Um tango silencioso
Por Renato Barreiros, de Buenos Aires, Argentina

Um tango silencioso
Por Renato Barreiros, de Buenos Aires, Argentina

Atualizado em 10/10/2005 às 14:10, por Renato Barreiros e  de Buenos Aires.

Um tango silencioso
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Estar na Argentina como correspondente, ao contrário do que as vãs ilusões românticas podem sugerir, tem sido mais complicado que um final de tarde com uma fonte em um café portenho, cobertura de eventos culturais e diagnósticos das relações econômicas no MERCOSUL.

Não bastasse o presidente Kirchner fechar todas as portas de seu governo a grande parte da imprensa local e também aos nossos correspondentes, transformando a busca de uma fonte de algum ministério em uma façanha, os membros do governo brasileiro que passam por aqui também têm adotado uma postura reticente em relação aos meios brasileiros.

O ex-ministro e quase ex-deputado José Dirceu, quando passava por aqui, parecia reviver seus tempos de clandestinidade, já que além de não informar da sua visita ao país, quando descoberto, armava esquemas de segurança para fugir de nossos colegas.

Entre as pérolas de José Dirceu está uma história em que, sabendo da presença do ex-ministro aqui no país, alguns correspondentes ligaram para a embaixada brasileira para confirmar a visita de Dirceu. A resposta que obtiveram foi de que o órgão máximo de representação do nosso país aqui "desconhecia" tal fato, como se um ministro chegasse igual a qualquer turista brasileiro. Após tamanho papelão, nossos colegas ficaram de plantão na porta do hotel onde Dirceu estava hospedado e, como o hotel tinha somente uma porta de saída, o ex-ministro preferiu perder um jantar que havia agendado para não passar na frente da imprensa.

Outro membro do governo que também evitava falar com os nossos correspondentes era o ex-secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Fortes. Fortes, que hoje é Ministro das Cidades, não deve sentir nenhuma saudade dos tempos em que vinha freqüentemente à Argentina negociar com nossos "hermanos" e fugir de nossa imprensa. Embora desse entrevista algumas vezes, nossos correspondentes passavam dias e noites na porta do órgão governamental onde estavam ocorrendo as negociações para conseguir uma declaração do hoje ministro, o que rendeu fortes gripes a alguns colegas, já que a temperatura aqui no inverno chega a níveis bastante baixos.

Dentre todos os membros do governo que por aqui passaram, nada se compara ao Secretário-Geral das Relações Exteriores, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto. O desdém do nosso segundo diplomata mais importante na hierarquia do Ministério das Relações Exteriores chega a ponto de Guimarães não se dar ao mínimo trabalho de dizer a famosa frase "sem comentários", se reservando a olhar para a direção oposta cada vez que vê alguns de nossos correspondentes. Se o embaixador Guimarães foi o encarregado de articular a candidatura brasileira no BID e na OMC, já temos indícios da postura que pode ter nos levado à derrota.

Para fechar o triste contexto de nossos colegas na Argentina, a embaixada brasileira que até antes do governo Lula promovia cafés da manhã e reuniões informais com os nossos correspondentes para troca de idéias e conversas em off , resolveu adotar uma posição somente institucional com os representantes da imprensa brasileira, pondo fim a uma relação que beneficiava os dois lados e muitas vezes ajudava a estratégia brasileira nas negociações.

No meio do mar de intolerância pelo qual nossos colegas vêm passando na Argentina, se destaca a postura do Cônsul Geral e negociador brasileiro para a ALCA, embaixador Adhemar Bahadian, sempre solícito e educado com a nossa imprensa, da qual colhe elogios quando citado. Uma exceção no meio de tanto tango silencioso.