Brasil Profundo: plantio democrático, colheita injusta - por Luiz Gonzaga Guimarães Pinheiro, de São José dos Campos (SP)
Brasil Profundo: plantio democrático, colheita injusta - por Luiz Gonzaga Guimarães Pinheiro, de São José dos Campos (SP)
Este pobre escriba, já avançado em idade e alguma experiência, sempre estudou em escola pública, o que lhe valeu uma formação razoável, não melhor por culpa sua, exclusivamente. Nesses tempos gloriosos do ensino oficial, a escola pública era melhor, muito melhor que a escola privada. Havia até quem dissesse que era pejorativo estudar na escola particular, pois era fácil entrar nela e também fácil sair, enquanto que o ingresso em escola pública obrigava a passagem por um exame de admissão, cujo funil segurava nove entre dez candidatos. Esta história vale até o início dos anos setenta, quando o ensino público entrou em decadência. Os professores passaram a ganhar muito mal, com a conseqüente saída dos melhores, que nunca mais voltaram.
Agora, o quadro se inverteu e o ensino de qualidade é privativo de escolas particulares, aquelas que ocupam a esmagadora maioria das vagas das universidades públicas. Os alunos da escola pública preenchem a maioria das vagas das universidades pagas. Embora não haja novidade no que escrevo, sobra tragédia, pois o ensino universitário pago é ruim e não tem como competir com a qualidade do ensino universitário público. A inversão impõe preços formidáveis para o país que finge que ensina e para os alunos que fazem de conta que aprendem.
As escolas universitárias públicas estão localizadas nas áreas metropolitanas, onde há concentração de renda e riquezas, abandonando o Interior, onde o número dos que podem se preparar para o vestibular é modestamente menor. Mas os impostos são os mesmos, sendo lógico imaginar que as universidades são pagas por todo brasileiro devedor de impostos, embora desfrutadas por minorias ricas.
Esse Brasil profundo de que nos ocuparemos, a partir de hoje, vê surgir orquestras de ótimo nível nos endereços metropolitanos, novas edificações e novos cursos nas capitais, continua bancando seu custo, mas e também continua marginalizado de seu uso. Os grandes teatros, os melhores hospitais, os melhores serviços, tudo é destinado aos que moram próximos dos palácios dos governantes. A maior obra pública do país trata da despoluição do rio Tietê, em São Paulo, mas o rio Paraíba do Sul, no Vale, continua transportando sujeira, recebendo esgoto in natura, certamente porque errou de endereço. Estivesse em São Paulo e as atenções para com ele seriam outras.
O imposto, como se fosse semente, é dever para todos, mas a colheita é privilégio só de alguns.
As secretarias de Estado, como a de Cultura, têm olhos que se dedicam às metrópoles e visões que contemplam o Interior, quando querem continuar servindo aos metropolitanos, oferecendo festivais cujo benefício só atinge moradores de capitais, em férias no Interior. Entenda-se que a segurança é ministrada em doses desiguais, privilegiando as metrópoles, esquecendo o Interior.
O imposto, em que pese o nome, é democrático e dever de todos. O benefício é privilégio e só alcança uns poucos.






