SJSC: RBS compra A Notícia e monopoliza mercado de jornais em SC

SJSC: RBS compra A Notícia e monopoliza mercado de jornais em SC

Atualizado em 28/08/2006 às 12:08, por Fonte - Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina.

SJSC : RBS compra A Notícia e monopoliza mercado de jornais em SC

O que há anos vinha sendo um boato, agora se concretizou. O Grupo RBS comprou o jornal A Notícia , de Joinville. O fato foi confirmado na manhã de hoje (24), depois que o Grupo RBS divulgou Nota à Imprensa. A nota só foi publicada no site do Grupo por volta das 17 horas desta quinta-feira.

O fato é preocupante, pois torna ainda mais monopolizado o já escasso mercado de jornais de grande circulação em Santa Catarina. O presidente em exercício do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Josemar Sehnem, está preocupado com a negociação, uma vez que isso pode significar a redução do número de postos de trabalho para jornalistas. Ele destaca também os riscos de monopolização da informação, uma vez que a RBS controlará grande parte do fluxo de notícias em Santa Catarina.

Sehnem lembra ainda dos reflexos que a existência de uma única grande empresa de comunicação no mercado pode ter para as negociações salariais, já tradicionalmente tão difíceis no Estado. Nos dois últimos anos o reajuste foi para a Justiça do Trabalho porque as empresas se recusaram a pagar sequer a inflação.

Um grande mercado - Até ontem o Grupo RBS já possuía em SC os jornais Diário Catarinense , lançado em 1986, e Jornal de Santa Catarina , comprado em setembro de 1992 para que a RBS penetrasse no mercado do Vale do Itajaí. O DC , segundo a RBS, atinge 246 dos 293 municípios catarinenses, com tiragem de 38 mil exemplares durante a semana e 58 mil nos finais de semana. A circulação média do Santa é de 18 mil exemplares por dia, em 53 municípios.

O jornal A Notícia circulou pela primeira vez em 24 de fevereiro de 1923, passando a circular diariamente a partir de outubro de 1930. A empresa contrata 101 jornalistas em todo o estado (Joinville, São Bento do Sul e Florianópolis). Hoje, segundo dados da própria nota emitida pela Assessoria de Imprensa da RBS, o AN circula em 260 municípios vendendo em média 32 mil exemplares diários.

Com mais esta aquisição o Grupo RBS passa a ter 8 jornais diários, 26 emissoras de TV aberta, 2 emissoras locais de TV, 26 emissoras de rádio, 2 portais de internet, uma editora, uma gravadora, uma fundação e mais três empresas (logística, marketing e agronegócios). Como lembra o jornalista Carlos Damião, "a RBS está se tornando a mais poderosa rede de comunicação do Brasil depois da Rede Globo".

SC segue a mesma trilha de monopolização do RS - No Rio Grande do Sul houve processo semelhante de incorporação dos concorrentes e de monopolização do mercado.

O primeiro jornal do Grupo, o Zero Hora , foi comprado em 1970. Em 1973, a RBS forma uma rede de rádios FM. Em 1979, lança a primeira emissora da RBS TV, em Santa Catarina. Em 1986, lança o Diário Catarinense . Em 1992, compra o Jornal de Santa Catarina , em Blumenau, e em 1995 compra o jornal Pioneiro , em Caxias de Sul. Em 2000 lança o Diário Gaúcho , jornal popular ao mesmo estilo do Hora de Santa Catarina . E em 2002 a RBS lança o Diário de Santa Maria . Isso sem falar do cadernos de bairros do Zero Hora , que concorrem diretamente com diversos veículos locais de Porto Alegre.

De acordo com o jornalista César Valente, "com esta aquisição a RBS passa a ter uma situação privilegiada na comunicação de massa no estado, ao penetrar de forma espetacular no último reduto de resistência que era Joinville". Isso faz com que, segundo ele, cresça a importância dos pequenos jornais regionais como fonte alternativa de informação. Daqueles que conseguirem sobreviver.

Dumping? - A situação preocupa também pelo fato de que, além de comprar o jornal A Notícia , o Grupo RBS está lançando, no dia 28 de agosto, um jornal popular, o Hora de Santa Catarina . Concorrente direto do recém-lançado Notícias do Dia , do empresário Marcelo Petrelli (TV O Estado/SBT), o Hora trará preço de capa 50% inferior, sendo vendido nas ruas a R$ 0,25. Há poucas semanas, o Notícias do Dia , sentindo-se ameaçado pelo anúncio do lançamento do Hora de Santa Catarina , havia se aproximado do A Notícia , e planejava ampliar a circulação para o norte do estado. O negócio foi abortado pela investida do Grupo RBS, que acabou comprando A Notícia .

Informações truncadas - A notícia do negócio só foi confirmada pelo e-mail enviado pela Assessoria de Imprensa a diversos veículos de comunicação na madrugada desta quinta-feira. Nem o site da RBS nem o do Jornal A Notícia faziam menção ao negócio até a metade da tarde. Segundo o blog "De Olho na Capital", do jornalista César Valente, o presidente do A Notícia , Moacir Thomazi, reúne a diretoria hoje para comunicar os detalhes da venda e preparar o anúncio oficial, que deve ocorrer na segunda-feira. A negociação havia sido comentada, durante a semana, pelos blogs dos jornalistas Paulo Alceu e Carlos Damião, e também pelo site Coletiva.net.

Sem dinheiro para reajuste salarial mas com caixa para comprar o concorrente - Um fato que salta aos olhos neste negócio é o duplo discurso do Grupo RBS. Para os trabalhadores, que pleiteiam reajuste salarial, é dito que a empresa não tem condições sequer de pagar a inflação do período. O Grupo RBS insiste na implementação da compensação de jornada para reduzir gastos com horas-extras.

Mas para o mercado, o discurso é outro. O Grupo RBS mostra que tem dinheiro em caixa ao comprar o concorrente direto em Santa Catarina. Segundo o jornalista Paulo Alceu "corre nos bastidores que [a transação] alcançou uma cifra de R$ 50 milhões".

Por que vendeu? - Este Sindicato desconhece problemas financeiros graves que tenham motivado a venda do jornal A Notícia . Pelo contrário, há indícios de que a saúde financeira do jornal joinvilense estava equilibrada. Se isso for correto, então por que os Thomazi venderam o jornal ao grupo gaúcho? O que os levou a ceder, depois de anos, à pressão monopolista da RBS?