Câmera oculta, assédio sexual e manipulação de imagens estão na mira da FENAJ

Câmera oculta, assédio sexual e manipulação de imagens estão na mira da FENAJ

Atualizado em 03/08/2007 às 15:08, por Pedro Venceslau/Redação Revista IMPRENSA e  enviado especial a Vitória (ES).

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Muita coisa mudou no jornalismo desde 1987, quando a Federação Nacional dos Jornalistas elaborou o código de ética que rege o exercício da profissão. Naquele tempo, o jornalismo investigativo não contava com aparatos modernos, como microcâmeras que podem ser usadas secretamente. Também não havia o Photoshop, que viraria moda apenas 1990, ano do lançamento da revolucionária ferramenta de manipulação de imagens.

Há 20 anos, também não se discutia abertamente nas redações temas espinhosos como assédio moral e sexual. A cultura era outra. O principal objetivo do Congresso Nacional sobre o Código Ética, que começou na última sexta-feira (02/08), em Vitória, no Espírito Santo, é remodelar o manual de conduta da profissão aos novos tempos.

O jornalista goiano Luiz Spada, presidente do Conselho de Ética da entidade, principal mentor do novo código que será submetido a aprovação dos delegados neste fim de semana, fala sobre algumas mudanças importantes que nortearão os debates em Vitória: "O nosso código é muito bom, mas precisa se adaptar aos novos tempos. É preciso respeitar a privacidade das pessoas e acabar com o uso indiscriminado de câmera oculta na apuração de reportagens. As pessoas tem o direito de saber que estão sendo entrevistadas. Não precisa forçar a barra para fazer jornalismo. Outro ponto que queremos debater é a prática da manipulação digital de imagens, algo que ficou banalizado com o advento do Photoshop".

O conceito de assédio, seja ele moral ou sexual, também será revisto. "Essa é uma questão relativamente nova. Esse debate já existia antes, só que a cultura das redações era outra.As pessoas despertaram para isso. O mundo do trabalho mudou", diz Spada.

Um tema espinhoso promete levantar polêmica no evento da FENAJ: o limite entre o assessor de imprensa e o jornalista da redação. Em muitos países, como Portugal, por exemplo, o jornalista que começa a trabalhar como assessor de imprensa deve se desligar do sindicato dos jornalistas. Já no Brasil, as duas atividades são compatíveis. Tanto que os assessores de imprensa também são representados pela FENAJ. Mais que isso. Praticamente não existem restrições para assessores de imprensa que trabalham também em redações. "O assessor de imprensa não pode trabalhar como repórter na área que ele atende. Por exemplo: se o jornalista for assessor do Vasco da Gama não pode cobrir esporte", explica Spada.

Apesar do esforço da FENAJ para criar novos parâmetros éticos para o jornalismo, o novo código não tem o poder de cassar diplomas, como acontece com a medicina ou o direito. "As penas são de efeito moral. Nos casos mais graves, o máximo que podemos fazer é expulsar o jornalista dos quadros do sindicato", explica Sapada.

Serviço

O Congresso Nacional Extraordinário do Código de Ética dos Jornalistas, em Vitória (ES), é promovido pela FENAJ e pelo Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo. Serão apresentadas as propostas sobre a atualização do código de ética que vem sendo debatidas nos últimos três anos.

Delegações de 20 Estados participarão do Congresso, que será encerrado no dia 05/08 (domingo). A delegação de São Paulo, eleita em assembléia realizada no SJSP no dia 23/07, é a seguinte: Alcimir do Carmo (Bauru); Beatriz (Bia) Barbosa; Cristina Charão Marques; José Flávio Tiné; Lourdes (Lourdeca) Augusto; Márcia Quintanilha (Campinas) e Rubens Chiri. Os suplentes são: Agildo Nogueira Júnior (Campinas); José Augusto (Guto) Camargo e João Montenegro.

No dia 03/08, durante o Congresso, a nova direção da FENAJ e comissão de ética serão empossadas e será realizada uma homenagem ao vice-presidente da atual Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas, José Hipólito de Araújo, que morreu no início deste ano.

Já a conferência e abertura do Congresso serão realizadas dia 04/08 (sábado) às 14h, com o jornalista colombiano Javier Restrepo, professor de ética da Fundação para um Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI) e fundador da Comissão de Ética do Círculo de Jornalistas de Bogotá e do Instituto de Estudos sobre Comunicação e Cultura (IECO).

Segundo a Comissão Organizadora do Congresso, estão inscritos aproximadamente 150 participantes, entre delegados, observadores e convidados. Novas inscrições de observadores de outros estados dependem, agora, de consulta prévia ao Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo (27) 3222.2699.