Brasil Post será como uma praça pública que abriga várias opiniões, diz diretor do veículo

Uma entrevista exclusiva com o ministro Marco Aurélio Mello, presidente do Superior Tribunal Eleitoral, na qual comenta as manifestações de junho passado aos “rolezinhos” nos shoppings de São Paulo, marcou a estreia do site de notícias nesta terça-feira (28/01).

Atualizado em 28/01/2014 às 14:01, por Danubia Paraizo e Gabriela Ferigato.

A versão brasileira do The Huffington Post trouxe ainda blogs exclusivos de personalidades, como o cartunista Laerte Coutinho, a ministra da cultura Marta Suplicy, o jornalista Gilberto Dimenstein, entre outros.

Fruto de parceria entre o grupo Huffington e a editora Abril, o novo veículo promete ser um agregador de notícias relevantes para seus leitores, tendo como principal característica, oferecer um amplo cardápio de assuntos e pontos de vista. Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, Ricardo Anderáos, diretor de redação do site, disse que a ideia é abordar desde cultura urbana, a mobilidade, política e meio ambiente, a fim de ser o mais múltiplo e plural possível. “Faz parte da lógica desse negócio que ele seja uma espécie de praça pública, que abrigue todas as posições e opiniões”.

A seguir, Anderáos fala sobre a proposta do Brasil Post, diferenciais tecnológicos do veículo e de sua plataforma e como suas pautas serão pensadas.

Crédito:Luiz Murauskas Anderáos é diretor de redação do novo "Brasil Post" IMPRENSA - Como teve início a parceria entre o Huffington Post e a Editora Abril? De quem partiu o interesse? Ricardo Anderáos - Há dois anos, a Arianna Huffington, cofundadora do Huffington Post, veio ao Brasil para participar do InfoTrends, um evento organizado pela revista Info, do grupo Abril. Naquela ocasião, ela começou uma conversa com Roberto Civita. Arianna estava iniciando uma expansão internacional e, obviamente, ela tinha interesse de vir para o Brasil. A partir daí, eles começaram a discutir qual seria o formato ideal dessa parceria.

Trata-se de um licenciamento de marca, tal qual a abril já faz com Playboy e N ational Geographic ?
Não, mesmo porque aqui será o primeiro lugar no mundo onde não será adotada a marca “Huffington Post”. É uma operação da Editora Abril, mas com a utilização tecnológica deles. Vamos trabalhar dentro da plataforma internacional deles.

O que essa plataforma tem de diferente? Boa parte do segredo do Huffington Post vem de sua plataforma. A outra está na maneira como o jornalista trabalha nela. Normalmente, o que você tem em portais é publicador ou CMS (Content Management System), em que os jornalistas trabalham publicando os conteúdos que produzem. Além disso, você tem a plataforma de analytics, em que são levantadas as métricas e outras informações de audiência.

E agora as mídias sociais... Nos lugares um pouco mais avançados, além disso, você tem uma plataforma de publicação e gestão de mídias sociais, em que existe, em geral, jornalistas juniors gerando esse tipo de conteúdo e publicando nas redes sociais. Em poucos lugares do Brasil há uma plataforma profissional de mídias sociais para monitorar e saber realmente tudo sobre o que está se falando.

Onde entra a novidade do Huffington? A grande mágica da plataforma do Huffington Post é que você tem tudo isso em um mesmo software. O jornalista trabalha nessa plataforma redigindo sua matéria, e, enquanto faz isso, a plataforma traz insights do Google, do que as pessoas estão buscando, do que está bombando nas redes sociais, etc. O profissional já incorpora tudo isso em sua matéria. Quando ele publicar o texto, vai acompanhar tudo dentro da própria plataforma, todas as métricas, incluindo o engajamento em mídias sociais, que tráfego que está vindo de outros locais...

Qual será a estrutura de redação do jornal? A redação vai ser pequena, com 10 pessoas para começar. Não dá para a gente levar para o digital o modelo do print, em que já houve redações com centenas de pessoas. Vamos começar com zero page views e zero unique views, então como vamos contratar cinquenta pessoas com esse início? Vamos crescer com calma, com todo mundo tendo que aprender e com todo mundo se colocando no mesmo patamar. A equipe vai ser formada por pessoas basicamente jovens, não por questões salariais, mas por questões de abertura. A pessoa tem que vir respirando Facebook, Twitter, Instagram, Vine, entre outros. Tem que ser usuário mesmo e entender como funciona.

O Brasil Post terá a linguagem e o formato parecidos com o Huffington Post? o quanto vocês serão independentes? Se você entrar no site do Huffington Post, em geral, vai cair no site americano. Lá, você pode escolher em qual país você quer navegar. A arquitetura de informação é a mesma, mas em cada local você encontra uma estrutura editorial diferente. Os nomes das seções são diferentes. Cada lugar faz a adaptação que cabe para a sua cultura e para os seus valores.

Já sabe qual será essa identidade no Brasil? Vamos ter que construir a identidade com essa equipe no dia a dia. Mas a gente tem que buscar com jeito brasileiro o que em outros países se chama Huffington Post. Faz parte da lógica desse negócio que ele seja uma espécie de praça pública, que abrigue todas as posições e opiniões. A ideia é ser o mais múltiplo e plural possível. Cultura urbana, mobilidade, meio ambiente, todos esses temas farão parte do nosso cardápio. A gente provavelmente terá uma seção que ainda não está definido o nome aqui, mas que fora se chama “Gay Voices”, a ideia é dar voz para todo mundo e ter a maior diversidade possível, inclusive, diversidade de gêneros.

E como vocês trabalharão esse conceito regionalmente, diante de um país de extensões como o Brasil? Aí entra o outro pilar do Huffington, que será também do Brasil Post, que são os blogueiros.Entretanto, essa figura aqui será totalmente diferente. Ela será, talvez, como um colunista. Nossos blogueiros escreverão dentro de nossa plataforma e cada um vai ter a produtividade que quiser. Também não serão necessariamente textos exclusivos. Ele pode republicar em outro lugar. Pode, inclusive, manter o blog de alta audiência que ele tiver em algum lugar e escrever na nossa plataforma, dando nosso link no blog dele. Mas sem remuneração para os blogueiros. Teremos um filtro baseado em critérios editoriais, mas aceitaremos pessoas que tenham conteúdo, uma visão muito particular do mundo.

Qual será a linha editorial do Brasil Post? Quais editorias serão priorizadas? São diversos os temas de interesse. Soft news, hard news, colunas, crônicas. Para o Brasil Post, a social timeline do leitor é tão importante quanto a home page do veículo. O problema na social timeline, é que a gente só vê o que os nossos amigos colocam ali. O nosso Twitter, Instagram vai se fechando, é o tal efeito bolha. A nossa ideia é abrir. Então, se o site da Folha de S.Paulo publicar uma coisa importante, podemos dar uma manchete sobre isso e o link para eles. Isso vale para todos os veículos. A gente não quer prender as pessoas na nossa plataforma. Vamos oferecer o link para qualquer lugar, contanto que seja de relevância. O mais importante é dizer para o leitor que ele vai encontrar tudo o que precisar saber no Brasil Post.

Vocês não entrariam em conflito com os veículos, que poderiam alegar que vocês utilizam as notícias deles para atraírem leitores? Não, nós estaremos dando link para eles. É o contrário, estaremos jogando a audiência para outros sites. Nós citaremos que aquele é o furo do Estadão, da Veja, do G1, de quem for. Se você olhar no pé da home page do Huffington, você vai ver as fontes de notícia: Al Jazeera, Washignton Post, CNN, etc. Não compramos conteúdo, mas sim damos os links de matérias deles. Nós não temos um concorrente no Brasil porque ninguém tem essa filosofia. Nós seremos como um agregador de notícia, e isso não existe no país com esses moldes.

O conteúdo será gratuito? estudam o modelo de paywall? Usaremos publicidade como principal fonte de renda. Paywall está fora de cogitação. Mas daí, logicamente, a publicidade não poderia ser aquela careta do display e do banner. A base serão os formatos nativos, que são inclusos dentro do conteúdo, identificados como publicidade. Os anunciantes podem escolher entre uma infinidade de formatos. Desta forma, entregamos uma publicidade muito mais relevante, porque ela é conteúdo. Os formatos nativos oferecem aos patrocinadores opções mais personalizadas.

Vocês manterão um diálogo com a matriz ou terão total liberdade no negócio? Essa é uma operação Abril e o Brasil Post é um produto dentro da companhia. É claro que como a plataforma foi licenciada, o The Huffington Post irá acompanhar todo o desempenho, mas nós temos liberdade editorial e comercial.

O que o grupo abril espera desse projeto? Qual o desafio imposto a vocês? É um produto bastante inovador em diversos pontos, entre eles, a plataforma tecnológica, a concepção do que é notícia, a maneira de se posicionar em relação a colunistas ou blogueiros, a forma de encarar publicidade. Nosso interesse é aprender e poder dar um passo no digital à altura do que o Grupo Abril merece. Vamos aprender e inventar com os jornalistas que já atuam aqui, com os que traremos de fora, com os futuros patrocinadores, com outros sites de notícias, plataformas de mídia social, etc. É um aprendizado para o mercado brasileiro como um todo.

Diante da crise do jornalismo impresso, que gerou muitas demissões e o fechamento de alguns títulos, o modelo digital é uma solução? Com certeza. Na verdade não temos crise apenas no impresso, mas também em vários lugares no digital. É uma questão muito séria não ter modelos financeiros para que o jornalismo de qualidade possa florescer. É impossível pensar em uma sociedade democrática sem jornalismo independente. Não vou dizer que o Brasil Post é a solução, mas vamos poder experimentar, e as coisas que iremos fazer aqui vão ajudar a construir uma resposta para essa questão. Essa é a minha aposta.

Além de ser um agregador de notícia, vocês também produzirão conteúdo próprio? Sim. Nossa redação irá produzir matérias, traduzir notícias de outros países, oferecer link outs, contar com agências de notícias e com tudo que está nas redes sociais. Na verdade é a “dieta de mídia”, um termo usado nos Estados Unidos, que é o que você se alimenta de mídia ao longo do dia. Por exemplo: começo ao acessar o Twitter no celular, depois ouço rádio no carro, leio jornais impressos ou on-line ao longo do dia e vejo televisão à noite. Essa “dieta de mídia” é o que vai alimentar nosso produto.

Você foi diretor de mídias digitais da abril. como você avalia a atuação dos veículos de comunicação nesse universo? O que muitos veículos fazem é broadcasting , apenas publicam. É a cabeça da mídia tradicional passada para a digital. Há veículos que se engajam e mantêm diálogo, mas é exceção. O panorama que vemos hoje é muito parecido com o que era web no final dos anos 1990: muita confusão, muito burburinho, mas ninguém entende nada. A mídia social não é feita apenas para publicar, e sim para ter um diálogo.

Como você vê o espaço dado às pautas relacionadas à tecnologia? Da época em que criei o caderno Link, no O Estado de S. Paulo, para os dias de hoje, o cenário mudou muito. Falávamos de coisas que ainda não faziam parte do cotidiano de todo mundo. Antes era o que estava em uma seção, hoje é o ar que todo mundo respira. Ficou muito mais difícil falar de tecnologia porque todo mundo é ‘especialista’.