Biografia recém lançada de José Sarney causa polêmica e levanta questionamentos sobre veracidade dos fatos
Com nova biografia no mercado, o ex-presidente e senador José Sarney causa nova polêmica: veteranos na área de política questionam veracidad
Atualizado em 29/05/2011 às 18:05, por
Pamela Forti.
Highlander
e dos fatos e abordagem textual
No dia 29 de março, data da morte do ex-vice-presidente José Alencar, a Secretaria de Cultura de São Paulo publicou a seguinte frase no Twitter: "Por que foi o José Alencar e não o Sarney?". Momentos depois o tweet foi removido e um pedido de desculpas foi publicado no perfil da secretaria, no lugar da embaraçosa gafe. Dias antes o mesmo ocorreu com o Supremo Tribunal Federal, que sugeria a Sarney se aposentar no lugar do jogador de futebol Ronaldo. Os funcionários das instituições erraram ao se utilizar dos canais oficiais de onde trabalham em vez de suas contas pessoais para pensar alto. Mas o fato, tangente a tantas manifestações, públicas ou não, é que a figura do ex-presidente provoca cada vez mais reações negativas, intensificadas após sua quarta reeleição à presidência do Senado.Nesse contexto foi lançada, no final de março, a biografia autorizada do ex-presidente, escrita pela jornalista Regina Echeverria - também autora de "Cazuza, Só as Mães São Felizes" e "Furacão Elis". Desde então, resenhas e reportagens têm se pronunciado sobre o livro, quase em uníssono, com críticas veementes quanto ao teor da obra, taxada como parcial e inverossímil.
José Sarney desperta sentimentos controversos com a mesma facilidade que conduz os discursos no plenário; sejam afetuosos e cativantes, sejam controvertidos e indignados. Polêmico, influente, experiente, o senador é também ex-presidente da República, ex-deputado, ex-governador e proprietário do Sistema Mirante de Comunicação (que inclui três emissoras de TV, dezenas de retransmissoras e seis rádios). José Sarney é figura certa na memória dos mais velhos e no imaginário das novas gerações. Com uma extensa carreira, Sarney esteve presente no palco da política brasileira nas últimas cinco décadas, ora sob os holofotes, ora como coadjuvante, no centro de vitórias políticas e esteve envolvido nos mais polêmicos escândalos. Sempre despertando paixões. Com sua biografia não seria diferente.
A revista Veja publicou crítica de três páginas com o título "A biografia autorizadíssima", escrita por Carlos Graieb. Logo no trecho inicial, Graieb sugere que a obra inaugura um novo gênero, o da "autobiografia escrita por terceiros". Na opinião do jornalista, o texto reflete apenas a visão do biografado, sem mencionar incoerências na atuação de Sarney e relatar episódios históricos importantes, que influenciaram na vida e carreira do político maranhense. O jornal O Estado de S. Paulo também se manifestou a respeito, apontando imprecisões e erros no capítulo referente à terceira presidência de Sarney no Senado e ao escândalo dos atos secretos.O jornalista político e escritor Sebastião Néry, por sua vez, escreveu quatro longos artigos publicados em sua coluna, indicando uma série de episódios que, segundo ele, não condizem com a realidade.
A autora, Regina Echeverria, faz questão de lembrar que, como jornalista, a experiência de biografar um ex-presidente é uma oportunidade única. "Eu acho que a bronca é livre. Eu vou defender para sempre o direito das pessoas lerem e acharem o que quiserem a respeito do livro. Acho que, às vezes, me confundem com o personagem. Eu não sou o personagem. Sou uma profissional, eu vivo disso, eu faço biografias. Nem sempre as biografias são sobre os heróis, às vezes, são sobre os anti-heróis", defende ela.
UNILATERAL
O subeditor de política do jornal Correio Braziliense, Paulo Silva Pinto, conta que, por ser uma biografia autorizada, não nutria grande expectativa e não esperava grandes revelações. "É sempre um debate em que a réplica é dele. Ele fala uma coisa, tem outro criticando e depois a palavra volta a ele", argumenta Silva, que considera o livro pouco crítico à figura pública do ex-presidente. Embora haja passagens em que a autora expõe opinião de terceiros, Silva considera que Sarney tem sempre a oportunidade de se justificar no final do texto. De qualquer forma, o jornalista afirma que o livro não veio para quebrar paradigmas: "Eu acho que não cria nem antipatia nem simpatia em relação ao Sarney. Talvez o que ele faça é alimentar as opiniões dos dois lados".
A crítica principal, compartilhada pelos entrevistados, é que faltou uma cuidadosa checagem dos fatos para além da versão proferida por Sarney, o que daria mais autenticidade à obra, e evitaria erros de apuração. "Uma hora ela fala que o Sarney foi para a China e que foi a primeira viagem de um presidente brasileiro para -esse pais. Ora, o João Figueiredo esteve na China, então não foi a primeira viagem. Como em qualquer matéria, você tem que fazer o trabalho de checagem das informações que está colocando ali. Em se tratando de um livro, pior ainda. Porque uma matéria fica velha no dia seguinte, mas o livro é perene", critica Silva.
O jornalista Leandro Colon, do jornal O Estado de S. Paulo, engrossa o coro: "Ela poderia, por exemplo, conferir que a reforma administrativa do Senado, que ela menciona, não saiu do papel até hoje. E ela omite. Ela poderia conferir quando disse que o Sarney anulou todos os atos secretos, que eles foram revalidados logo em seguida. Faltou checar informações sobre o Senado. Ficou uma versão sob a ótica do Sarney". Colon fez parte da equipe de jornalistas que deu o furo do escândalo dos atos secretos, em 2009, e acompanhou o desenrolar da crise. Ele afirma que nunca foi procurado pela autora para debater o episódio. Por outro lado, Regina diz que os fatos contidos na obra são baseados em documentação. "Eu nem estou lendo essas críticas. Ele pegou o capítulo que interessava ao Estado, o capítulo sobre o Senado. E o resto do livro? Isso é crítica? Ele não fala do resto do livro, não posso levar a sério", rebate a escritora.
Na avaliação de Sebastião Néry, outro problema é a maneira como o senador refere-se aos antigos adversários e aliados políticos. "O Sarney faz um livro para realizar um acerto de contas com as pessoas que o ajudaram. Com o Vitorino [Freire], com o Ulisses Guimarães... o Ulisses foi buscá-lo no PFL para ser o vice do Tancredo. Ele esculhamba com o Ulisses....", comenta Néry, que acompanhou a vida de Sarney ao longo de sua carreira. O jornalista ainda afirma que o livro tem características marcantes do ex-presidente e pouco do estilo da autora. Para ele, o erro de Regina foi ter permitido que Sarney lesse os originais. "A Regina não podia ter facilitado. Ela não é uma pessoa do pedaço, porque sempre escreve sobre arte, sobre os artistas... nunca escreveu sobre política. É uma jornalista brilhante, mas o Sarney, no livro dela, deita e rola. Na verdade, o livro é mais do Sarney", conclui.
Regina conta que, ao longo dos cinco anos em que esteve empenhada em escrever a obra, Sarney mostrou-se sempre uma pessoa muito cordial, educada e culta. Com base nas mais de setenta horas de conversas gravadas e no diário pessoal do biografado, ela diz que descobriu também um homem angustiado e vítima de crises de depressão. "O Sarney sempre foi uma pessoa atacada. Você vê como ele é atacado. Um homem de 80 anos, à beira dos 81. Tem muita patrulha. Desculpe, eu acho que é uma história. Ninguém é totalmente mau ou totalmente bom. As pessoas são o que elas são", define a autora. Ela também diz que procurou não fazer julgamentos e se colocou apenas como narradora dos fatos.
Mesmo assim, Néry ainda contesta o real sentido da palavra "fato". "O livro não tem imprecisões. O livro é 50% verdade, 50% mentira. Se você pegar o dicionário da FGV, está claro que ele se elegeu em 1958 pela UDN. Aí ele finge que já era deputado desde 1954 pela UDN. Não é verdade. Ele se elegeu a primeira vez como 4º suplente, pelo PSD. O Vitorino é que tirava os deputados da Câmara, botava como secretário de Estado para o Sarney assumir o mandato. E depois rompeu com ele. Tá certo, em política as pessoas rompem. Mas ele fica querendo passar uma lixa sobre o passado". Embora muitos não gostem, seguem vivos e desafiantes a polêmica e seu protagonista.






