Visita do Papa: Via Crucis dos jornalistas

Visita do Papa: Via Crucis dos jornalistas

Atualizado em 09/05/2007 às 15:05, por .

Visita do Papa: Via Crucis dos jornalistas

Foto: Papa Bento XVI; crédito : L´Osservatore Romano

Por Rodrigo Manzano/Diretor Editorial de IMPRENSA e Patrícia Stifelman (Colaboração para Portal Imprensa)

Informações desencontradas, falta de organização e mudança das regras na última hora transformam a vida dos jornalistas escalados para cobrir a visita do Papa Bento XVI em um inferno

Ontem (08/05) foi apresentada à imprensa a estrutura de apoio aos jornalistas para a cobertura da visita do Papa Bento XVI ao Brasil, que acontece entre hoje e domingo. A sala com 240 computadores destinados aos mais de 3 mil jornalistas, entre estrangeiros e brasileiros, segundo números da organização, foi mostrada em alguns telejornais. O Mosteiro de São Bento, hospedaria do papa em São Paulo, é certamente o local mais mostrado pela mídia nos últimos dias. Até a cama e o banheiro de Sua Santidade foram fotografados. A história que ninguém contou, no entanto, reside nos bastidores da relação entre jornalistas e comitê de organização da visita papal. Desde ontem, jornalistas acotovelam-se em informações desencontradas. O Portal IMPRENSA acompanhou a Via Crucis dos veículos.

Habemus crachá

Às 10h de ontem, os jornalistas que haviam solicitado credenciamento para a cobertura ao Palácio do Itamaraty esperavam pela retirada de seus crachás no Anhembi, em São Paulo, quartel general da imprensa no evento. Depois de mais de uma hora, a notícia dada aos jornalistas era a de que a Polícia Federal ainda não tinha liberado as credenciais e que, portanto, todos precisavam retornar à tarde ou esperar até às 14h. No horário combinado, sobre a porta fechada da sala em que as credenciais seriam distribuídas, apenas um recado. "Abriremos às 15h". E a explicação dada àqueles que esperavam pela sua vez, era que a PF havia liberado apenas alguns lotes de credenciais e que os responsáveis precisavam de mais tempo para ver e avaliar a situação de cada um. A cena era dantesca: apinhados na porta, os jornalistas sacudiam as suas cartas de solicitação e gritavam o nome de seus veículos. Os estrangeiros nada entendiam. Enfim, algumas credenciais foram entregues. Desfalcadas, inclusive. Por exemplo: uma emissora pode ter pedido credenciais para várias equipes e não ter formado equipe inteira nenhuma.

Placebo

No entanto, as credenciais não representavam nada. Tinham a mesma validade que uma carteirinha de clube fora do clube. Quando recebiam os seus crachás, os jornalistas eram informados de que mais uma fila os esperava, a partir das 17h. Essa, para informar quais eventos do primeiro dia desejam ser cobertos por cada um. Sem garantia alguma que a entrada seria liberada. Para a organização, o nome dessa senha é "Passe secundário". Como num cartório, jornalista a jornalista informava, anotava, assinava e, ao final, esperava. A burocracia instalou-se no QG. Um integrante da equipe do UOL foi informado de que sua credencial teria sido liberada, mas a fotografia precisava ser trocada. A razão: estava de boné.

"Você não sabe ler?"

O problema, no entanto, já era anunciado desde a solicitação das credenciais. Todas as instruções burocráticas estavam disponíveis em um texto muito vago no site oficial da visita. Quando perguntada sobre detalhes importantes, como se a data limite de credenciamento era a de chegada dos documentos a Brasília ou de postagem no correio, a assessora oficial apenas dizia: "você não sabe ler?". Um repórter pouco paciente respondeu: "acho que sei. E você, sabe escrever?". Estava instalada a guerra entre assessoria e reportariado.

Excursão

Para garantir a entrada nos eventos do dia, os jornalistas são obrigados a comparecer até o Anhembi, ainda que o evento seja em outro lugar da cidade. Só ali, são informados se seu "passe secundário" foi concedido. E dali, obrigatoriamente, precisam ir em caravanas, com ônibus fretados pelo evento. "O mais preocupante é que, somente na hora, sabemos se o passe foi dado para a reportagem e para o câmera, ou para um dos dois, ou também para nenhum dos dois", lamenta uma produtora de televisão que, obviamente, não quer se identificar por hora. "O que me resta é, antes de dormir, rezar um pai-nosso", afirmou a jornalista que, ironicamente, é judia.