Brasil Profundo: Clima e tempo, meteorologia - por Luiz Gonzaga Guimarães Pinheiro/São J. dos Campos
Brasil Profundo: Clima e tempo, meteorologia - por Luiz Gonzaga Guimarães Pinheiro/São J. dos Campos
Ninguém vai deixar de ouvir o canto desesperado das seriemas, para dar lugar às previsões do tempo das rádios e televisões. No campo, as seriemas anunciam mudanças no tempo e nós entendemos seu canto como tristes ou alegres, conforme estejamos esperando por chuva ou estiagem. São desesperadoramente angustiados ou tocados por uma alegria confusa, aonde os cantos das muitas "galinhonas" não chegam a se reunir em um coral.
As seriemas são parentes, digamos "primas" das emas, nossas maiores pernaltas, abundantes em Goiás e nos Mato Grosso. Elas são colegas de ofício, - forcemos um pouco essa barra dos parentescos consangüíneos – no anúncio de mudanças de tempo, clima, estações e estados, mas as procelárias são como especializadas na transmissão de notícias de tragédias, anunciando tempestades, mas esclareça-se, elas são especialistas (apenas) em mar.
Os caipiras e os caiçaras acreditam na força desses arautos da natureza e não os trocam pelos institutos que anunciam mudanças no tempo.
A lua, "condescendente amiga das metáforas", como escreveu Mário de Andrade, tem uso menos poético no campo, regulando plantios, cortes de cabelo, toda forma de semeadura, inclusive aquela que tem a ver com a procriação entre os civilizados. Conforme seu formato e brilho, conforme a semeadura ou, antes, o preparo da terra. Aquele halo que contorna a lua e intriga a nós todos do asfalto, tem amplo significado no mato e nos campos. Não se brinca com ele. Ao contrário, é temido como peste. Apesar disso, é linda essa moldura da lua.
Aqui em meu refúgio, onde convivo com as certezas das previsões das seriemas, lua e outras formas de avisos, ouve-se a previsão do tempo para, em seguida, constatar sua desmoralização: "sempre acontece o contrário", dizem os caipiras, cheios de experiência e de verdades.
Esse homem simples que habita os campos de nosso país e que nos habita por sua sabedoria, não lê jornal e prefere novelas a noticiários. Eles "torcem" a favor e contra, conforme a personagem seja boa ou ruim de comportamento. Também votam do mesmo modo, escolhendo os que têm bom coração e se mostram generosos. Não se fala em plataforma eleitoral, propostas de governo, mas todos querem saber se as estradas serão melhoradas, se vem o ônibus para lavá-los às missas e aos cultos e, até, às escolas.
Todos aplicariam na Caixa Federal, se tivessem dinheiro, mas o colchão continua sendo o banco mais confiável, porque tem uma gestão descomplicada.
Não chego a sugerir que se entregue o poder aos caipiras, mas não seria de todo mal que fossem ouvidos, lá das salas do poder, onde o campo fala tão pouco ou nada, tendo sido substituído pelo eficaz "agro-business", novo nome para os negócios do campo. Severo Gomes, o grande senador, tinha um "espírito santo de orelha", homem sábio do campo, a quem ouvia com um respeito devoto, nunca se arrependendo de ter aceito os conselhos sábios de Lico Pinto, seu oráculo particular, acompanhante de cavalgadas filosóficas e administrador de uma de suas fazendas. Lico Pinto reunia uma assembléia de videntes, dela participando as seriemas, a lua, as mudanças no céu e os ventos inesperados. Severo ia bem no campo, mas tinha problemas em sua indústria de cobertores. É que na indústria Lico Pinto não dava palpites.
Nada, contudo, seria mais importante que a imprensa da região, por suas rádios, jornais e tvs, pudesse dar um passo na direção dessas casas carentes de informação e de estímulo ao reconhecido senso crítico dos homens do Interior, estimulando a discussão e a sua colocação como habitantes do pais. Eles saberiam como mudar o "clima" em que vivem. Semana próxima falaremos objetivamente disso.






