São Paulo: não te reconheço mais, por Maurício Miranda
São Paulo: não te reconheço mais, por Maurício Miranda
Atualizado em 29/05/2006 às 17:05, por
Maurício Miranda e estudante de jornalismo da UNIFIEO.
São Paulo: não te reconheço mais , por Maurício Miranda
Por Talvez fosse mais uma segunda-feira carregada de trabalho. Ou quem sabe um início de semana brando, com poucas novidades e tão rotineiro que pudesse passar despercebido. Mas não era. O dia, que no calendário marcava 15 de maio, passaria a fazer parte de uma história com pouco sentido, muitos boatos e uma verdade: o medo.Acostumada a não parar, São Paulo amanheceu mais cinzenta naquele dia. O céu reservava uma chuva que não veio. O frio avisava à proximidade do inverno. No centro da cidade, homens e mulheres andavam por ruas semi-vazias, carregando na face expressões de angústia e indignação. Diferente do normal, as pessoas se olhavam.
No fundo, ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo, talvez nem quisessem saber. O final de semana as assustou. Trouxe notícias assombrosas de uma Bagdá debaixo dos nossos pés. Mortes e incêndios povoaram as TVs por todo o país. Alguns ônibus e terminais deixaram de operar. Ameaças fecharam colégios e universidades.
Às cinco da tarde São Paulo se transformou num caos. O comércio desceu as portas e encerrou o expediente. As empresas dispensaram seus funcionários. O barulho dos passos pelas ruas completava a sinfonia formada por sirenes de ambulâncias e carros de polícia.
A pressa de chegar em casa, talvez o lugar mais seguro naquele momento, obrigou todo mundo a correr. Nem a pobre pomba que procurava alimento no chão sujo do viaduto Santa Efigênia escapou das pernas rápidas de uma moça com medo. Duas crianças em frente ao Teatro Municipal formavam uma dupla sertaneja que insistia em não parar de cantar. No final de uma das músicas, a dúzia de pessoas que os rodeavam permaneceu em silêncio. Era como se tivessem desligados. "Vamos gente, aplaudam", gritou um dos meninos. Sem graça, as mãos se ergueram e algumas palmas mórbidas movimentaram o ar. Seria falta de coragem?
Entre a Rua da Consolação e a Avenida Rebouças, carros e ônibus disputavam espaço no concreto. O congestionamento obrigava o povo a descer dos veículos e seguir a pé pela calçada. Hollywood demoraria meses para armar aquela cena. Milhares de pessoas transitando num pânico contido. Um entre muitos, encontrou espaço para rir da própria contradição: "Vamos pessoal! Desçam do buzão, se não vão perder Belíssima". Os que riram da piada, rapidamente voltaram aos traços assustados e seguiram seus caminhos. Cada um por si e o medo com todos.






