SJRS - TV digital: para quê tanta pressa?
SJRS - TV digital: para quê tanta pressa?
Atualizado em 15/05/2006 às 08:05, por
Por: Renato Gianuca / Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul.
SJRS - TV digital: para quê tanta pressa?
Depois do Rio de Janeiro e São Paulo, coube a Porto Alegre, na noite de terça-feira, 9 de maio de 2006, sediar o seminário "Da democratização à digitalização das comunicações", realizado no plenarinho da Assembléia Legislativa gaúcha pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação - FNDC. Daqui, o debate prosseguirá em outras capitais.
O público, pequeno para a importância do tema em debate, mas atento e participativo, ouviu as exposições do professor da Unisinos e cineasta Giba Assis Brasil, da coordenadora-tesoureira do FNDC, Berenice Mendes Bezerra, e do representante gaúcho da Abraço - Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária, Josué Lopes. A professora Cláudia Cardoso, coordenadora do FNDC no Rio Grande do Sul, presidiu a mesa e iniciou o seminário apresentando os debatedores e enfatizando a necessidade de discussão ampla sobre o tema.
A principal questão que fica do seminário é esta: para quê tanta pressa em implantar a jato, no Brasil, o sistema digital de TV e rádio? Esta ânsia de definir de inopino a questão vem da parte dos grandes grupos radiodifusores nacionais. Esses grupos jogam com a política do "fato consumado". E esta correria não atende às necessidades da população, como foi enfatizado pelos debatedores.
Fala-se pouco do tema TV digital e o que é dito na mídia vem pautado pelos principais interessados, as corporações de radiodifusão e o governo federal. Chegam ao grande público, apenas, dois ou três pontos básicos: a TV digital vai melhorar a qualidade de imagem e som. "A TV será com imagem de cinema; o som terá qualidade de um cd", dizem para a grande massa, mantida na ignorância total sobre a real transformação que está por vir.
O FNDC, com o seminário de Porto Alegre, procura deixar claro à população que a mudança no sistema de transmissão poderá afetar a relação social dos cidadãos, o espaço público da política, o próprio mercado de trabalho, o formato da publicidade, a produção cultural brasileira e, enfim, o próprio direito à informação exata e imparcial.
"Com a tecnologia digital incorporada em massa pela sociedade, via TV, um conglomerado de mídia não terá nas mãos penas o poder político e cultural. Controlará uma rede com penetração física que vai além da porta de cada brasileiro, chegando à intimidade de seu lar. O poder comercial desse sistema sequer foi medido. Mas se sabe que, se antes as TVs precisavam veicular publicidade para pagar suas contas, agora elas poderão ser os próprios canais de venda", ensina a cartilha n° 1 do FNDC, lançada ao público durante o seminário de Porto Alegre.
Questões como essa, e muitas outras, motivaram os debates do encontro, que voltou a colocar temas como as oito famílias que dominam a mídia no Brasil. Esse domínio se dá através de um modelo monopolista e concentrador, único no mundo, que não prevê a separação entre transmissão de imagem e som e a produção dos programas.
Com esse modelo, destacou Assis Brasil, a TV é patrocinada por grandes empresas corporativas. Desta forma, a TV se torna refém e é condicionada por esses grandes anunciantes. Há ainda escassa programação local, pois o modelo está voltado para as quatro principais redes nacionais - Globo, SBT, Record e Bandeirantes. Agora, a pressa em implantar a TV digital parte dessas redes. Motivo? Elas temem a concorrência que virá, com a digitalização, de parte das grandes corporações multinacionais de telefonia, prontas para fornecer, via celular, por exemplo, imagem, som e conteúdo. Esta a razão da pressa dos grandes grupos, atropelando os interesses do grande público, mantido, como sempre, na ignorância do que realmente se passa nos bastidores do poder.
* Renato Gianuca, membro da Comssão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do RS






