Vinte anos de jornalismo, o perfil de Fábio Altman | Por: Mauricio Miranda / UNIFIEO (SP)

Vinte anos de jornalismo, o perfil de Fábio Altman | Por: Mauricio Miranda / UNIFIEO (SP)

Atualizado em 02/12/2005 às 12:12, por Por: Mauricio Miranda*.

Vinte anos de jornalismo, o perfil de Fábio Altman | Por: Mauricio Miranda / UNIFIEO (SP)

O que se espera de um grande jornalista? Roupas extravagantes, discurso expansivo, olhar audacioso? Ou quem sabe uma mochila carregada de materiais, câmeras fotográficas, histórias e mais histórias? A profissão jornalista sempre cria inúmeras fantasias no imaginário popular. Do profissional espera-se um herói e na melhor das hipóteses, um super-homem. Mas, às vezes, ele é apenas o editor de uma revista de economia, com óculos aos moldes dos anos 90, olhar baixo, voz inexpressiva e roupas normais. Como Fábio Altman, editor da revista IstoÉ Dinheiro e autor do livro "A Arte da Entrevista", que reúne depoimentos de grandes nomes da história mundial.

Aos 17 anos, Altman prestou vestibular para jornalismo na Pontifica Universidade Católica (PUC) e arquitetura na Universidade de São Paulo (USP). Passou nos dois. Deixou os desenhos de lado e optou pelas palavras. Seu trabalho de conclusão de curso foi selecionado para a segunda versão do, hoje concorrido, curso Abril. Dali foi um pulo para a redação da revista Veja, onde ficou cerca de 8 anos.

Há duas décadas no jornalismo, Altman já foi correspondente na França. Lá entrevistou o excêntrico David Bowie. "Liguei na redação para saber o que eles queriam da entrevista. Na hora não falaram nada. Minutos depois me ligaram, dizendo que já tinham uma pergunta. Queriam que eu questionasse se Bowie era bissexual. Como faria isso?". Perto de terminar o encontro, o jornalista, constrangido, fez a pergunta. A resposta não poderia ser outra: "não é da sua conta". A entrevista saiu nas páginas amarelas. "Na hora de editar, deixei a questão por último. Mas, esse não foi o desejo da redação, que a colocou como primeira, mudando todo o sentido".

É essa manipulação da informação a favor da polêmica, que Altman critica na imprensa brasileira e principalmente na Veja. "Falta ética nos jornalistas e nos veículos de comunicação". Mesmo perplexo com a atual situação da cobertura jornalística no país, Altman não altera a fala mansa, que soa como um mosquito tsé-tsé.

Mas foi com essa simplicidade que o jornalista conseguiu se aliar a um bom fotógrafo na guerra da Bósnia, em Sarajevo. "Nos conhecemos no aeroporto. E quando chegou o táxi resolvemos dividi-lo. O que foi muito bom, pois o cara era excelente e conseguiu ótimas imagens para ilustrar minhas matérias". Durante os bombardeios eles corriam para os hospitais e cemitérios. Segundo ele, era ali que as melhores histórias nasciam.

Por falar em boas histórias, Altman participou como roteirista do documentário "O dia que o Brasil esteve aqui", filmado no Haiti. A idéia era registrar a passagem da seleção brasileira de futebol no devastado país. A euforia da população tomou conta da cidade. "A visita marcou a história deles". Mas tudo não passava de uma manobra diplomática do governo para fazer bonito diante do Conselho de Segurança da ONU. "Assim que o jogo com a seleção local terminou, os jogadores voaram de volta ao Brasil. Não fizeram nem um social com a população". A atípica antipatia brasileira fez muitos haitianos se sentirem usados. "Selecionamos algumas pessoas para serem personagens do nosso filme. Era triste ver nos olhos deles a decepção diante da jogada mal feita de Lula".

*Maurício Miranda é estudante de jornalismo da UNIFIEO (São Paulo/SP) - contato:mauric.mir@itelefonica.com.br