Biógrafo de Roberto Carlos revela detalhes de batalha judicial em “O Réu e o Rei”

Após sete anos desde que a biografia não autorizada “Roberto Carlos em Detalhes” (Editora Planeta) foi recolhida das livrarias, o caso ganhanovo capítulo com o lançamento nesta terça-feira (20/05) do livro “O Réu e o Rei” (Companhia das Letras).

Atualizado em 20/05/2014 às 17:05, por Danúbia Paraizo.



Crédito:Reprodução Jornalista lança livro contando disputa jurídica com Roberto Carlos
Escrita pelo historiador e jornalista Paulo César Araújo, também autor da biografia censurada, o relato traz os bastidores de sua batalha na justiça para impedir a censura da publicação. “Esta foi uma sugestão de diversas pessoas em meados de 2008 durante minhas palestras sobre o assunto. Quando fechei o contrato com a Companhia das Letras, no começo de 2009, eu já tinha um esboço do livro”.

A obra detalha episódios polêmicos, como o dia da audiência judicial que determinaria se “Roberto Carlos em Detalhes” seria ou não proibido de circular. À época, conta Araújo, o juiz responsável pelo caso pediu que o cantor autografasse um de seus discos. “Ali eu conto tudo o que senti naquele momento sendo acusado pelo Roberto Carlos, estando em um ambiente totalmente hostil, com um juiz francamente favorável ao cantor”.

Outro caso marcante retratado no livro foi a recente declaração de Chico Buarque, membro do grupo "Procure Saber", contrário às biografias não autorizadas. O cantor negou ter dado entrevista ao jornalista sobre Roberto Carlos. Após o escritor divulgar o vídeo do encontro realizado 1992, Chico precisou se desculpar. “Eu estaria liquidado, certamente, se eu não tivesse como comprovar a entrevista com o Chico. Por que aí seria a minha palavra contra a dele”.

À IMPRENSA, Paulo César de Araújo fala sobre o processo de produção de “O Réu e o Rei” e de seu desejo de republicar “Roberto Carlos em Detalhes”, caso seja aprovada a lei que permite biografias sem autorização prévia.

IMPRENSA - Seu contrato com a Companhia das Letras foi fechado em 2009. Por que demorou cinco anos para publicar o livro? Paulo César Araújo - Escrever é difícil mesmo. No meu caso, também sou professor, dou aula, corrijo provas e, nesse meio tempo, escrevo livros. Não tinha pressa para publicá-lo. E quando ele estava prestes a ficar pronto, surgiu o novo episódio do "Procure Saber". O Chico Buarque negou que eu o tivesse entrevistado e precisei incluir isso no livro. Conto no capítulo 13 quando recebi a notícia. Um amigo me ligou para avisar que estava no site de O Globo a acusação do Chico. Procuro contar no livro a minha versão do que vivi, e como tive que me virar para me safar de mais esse ataque.

Como se sentiu quando Chico Buarque negou que tivesse lhe dado entrevista sobre Roberto Carlos? Nem nos meus maiores pesadelos poderia imaginar ser acusado pela fonte de não tê-la entrevistado. Eu guardo todas as minhas entrevistas, tenho esse cuidado. Diante da acusação inesperada, o material me serviu de defesa, de prova. Eu estaria liquidado, certamente, se não tivesse como comprovar a entrevista com o Chico. Porque aí seria a minha palavra contra a dele.

Qual o momento mais difícil de ser contado no livro? No livro, descrevo desde a primeira vez que vi Roberto Carlos até o nosso embate na justiça, quando ficamos frente a frente. O capítulo 9 é o mais dramático. Ali eu conto tudo o que senti naquele momento sendo acusado pelo Roberto Carlos, estando em um ambiente totalmente hostil, com um juiz francamente favorável ao cantor. No fórum criminal, quando o livro foi proibido definitivamente com o tal acordo entre os advogados da editora Planeta, é o momento mais forte em termos de narrativa, de drama.

Diante de possíveis novos processos, tem receio de seu novo livro também ser recolhido? Não tenho receio. Não penso nisso. Se eu me preocupasse, eu não escreveria nem o “Roberto Carlos em Detalhes”, nem este novo livro. Não estaria falando mais dele. Vivo em um Estado democrático de direito, temos uma Constituição cidadã que garante a liberdade de expressão, eu sou um historiador, minha preocupação é com a história. Tudo o que acho relevante para explicar um fato econômico, social ou cultural eu procuro fazê-lo. Não posso ficar pensando no que o advogado do Roberto Carlos vai achar, até porque ali é outro mundo que se pauta em outra lógica. Espero que ao menos eles leiam o livro, porque da última vez, me acusaram antes de ler o livro.

A Câmara aprovou recentemente o projeto de lei que permite as biografias não autorizadas. A questão agora será avaliada pelo Senado e STF também se debruça sobre o caso. Pensa em republicar “Roberto Carlos em Detalhes”? Certamente o objetivo é esse, republicar o livro. Nunca me conformei com essa proibição e estou nessa luta até hoje. Mudando a lei, isso ficará mais fácil, mas não será automático. O texto final sendo aprovado, vou sentar com meu advogado e ver qual caminho tomar. Mas a ideia é publicar o livro, a censura é uma aberração. Com a mudança da lei, o Roberto Carlos vai ficar como o último censor do Brasil, e o livro, como a última obra literária proibida no País. Não sei se ele vai querer esse título para ele. Será até bom que esse livro volte a circular, porque não terá mais cabimento a proibição dele.