Caco Barcellos e Misha Glenny debatem sobre jornalismo e narcotráfico na Flip

Em um debate sobre o jornalismo e o narcotráfico durante Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na última quinta-feira (30/6), os repórteres Caco Barcellos, do "Profissão Repórter", da Globo, e Misha Glenny, que já atuou como correspondente do The Guardian e da BCC, defenderam que a imprensa deve dar voz a bandidos.

Atualizado em 01/07/2016 às 11:07, por Redação Portal IMPRENSA.

jornalismo e o narcotráfico durante Festa Literária Internacional de Paraty ( ), na última quinta-feira (30/6), os repórteres Caco Barcellos, do "Profissão Repórter", da Globo, e Misha Glenny, que já atuou como correspondente do The Guardian e da BCC, defenderam que a imprensa deve dar voz a bandidos.
Crédito:Tomaz Silva/Agência Brasil Misha Glenny morou na Rocinha para escrever sobre Nem
Segundo a Folha de S.Paulo , a conversa entre os repórteres foi mediada pelo jornalista Ivan Marsiglia, na "Tenda dos Autores". Glenny lançou recentemente o livro "O Dono do Morro: Um Homem e a Batalha pelo Rio". A obra é uma biografia de Nem, ex-chefe do tráfico na favela carioca da Rocinha. Em 2003, Barcellos escreveu "Abusado", sobre o traficante Marcinho VP, do morro Dona Marta.
O jornalista brasileiro disse que ao receber críticas por perfilar um traficante, "como se ele não fosse um ser humano", questiona a diferença em contar a história de pessoas da "elite branca" que se envolvem em fraudes ou a de um governador corrupto, por exemplo. "Acho que há preconceito de classe. Se é bandido de classe baixa, não deve ter voz. Se pertence à elite, nem é chamado de bandido, é acusado de ter cometido um crime", opinou.
"Para conhecer os dois lados de uma história, é preciso conhecer o lado daqueles que pouco recebem visita do repórter. Eu raramente vi um promotor público ou um juiz nas favelas. É um ambiente que não é frequentado nem por aqueles que precisam frequentar, como nós jornalistas", acrescentou.
Glenny relatou que para se aproximar das pessoas que conhecem esses dois lados, ele resolveu morar alguns meses na Rocinha. "Você tem que vivenciar o barulho, o saneamento aberto, o cocô de cachorro em todo lugar. Para mim, com 55 anos como classe média de Londres, foi difícil", explicou.
A influência de Nem na favela motivou o repórter a escrever o livro. "Ele foi o poder político na favela. Foi o chefe da cocaína, tinha uma responsabilidade para muitas pessoas. E isso é geralmente uma história não escrita".

A dupla também abordou a crise que o jornalismo enfrenta atualmente. O jornalista britânico acredita que a internet está transformando o mundo todo. Segundo ele, os jornais não têm dinheiro e as pessoas estão se "afogando" nas informações. "A gente precisa de uma imprensa livre e independente. E cada dia a imprensa é menos independente e menos livre", ponderou.
Barcellos afirmou que o jornalismo exercido hoje é uma "reprodução de dossiês". "Quem está investigando é o promotor. Não venham me dizer que é reportagem. Na reportagem, você tem o dever de provar que as coisas são verdadeiras antes de levá-las a público", completou.