim. Entrei na Globo em 1986, aos 23 anos incompletos. Foi aqui que aprendi telejornalismo. Tenho orgulho de integrar esse time, tenho uma admiração imensa pela responsabilidade social da Globo, pelos princípios que norteiam a empresa e o jornalismo dela. Mas não foi por isso que me emocionei, naquela edição em que tratamos da morte do Dr. Roberto. O que me tocou foi o tom da mensagem dos filhos dele aos brasileiros. Era a renovação de um compromisso com o país e com os cidadãos - que Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho fizeram questão de levar aos brasileiros num dia tão doloroso para eles. Eu li antes, achei que estava mesmo muito emocionante e temi perder o controle. Pedi para gravar aquele texto - e assim foi feito. Só que houve um problema com a "arte" que acompanharia a minha leitura gravada. Aí, o diretor Carlos Schroder me pediu, numa mensagem instantânea, durante a exibição do JN, que lesse o texto ao vivo. E assim foi. Quando eu estava bem perto de terminar a leitura da carta, sem voz embargada, sem tropeços, cheguei a pensar: "Consegui". E pronto. Todo o esforço acabou sendo inútil, porque me desconcentrei e acabei me envolvendo com a parte final do texto de maneira total. Foi isso que aconteceu.

IMPRENSA - Existe interferência editorial da direção na produção do programa?

WB - Existe o respeito a uma linha editorial, como em todo órgão sério de imprensa. E ela é bem simples: cobrir todos os fatos relevantes, com a máxima isenção, com correção e respeitando a pluralidade de idéias. Essa é a linha editorial.

IMPRENSA - O caso das eleições de 1989, no debate entre Collor e Lula, é emblemático e está presente em todas as discussões sobre liberdade de imprensa. Qual sua opinião em relação a esse caso?

WB -
O livro que celebrou os 35 anos do JN, em 2004, abordou profundamente esse assunto, mostrando depoimentos de todas as pessoas que se envolveram de alguma forma naquele episódio. Acho que é leitura obrigatória para qualquer pessoa que queira, de fato, entender o que se passou há 20 anos. O livro trouxe uma contribuição enorme para a história - até então eclipsada por teorias conspiratórias. Pessoalmente, acho que o erro do jornalismo da Globo, naquele episódio, foi acreditar que um debate entre candidatos, em sua dinâmica, poderia ser resumido. O aprendizado com 1989 serviu para que, nos debates realizados nas eleições posteriores, não houvesse edições compactas nos nossos telejornais. Mas já que a pergunta toca no assunto, gostaria de observar o seguinte: acho que não devemos jamais relativizar a importância da liberdade de imprensa para a nossa democracia. Utilizar um possível erro da imprensa para levantar obstáculos à sua liberdade é ação obscurantista que deve ser repelida por todos os jornalistas e por toda a sociedade.

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