“Bom biógrafo não precisa ser jornalista, mas ter curiosidade por informação”, diz Ruy Castro

O jornalista e escritor Ruy Castro tinha apenas 19 anos quando começou a trabalhar no Correio da Manhã em 1967. Desde então, passo

Atualizado em 01/10/2014 às 15:10, por Jéssica Oliveira.

O jornalista e escritor Ruy Castro tinha apenas 19 anos quando começou a trabalhar no Correio da Manhã em 1967. Desde então, passou por cerca de 15 redações no Brasil e em Portugal, incluindo os principais jornais e revistas do Rio de Janeiro (RJ) e de São Paulo (SP). Crédito:Divulgação Ruy Castro participou do encontro literário "Primeira Página" evento no Tuca Mas não é só a carreira de jornalista que impressiona. Ele levou para a literatura as técnicas de reportagem e pesquisa e tornou-se um reconhecido biógrafo pelos livros “O Anjo Pornográfico”, que conta a vida de Nelson Rodrigues (1912-1980); “Estrela Solitária”, sobre Garrincha (1983-1983); “Carmen”, que retrata Carmen Miranda (1909-1955); além de obras com reconstituições históricas e símbolos brasileiros, como “Chega de Saudade”, sobre a Bossa Nova, e “Ela é Carioca”, acerca do bairro de Ipanema.
Portanto, é normal que estudantes de jornalismo, aspirantes a escritores e biógrafos busquem conselhos do profissional e queiram conhecer mais do seu trabalho. Acostumado a falar sobre isso, Ruy Castro participou recentemente do encontro literário no Tuca, Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
No bate-papo, que teve a participação da atriz Mel Lisboa, do ator e diretor André Garolli do Grupo Tapa, da jornalista Mona Dorf, e dos curadores Clovys Torres e Cândida Morales, o autor falou sobre literatura, jornalismo, música, biografia, os desafios da profissão de escritor e seu processo criativo. Ao final, ele conversou com IMPRENSA e afirmou que para um bom biógrafo não precisa necessariamente ter a vivência de redação.
“Ele precisa ter grande curiosidade e interesse pela busca da informação. A vantagem da redação é que ela te ajuda a saber onde buscar a informação, como buscar, como se preparar, como organizar... Mas tem vários grandes vários biógrafos na história que nunca foram jornalistas e dominam a técnica. A biografia não é exatamente uma arte, é mais uma ciência, e pode ser aprendida”.
Além das técnicas de jornalista, Castro mantém outro legado da redação na sua rotina de escritor:não conseguir "desligar". “Isso é um defeito de formação jornalística. Participei de um curso que um cara disse que ser jornalista ‘é uma profissão como outra qualquer’. Ao contrário, pois você pode ser dentista, botânico... você termina seu trabalho, vai para casa e esquece. O jornalista não consegue fazer isso. Ele vive de informação e ela entra por todos os buracos. Você pode fechar as portas, calafetar as janelas e a informação vai entrar de alguma maneira”
Paixão pela palavra Se houve um tema abordado no evento, foi a própria palavra. Logo no início, Garolli leu um texto de Ruy sobre o seu amor pelas letras e pela leitura. “Em pouco tempo decidi que no futuro seria jornalista, que viveria das e entre as palavras. [...] Mas, como já tinha feito com o cinema e com a música popular, sempre declinei dos convites de me tornar resenhista ou crítico fixo de literatura. Nunca permiti que ler por obrigação, a valer três pontos, interferisse no prazer de ler por amor”, diz trechos do texto.
Segundo o jornalista, quando conheceu a leitura, ainda na infância, ele se sentiu em casa. Somado esse fascínio à postura dos pais de não jogar jornais e livros fora, fez com que o garoto tomasse ainda mais gosto por aprender e conhecer principalmente o passado.
“O que me interessava era a informação, era aprender sobre o que estava acontecendo ou o que tinha acontecido. Essa sorte dos meus pais não jogarem jornais e revistas fora me ensinou desde cedo que o mundo não começou quando eu nasci. E eu me ponho o desafio [até hoje] de sempre aprender alguma coisa que eu não sabia”, conta.
Apuração e dedicação O escritor contou também que o ponto de partida para as suas biografias é sempre pessoal, geralmente a admiração pelas pessoas e a curiosidade pela vida e obra delas, e que por isso jamais aceitaria uma encomenda. Após definir o assunto ou personagem de seu livro, ele explicou que dedica cerca de 70% do tempo de produção a apuração da história e somente 30% para a escrita. Mesmo assim esses 30% são bem intensos, pois tudo é reescrito até o último segundo.
“Todas as vezes que eu recebia provas tipográficas eu metia a caneta. O segredo de você fazer textos que possam ser lidos com fluência, com naturalidade, com prazer é trabalhar furiosamente em cima deles cortando todas as palavras desnecessárias, palavras longas demais, palavras imprecisas, enfim. A obrigação é você tornar o texto mais claro, mais objetivo, mais verdadeiro, o mais simples possível”.
Nesse momento, aliás, ele deve estar fazendo exatamente isso, pois prepara um novo livro na mesma linha do “Chega de saudade”, mas sobre outro gênero musical. Enquanto o novo título não fica pronto, o próprio Ruy serviu de inspiração para sua esposa, Heloisa Seixas, em “O oitavo selo”. A obra, “um quase romance”, mostra os diversos momentos de um homem diante da morte.
“Não é uma biografia. Ela usa coisas que me aconteceram, o personagem sou eu e ela conta os meus chamados confrontos com a morte (até agora sete), dos quais na visão dela eu saí por causa do uso da palavra”, diz. Lançado pela Cosac Naify, o livro está disponível para pré-venda no site da editora.
Outra palavra também bastante ouvida no bate-papo foi sorte, algo que para Ruy esteve presente em todas as fases de sua vida: na infância, em que herdou de amigos da família coleções de jornais e revistas; nas redações em que trabalhou; nas pessoas com quem conviveu e fatos históricos que participou e em dilemas nas apurações, que foram resolvidos por acaso, como numa conversa com um desconhecido na biblioteca.
“A maior sorte eu já dei que é trabalhar com o que mais gosto que é a palavra. Eu não tenho o menor mérito de estar aqui nesse momento. Foi tudo uma grande sorte”, finalizou. Crédito: Ruy Castro (no centro) durante encontro literário "Primeira Página"