Balanço a 100 dias da Copa do Mundo: erros para todos os lados

Já estamos a menos de cem dias para o início da Copa do Mundo do Brasil. Diferentemente do que se esperava o clima de euforia ainda não tomo

Atualizado em 05/03/2014 às 14:03, por Anderson Gurgel e  de São Paulo.

O Mundial de Futebol bate à porta, mas ainda não há euforia entre os torcedores. Das estratégias de gestão do megaevento ao marketing esportivo, equívocos são vistos por todos os lados.

u conta das ruas e dos torcedores de futebol. A ressaca, de certa forma, chegou antes da festa. Para o “país do futebol” esse momento de espera, essa falta de entusiasmo com a chegada da Copa denuncia que, no ciclo de preparação desse megaevento, muito se errou.

E, pior: não é o caso de “desclassificar” um único time e seguir o “campeonato”. Há erros para todos os lados. E, talvez por isso, a sensação de ressaca é sentida ainda antes de a bola rolar e de o Brasil pleitear a conquista de mais um título.

O pior dos erros – ou o primeiro deles – inegavelmente envolve o Comitê Organizador Local (COL), os governos brasileiros (federal, estadual e municipal) e a própria CBF. Num país de “desmemória coletiva”, aqueles que ousem se lembrar de como tudo isso começou voltarão ao ano de 2007 e se depararão com um Ricardo Teixeira, na época presidente da CBF, e políticos dos mais variados níveis de poder, em entrevistas, prometendo uma Copa do Mundo que deixaria um enorme legado ao país.

O que vemos hoje é um cenário em que menos de um quarto do que foi prometido para as melhorias de infraestrutura pública foi (ou está sendo) concluído. Grande parte dos investimentos em vias e rodovias, sistemas de transporte público, aeroportos, entre outros, não foi adiante, ou foi cancelada ou, pior, sabe-se lá quando ficará pronta.

Para piorar ainda mais o quadro que envolve essa má gestão dos recursos públicos cabe lembrar que a promessa dos políticos citados acima era que a Copa do Mundo do Brasil seria gerida sobre um preceito básico: os estádios seriam construídos/reformados com recursos privados e as melhorias de infraestrutura demandariam recursos públicos.

Como se vê, a maior parte das obras públicas não vai sair e houve a necessidade de aumentar a destinação de recursos públicos para os estádios, que deveriam ser obras privadas. Esta é, sem dúvida, uma das chaves para entender a origem dos protestos envolvendo a Copa do Mundo.

É claro que temos que dizer que atrasos ou cancelamentos de obras não é privilégio da Copa do Mundo: afinal, o que no Brasil fica pronto dentro do prazo ou nas características inicialmente previstas em projeto? Caberia até perguntar: nós, brasileiros, sabemos projetar, planejar e seguir o que foi posto no plano, dentro de um cronograma? Tragicamente, a resposta parece ser não e a Copa do Mundo só veio nos brindar com mais uma faceta dessa nossa mazela cultural.

Contudo, também cabe lembrar que os erros desse Mundial não terminam nesse pronto. Sofremos de grandiloquência, ao querer doze sedes da Copa e, para mostrar que os problemas de gestão não são de uma única esfera pública, temos absurdos em todos os níveis, também estadual e municipal. O exemplo de São Paulo com a troca do Morumbi pelo Estádio do Corinthians é um exemplo disso.
Sob o risco de não fazermos um balanço honesto, também cabe dizer que a Fifa erra e muito: erra por ter mentalidade imperialista, por ser eurocêntrica e por problemas de gestão também. A ver a bizarrice do sistema de venda ingressos para a Copa 2014. Somente sendo o brasileiro um apaixonado por futebol para se submeter a um sistema falho e que não respeita até regras básicas do código do consumidor.

Por fim, os empresários dos negócios do esporte e a mídia também erram. Preços exorbitantes de passagens e hotéis afugentam torcedores e já começam a fazer “água” na ideia de um Mundial com turistas circulando de norte a sul do País. Além disso, o tom eufórico da Rede Globo, ignorando a desconfiança popular quanto ao evento, é tão indecente quanto campanhas infelizes como a da Adidas, que reforçam o preconceito e o turismo sexual com a linha de camisetas lançadas em fevereiro (veja mais ).

A consequência de inabilidade, ganância e equívocos faz com que os projetos de marketing esportivo não tenham vingado em sua plenitude e corremos o risco, até, de não termos uma festa de rua à altura de uma Copa realizada no Brasil.
Crédito:Reprodução
Camisetas lançadas, em fevereiro, pela Adidas reforçam preconceitos e alimentam o imaginário sexualizado sobre a mulher e a cultura brasileiras
Com tudo isso, a esperança é que o “desempate nesse jogo de erros” venha de dois outros agentes desse jogo chamado Copa do Mundo: a Seleção Nacional e o torcedor brasileiro.

Quanto ao segundo, esperamos que, quando o jogo rolar, mostre toda a sua paixão pelo futebol, torcendo muito e contagiando o clima de ressaca que toma conta do megavento. Ou seja, esperamos que o futebol salve o megaevento esportivo.

Em relação àqueles que preferem protestar, que o façam dentro do mais completo clima democrático. Haveria maior lição à “dona” Fifa que mostrar para ela que sabemos amar o futebol e a democracia?

Quanto à seleção, está aí quem pode fazer toda a diferença e mudar uma boa parte da história da Copa do Mundo de 2014. Se jogar bonito, pode salvar o mundial, ajudar a melhorar a má gestão do evento e até mesmo reverter alguns dos resultados medíocres obtidos em termos gerais. Se jogar mal, vai acirrar ânimos e aumentar a sensação de ressaca e fiasco, com desdobramentos ainda não previsíveis.

Qual cenário vingará? Ainda não sabemos, mas estamos cada vez mais perto de conhecê-lo.

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