Um locutor não necessariamente roqueiro | Por: Andréa Alves - UNIP (SP)
Um locutor não necessariamente roqueiro | Por: Andréa Alves - UNIP (SP)
Atualizado em 30/01/2006 às 12:01, por
Por: Andréa Alves de Ascenção e aluna de Jornalismo da Universidade Paulista (Unip) de Santana - São Paulo.
Um locutor não necessariamente roqueiro | Por: Andréa Alves - UNIP (SP)
Luis Eduardo Lima Parez tem 34 anos é formado em administração, mas trabalha como radialista há 12 anos. Atualmente, no período matutino, leciona na Rádio Oficina, sobre locução, produção e programação de rádio; durante as tardes, desde 2002, opera e faz a locução dos programas: "as 10 da Kiss" e "BR 102", da rádio classic rock, Kiss FM - 102,1 Mhz e, à noite, Edu Parez (seu nome artístico) cursa o 3º ano de Rádio e Tv, na Faculdade Cásper Líbero.
Enquanto as músicas entravam no ar, pela rádio Kiss FM, Edu Parez contou por que escolheu ser locutor, como realiza esse trabalho, suas preferências musicais, sua vida pessoal, seus erros, seus acertos e como não poderia faltar, sobre classic rock.
O que você já fez antes de ser radialista?
Edu Parez "Eu já fui militar (aos 16 anos), já fiz Academia no Barro Branco, já fui oficial da polícia militar, já fui dono de lavanderia. Eu não servia pra ser policial, mas acabei sendo excluído, por mau comportamento, eu era meio... eu era mal comportado, sabe? Não dava para aquilo lá não. Pra evitar futuros dissabores da sociedade, né? Então me excluíram da Academia. Aí eu parti pra fazer o que eu gostava, era rádio".
Você pensava que algum dia fosse trabalhar com algo relacionado ao rock, em uma rádio?
E. P. "Não, sempre achei muito difícil trabalhar com isso. Eu entrei no rádio muito por acaso, muito por vontade. E essa vontade só surgiu depois que eu entrei na Academia militar, talvez, eu acho que pendeu mais por esse lado. Talvez, por ser muita opressão no militarismo ficou mais evidente aquilo que eu gostava, mas isso já com 20, 17, 18, 19 anos. Eu entrei em rádio em 1993, eu já tinha 22 anos. Aí trabalhei na rádio USP (trabalhou na rádio pirata da ECA), por um tempo como auxiliar de programador, eu era o responsável por correr atrás dos discos que eles (os locutores) precisavam. O nome era lindo, mas a função eu vou te falar, viu? Aí fiquei na rádio USP, depois montei uma rádio pirata no Ipiranga. Trabalhava com escola e faculdade. A gente ensinava a molecada. Era muito legal. Depois surgiu um oportunidade pra trabalhar fora, em Portugal, num modelo piloto, numa rádio lá em Portugal e eu fiquei dois anos em Portugal trabalhando com locutor, depois fui até coordenador de rádio, coordenei uma filiada lá em Portugal. Aí voltei para o Brasil, trabalhei na rádio Capital AM, na produção de um programa e depois (em 2002) vim trabalhar na Kiss e fiquei aqui até hoje".
Você se arrepende de ter feito ou deixado de fazer algo na sua vida?
E. P. "Ter começado em rádio antes. Eu tive uma má orientação. Quando me mandaram embora da polícia militar (por mau comportamento) eu fui pra ECA na Rádio Livre 106.X, porque a cada dia tava numa freqüência do transmissor, em 1993 e comecei a brincar de fazer rádio. E os "caras" da ECA me falaram que precisava fazer faculdade pra ser locutor, putz! Acabei de me formar no Barro Branco, fazer outra facul? Não quero, quero trabalhar em rádio, não quero fazer faculdade. Aí me desinteressou. Só em 1996, 1997 que eu descobri que tinha um curso que você faz que é no Senac, na Rádio Oficina, que em seis meses você tem o registro pra ser locutor. Então, eu me arrependo de não ter ido atrás e me informado a respeito do que eu precisava fazer. Acho que foi a partir daí que surgiu mesmo a minha vontade de trabalhar em rádio".
Como você começou a gostar de rock?
E. P. "Nossa... nossa... Acho que nunca ninguém me perguntou isso antes. Eu comecei a gostar de rock ouvindo rock nacional. Gostava do boom da década de 80, das bandas: Barão Vermelho, Titãs, Paralamas, daí eu comecei a ouvir outras coisas. Tinha 10, 12 anos gostava de rock, mas não era um roqueiro ainda".
Hoje você é roqueiro? E ontem você era?
E. P. "Eu sempre fui, na verdade eu sempre gostei de rock, eu nunca fui roqueiro".
Como você classifica essa diferença entre gostar de rock e ser roqueiro?
E. P. "Como um católico normal e um católico praticante. Eu não ia todo sábado e domingo só em casa que tocava rock, ia em outras. É a mesma coisa que dizer que eu não ia na igreja todo domingo. Pra mim tem essa diferença: eu sempre adorei rock, sempre curti muito rock, mas eu nunca fui roqueiro daqueles que você "come" uma enciclopédia do rock para conhecer a fundo as bandas, não, isso eu nunca fui. Eu sempre conheci as bandas que eu gostava, que eu sentia mais afim de ouvir. Enfim, essas eu sempre conheci, sempre gostei de saber um pouco, mas nunca de aprofundar. Coisas pontuais da banda eu ainda conheço e depois que eu entrei aqui (na Kiss) tive que buscar muito mais, porque o ouvinte da Kiss é altamente crítico. Se eu falar um álbum de uma determinada música errado em cinco minutos chega um e-mail pra mim , falando: Edu, você falou o álbum errado..."
Qual o maior imprevisto que já aconteceu na rádio Kiss FM?
E. P. "A gente já tirou a rádio do ar. Uma vez veio uma mulher da limpeza aqui, ela veio com o espanador dela: posso mexer aqui? Eu falei: pode. Aí ela abaixou pra pegar não sei o que, simplesmente a rádio saiu do ar. Ela puxou um fio que desligou a mesa de som. Ela saiu daqui gargalhando. Eu achei ótimo. Mobilizou quase o prédio inteiro. Coisa que acontece. Ainda existe esse espírito no rádio de você fazer o agora. Outro dia parou o computador. Que que eu vou fazer? Eu abro o microfone e começo a conversar com o ouvinte até soltar uma música. No rádio só existe música ou voz. Silêncio não existe, se tiver, tem alguma coisa errada pode ter certeza. O elemento humano faz com que merdas aconteçam, não tem outra palavra pra usar e são essa merdas que deixam o rádio mais humano, mais próximo do ouvinte. O legal de trabalhar em rádio é isso, se eu acabei de falar, não tem mais como voltar. A notícia que eu acabei de dar (Edu Parez tinha feito uma pausa na entrevista para ler o bloco noticioso, quando não colocou a entonação correta na leitura), eu errei a notícia, não tem como voltar".
Você sempre gostou do estilo de música que a Kiss toca (classic rock)?
E. P. "Hoje em dia é complicado falar isso, mas há um tempo atrás eu poderia falar isso com mais tranqüilidade, hoje eu já não acho que eu posso falar o que eu vou falar com muita tranqüilidade, mas antes de ser roqueiro eu sou radialista. Então, o radialista não tem uma praia bem definida, como radialista eu tenho que estar apto a trabalhar em diversas emissoras. Eu tenho que ter essa versatilidade, isso na teoria. Hoje, eu não concordo com esse pensamento. Porque eu acho que o mundo tá ficando cada vez mais segmentado e o meio rádio também vai ficar. Então eu acho que você tem que se especializar em alguma coisa, seja no rock, seja no forró, seja no dance, seja no hip hop, seja no sertanejo, mas você tem que se especializar, essa é a minha visão. É muito particular de como eu acho que o radialista tem que ser".
Como locutor da Kiss FM você evita falar suas preferências musicais, até em forma de própria censura, para não ficar desagradável ao ouvinte que não concordar com você?
E. P. "Não, eu falo, porque isso já é um pouco do espírito do rock. E você gosta de uma banda e não gosta de outra. É lógico que eu não vou fazer isso ficar evidente. É lógico que eu não vou falar: ouvimos essa merda dessa banda, essa porcaria dessa banda, odeio essa banda, nem tem porque falar dessa forma, mas eu acho que você faz ao contrário, você deixa evidente as bandas que você gosta, as bandas que fazem parte da sua história, que nem a gente fala (locutores da KISS FM), da trilha sonora de cada um de nós. Então isso a gente exalta aqui no rádio, mas não em detrimento de outras. Eu não rebaixo uma banda, não digo que ela é ruim, isso eu não faço porque se eu fizer isso eu vou estar antes de qualquer coisa denegrindo a imagem da minha própria rádio. Porque se eu falar mal de uma banda que toca aqui, eu estou falando mal do produto da rádio. Então eu estou sendo meio incoerente em falar: ouvimos essa porcaria. Se ouvimos essa porcaria, porque que toca"?
Em seguida, Edu Parez volta à locução da rádio, casualmente exemplificando a resposta anterior:
E. P. "Maravilhosa! Ouvimos Janes Joplim na Kiss..."
Depois de colocar a próxima música no ar, Edu Parez continuou:
E. P. "Então, eu evito. O gosto a gente discute no bar, com os amigos, discute em casa, sei lá, às vezes até em casa não dá, mas enfim é muito peculiar. Mas eu não me furto, por exemplo dizer no ar que eu acho o trabalho de uma banda melhor que o da outra. Não que a banda que tem um trabalho, na minha opinião, inferior a que eu gosto seja ruim. Se me perguntarem que baterista você prefere: Joey Baron, Neil Peart? Neil Peart, do Rush, não tô falando que o outro é pior. Aí é preferência, e o rock é cheio disso. O rock é muito de gosto, é muito de vontade própria, sabe? Tem gente que odeia Beatles, manda e-mail para a rádio: Pára de tocar Beatles, que eu não aguento mais Beatles, eu odeio Beatles".
Como você vê o classic rock influenciando a sociedade? Você acha que as pessoas que escutam a Kiss FM é porque gostam ou é por modismo?
E. P. "O rock antes de mais nada é comportamento. O rock antes de qualquer coisa reflete a sociedade, essa é pelo menos a minha idéia. Ele reflete o sentimento de uma sociedade. O que toca na Kiss já é um rock consagrado. É um rock velho? Não é um rock velho. É um rock antigo? Não, não é um rock antigo. É um rock de qualidade. O rock não perde o frescor. Não ganha idade, quanto mais tempo passa, mais eu vejo ele ficando atual. Porque hoje se faz rock copiando os modelos que tocam aqui. Eu posso te mostrar músicas do Kid Abelha que são inspiradas em Clash, eu posso te mostrar músicas do U2 que são inspiradas em Led Zeppelin. Mas isso claramente. Assim evidente. Clássico é muito subjetivo. Às vezes o que é clássico pra mim não é clássico pra você. Eu costumo dizer que se a Kiss toca é clássico, às vezes soa pretencioso demais, mas tem outras por aí dizendo que toca de tudo. Enfim, aí já parte mais para uma abordagem de mercado".
Edu Parez, anunciou: - duas e 34 , Dee Purple, Smoke on the water... e comentou:
E. P. "Essa música a gente (locutores) não aguenta mais tocar. A gente ouve e não aguenta mais. Mas tem que tocar, eu acho importante tocar. Essa (Smoke on the water) é a primeira colocada das 500 mais, a música mais pedida pelos ouvintes da rádio. Então, não tem o que falar, é "intocável". Mas pra gente já deixou de ser esse, o som do Dee Purple um som bacana, outros sons do Dee Purple são mais legais, entendeu?"
Por quê?
E. P. "Porque cansou, né? Porque caiu na mesmice, você vai falar em Dee Purple, você fala em Smoke on the water. Hei! Calma, não é só isso. Tem milhares de álbuns, essa é só uma música, é um hit, né? Eu tenho um pouco de reserva em relação a Starway to Heaven, do Led Zeppelin. Starway to Heavens da vida. Eu tenho um pouco de rejeição. Eu acho que existe na obra de determinada banda, outras coisas que você pode colocar para mostrar também um virtuosismo, talvez uma excelência de um clássico. Te garanto que nesse momento tem gente (ouvintes) dentro do carro, aumentando o volume e tocando, fazendo um air guitar dentro do carro e tocando junto. Tá tocando junto com o Dee Purple. E é esse o intuito da rádio, fazer com que isso aconteça, mas tem gente que vai falar: Arg! E vai mudar de rádio, vai trocar, não! Volto depois que acabar essa música. Como qualquer outra rádio, mas aqui eu acho mais gente vai ficar do que vai sair".
O rock está em primeiro lugar para você. E em segundo?
E. P. "Música popular brasileira".
O que você chama de música popular brasileira?
E. P. "A música que toca na rádio, que toca música popular brasileira. O rock pode ser considerado música popular brasileira? Será que existe rock nacional? Será que existe rock no Brasil? Mas o que eu julgo música popular brasileira? O que me vem à mente quando eu falo música popular brasileira? Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobin, Marisa Monte, Elis Regina, etc... Não gosto muito de Caetano não, às vezes eu acho ele meio chato, que nem o Bob Dylan, por exemplo (risos). Viu só o que você faz eu falar? (risos) Eu acho que as poesias dele são bacanérrimas, mas, pô, não deixa ele cantar não. Uma heresia, às vezes eu falo isso, os caras (ouvintes) querem me matar, mas que eu vou fazer, minha opinião, deixa eu, né?"
O que você diria às pessoas que gostam de rock momentaneamente, por modismo?
E. P. "Pô, em 30 segundos, que é o que eu tenho para voltar pro ar... Eu diria que a moda passa, que as modas sempre vão e vêm, né? Mas o clássico, como o próprio nome diz, permanece, não muda e vai sempre servir de referência. Então, vem conhecer o clássico aqui, 102,1 SP".






