Bom dia, Chopin

Bom dia, Chopin

Atualizado em 01/03/2010 às 18:03, por Rodrigo Manzano.

Minha primeira reportagem jornalística de fato - se é que isso interessa a alguém - foi uma grande matéria investigativa para o . Naqueles dias, eu me sentia o Bob Woodward do centro-oeste paulista, caipira como convinha a mim e à minha terra. Naquele que considero meu primeiro emprego como jornalista - eu tinha uma mesa, um ramal telefônico, um computador e um carro - trabalhei durante minhas férias no segundo ano de faculdade. Não ganhei nenhum centavo, não ganhei nem mesmo um agradecimento do dono do jornal (acho que ele prestava um favor ao meu pai, na verdade, que certamente foi lhe agradecer pela oportunidade). Sequer ganhei experiência. Foram 15 dias de horror, umas pautas escabrosas, uma gente estranha naquela redação decadente, apesar do prédio tinindo de novo na esquina das ruas Caingangs com Caetés. Nada me faltava para ser o Woodward sertanejo, apenas a competência - eu havia começado a fumar, tomava café, dormia tarde e, romântico, queria ser o primeiro a ver o jornal na gráfica, ainda quente, de madrugada. Havia um traço que destoava do estereótipo: eu ouvia Chopin pela manhã, de modo a enfrentar um árduo dia de trabalho - oh, muito árduo - na redação - oh, redação.
Pois bem, entre uma pauta sobre uma vaca e outra sobre a chuva, eis que cai sobre minha mesa a mais intrigante de todas as matérias que eu poderia produzir na vida: a reforma da Igreja Dom Bosco. A reforma da Igreja Dom Bosco foi o meu Watergate. Antes, era uma igreja de traços barrocos fingidos. Na lateral esquerda da nave, grandes murais retratando a vida do religioso italiano. O altar, clareado com a luz que entrava pelos vitrais, era ladeado por dois anjos em tamanho real (ou o que se supõe ser o tamanho de um anjo), com duas tochas onde se encaixavam lâmpadas que faziam as vezes de fogo. Um anjo era vestido de azul. O outro de rosa. Eis que a igreja tinha sido reformada. Um badalado arquiteto da cidade tinha proposto uma nova leitura da igreja. A alva parede do altar foi coberta por uma ardósia cinza e a qualquer momento esperávamos que água começasse a jorrar do meio do coração do Cristo crucificado, tão semelhante a uma piscina pareceu-nos. A parede da igreja foi pintada de salmão e amarelo, numa época em que as cores só eram utilizadas em suítes A de motéis B. E os anjos - o horror, o horror! - os anjos tinham desaparecido.
Eu não me conformava. Os anjos haviam sumido. Como São Gabriel Arcanjo, depois de anunciar que Maria esperava o Salvador, eles não estavam mais lá. Não pude acreditar. Voltei para casa e fui olhar as fotos de família. Os anjos existiram de fato. Eles estavam no altar no casamento de meus primos, no casamento de meu irmão, na celebração das Bodas de Ouro de meus avós, no batizado de alguns sobrinhos. Sim, os anjos já tinham usucapião do altar da Igreja Dom Bosco, mas não estavam mais lá. O arquiteto sentiu-se Deus. Expulsou-os. Eu tinha uma missão: revelar o paradeiro dos anjos e questionar a reforma da igreja.
Vesti-me de Woodward. E fui. Nenhuma das minhas fontes sabia me informar onde estavam os anjos. Nenhuma delas ousava dizer que a igreja havia se descaracterizado. Não era possível. Entrevistei: o padre, o arquiteto, a restauradora que retocou os murais com tinta fluorescente, duas Filhas de Maria, cujas idades somadas passavam facilmente de 150 anos, um professor de arquitetura, o porteiro do almoxarifado da prefeitura municipal. Ninguém soube me informar onde estavam os anjos. Ainda assim, arrisquei um combativo texto a ser publicado no dia seguinte: a reforma, autorizada pelo padre com o dinheiro da comunidade, havia descaracterizado a Igreja de Dom Bosco, as cores não permitiam concentração e introspecção religiosa, os murais ficaram deformados e, o mais importante, os anjos sumiram. Na verdade, não sei porque me importava tanto, se nem católico eu era, mas aquela tinha tudo para ser a matéria mais polêmica de toda minha vida. Ela iria abalar a cidade. As beatas se organizariam. O arquiteto nutriria raiva eterna de mim. Eu alcançaria inimigos entre os reformistas (literalmente) e conservadores (literalmente), porque não me alinhava a ninguém. Eu era independente. Eu não tinha rabo preso com Deus, nem com o Diabo. Eu era um jornalista. Um jornalista de primeira grandeza. Eu era o Bob Woodward do Angelgate.
Entreguei minha matéria. Desci para um café e um cigarro. Fui para casa. Tomei um banho e esperei até a uma hora da manhã. Na madrugada, dirigi até a oficina gráfica do jornal. O cheiro quente de tinta anunciava a polêmica. Peguei um jornal na mão e não acreditei no que vi. Meu texto, fruto de minha investigação e meu suor a favor dos desaparecidos anjos da Igreja de Dom Bosco, estava inteiro, publicado sem mudança alguma. Minha investigação e engajamento jornalístico enfim produziria os frutos que sonhava. Além de tudo, era manchete. Uma manchete inacreditável: "Reforma deixa Igreja Dom Bosco mais bonita e mais moderna".
Fui para o carro. Ouvi Chopin.
PS 1. Dedicado ao compositor nos 200 anos de seu nascimento.