SJMRJ - Associação dos Blocos da Zona Sul critica omissão do Prefeito Cesar Maia

SJMRJ - Associação dos Blocos da Zona Sul critica omissão do Prefeito Cesar Maia

Atualizado em 06/03/2006 às 08:03, por Por: Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro.

SJMRJ - Associação dos Blocos da Zona Sul critica omissão do Prefeito Cesar Maia

Diz o ditado que o pior cego é aquele que não quer ver. É mais ou menos como o prefeito do Rio de Janeiro, que ainda mantém os olhos fechados para este fenômeno que se tornou o carnaval de rua da cidade. Até as agências internacionais de notícias tentaram entender o que estava acontecendo no carnaval do Rio.

O correspondente de uma agência de notícias do Japão telefonou na sexta-feira:
- Por que este boom de blocos de ruas? Como isso aconteceu de uma hora para outra? - perguntava.

Não foi de uma hora para outra. Foi um processo de mais de 20 anos que começou com o Bloco do Barbas e o Simpatia É Quase Amor. A coisa foi acontecendo, e um sentimento geral de "eu quero é botar meu bloco na rua" - como na música de Sérgio Sampaio - foi tomando conta do povo. O espaço estava aí, desocupado, livre para um carnaval mais democrático.

No domingo anterior ao carnaval, o do Suvaco do Cristo desfilou. Cinqüenta mil pessoas! Ficamos assustados. Era algo como os integrantes de 12 escolas de samba do Grupo Especial desfilando na Rua Jardim Botânico! Se alguma coisa tivesse saído errada no Suvaco, quem responderia seria o presidente do bloco - que nem imaginava tanta gente por lá.

Em 2000, fundamos a Sebastiana - Associação de Blocos de Rua da Zona Sul, do Centro e de Santa Teresa. Já tínhamos esse tipo de preocupação. Éramos apenas um grupo de representantes de alguns dos então maiores blocos de rua da Zona Sul. Problemas comuns motivaram a criação da associação. Precisávamos achar respostas e chegar ao poder público.

A idéia era planejar de alguma forma o carnaval dos blocos em aspectos como segurança, trânsito, ambulantes... Plano nunca houve. Durante três anos a prefeitura colaborou com os blocos, através da Secretaria das Culturas, com uma verba para desfiles.

No início de 2005, procuramos de novo a prefeitura. Nem planejamento, nem verba para contratação dos serviços necessários. A desculpa era o envolvimento com eventos como réveillon, show dos Rolling Stones e outros considerados mais importantes para a cidade.

O pessoal do Bafafá comandava uma campanha pela colocação de banheiros químicos. Juntamo-nos a eles. A secretária especial de Eventos, Ana Maria Maia, recebeu o grupo uma vez, e nos remeteu à empresa que estava organizando o réveillon. Ela imaginava que alguma empresa poderia se interessar em patrocinar os banheiros químicos dos nossos blocos. Alguém pode imaginar uma empresa que queira associar sua marca a banheiro público? Procuramos depois o secretário das Culturas, Ricardo Macieira - folião do Suvaco do Cristo. Nada.

Durante o restante do ano não fomos sequer recebidos.
Passamos o ano debatendo o problema entre nós. Sabemos o quanto um bloco é prazeroso para quem está lá, na folia, mas o quanto pode ser inconveniente para outras pessoas que querem ter seu direito de ir e vir, de circular pelas vias públicas da cidade. Sabemos o quanto pode ser perigoso para a saúde pública, quando não há banheiros para atender às necessidades dos foliões.

Pressionada pelo Ministério Público, a prefeitura, através da Riotur, às vésperas do carnaval nos deu 440 banheiros que seriam divididos entre os blocos. A cidade ficou imunda, é claro. E se não houve nenhum caso grave de violência ou alguma tragédia, foi graças a nossa própria organização e à solidariedade que existe entre os que põem os blocos na rua e os foliões.

Se o prefeito olhar para os blocos de rua, vai ver que a economia cresce, e que mais dinheiro circula na cidade. E se for além, vai descobrir também que há um lado social. Nossas baterias, por exemplo, são compostas por pessoas de comunidades locais. No Meu Bem, Volto Já, do Leme, há a turma do Chapéu Mangueira. No Imprensa Que Eu Gamo, de Laranjeiras, há o pessoal do Dona Marta. No Escravos da Mauá, há a comunidade do Morro da Conceição.

Então por que o prefeito continua a fingir que os blocos não existem? Ele sequer os vê. O que vamos fazer daqui para a frente com o tamanho dos blocos é um desafio. Essa deverá ser nossa principal discussão para o próximo carnaval.
Mas uma coisa é certa: precisamos do poder público!

Precisamos da prefeitura para organizar o trânsito. Os trajetos são sempre os mesmos, não é difícil. Basta a CET-Rio desviar o trânsito com antecedência, orientar os motoristas a não estacionarem nos trajetos. Já seria de grande ajuda. Precisamos de policiais para inibir a violência e manter a paz. Precisamos de guardas municipais para afastar do interior dos blocos os carrinhos de ambulantes.

Quem sabe uma campanha pública que incentive os ambulantes a usarem isopores a tiracolo, como nas praias? Precisamos de alguém para nos ensinar a elaborar planos para escoamento de multidões. Precisamos de banheiros públicos e da Comlurb - talvez a única empresa da prefeitura com a qual a gente sempre pode contar.

Ainda assim, o carnaval de rua do Rio foi lindo. Com muito samba, marchinhas e fantasias, quem diria! Os blocos se tornaram gigantes, é verdade, mas agora é tarde. São do povo. Se depender de nós, o carnaval de rua do Rio vai continuar assim, aberto ao povo, sem cordas ou abadás. Nem que a gente tenha de reinventar tudo. E mesmo que a prefeitura continue insistindo em não nos enxergar.

Rita Fernandes - jornalista e presidente da Sebastiana - Associação dos Blocos da Zona Sul, Centro e Santa Teresa